Siena não dormiu.
Virou de um lado para o outro, o olhar preso no teto escuro. A mão repousava sobre o próprio ventre, ainda incrédula.
Grávida.
A palavra ecoava dentro dela como um segredo grande demais para caber no peito.
Quando o sol começou a clarear o quarto, desenhando faixas douradas pelas cortinas, ela ainda estava acordada.
Vittorio dormia profundamente ao lado dela. Sereno. Forte. Alheio à tempestade que ela carregava.
Ela o observou por longos segundos.
Ele vai surtar.
Ele vai me proibir de tudo.
Ele vai me m***r.
Ou… ele vai sorrir?
O coração apertou.
Silenciosamente, saiu da cama.
Pegou o celular.
Ligou.
— Bea?
— Siena? São seis da manhã!
— Eu preciso te ver. Agora.
O tom era tão diferente que Beatrice sentou na cama imediatamente.
— O que aconteceu?
— Só… vem comigo. Antes do shopping abrir. Antes de todo mundo acordar. Eu preciso resolver uma coisa. E não dá pra resolver sozinha.
Beatrice ficou em silêncio por um segundo.
— Estou indo. Mas o Luca vai me m***r.
— Vem sozinha.
⸻
Siena saiu antes de Vittorio acordar.
Sem avisar.
Sem seguranças.
Apenas deixou um bilhete rápido na mesa da cozinha: Volto logo.
Ela e Beatrice se encontraram com a cidade ainda despertando.
— Você está pálida — Bea murmurou, segurando o rosto da irmã. — Está me assustando. O que aconteceu?
Siena respirou fundo.
— Eu preciso ter certeza.
Beatrice franziu o cenho.
— Certeza do quê?
Siena apenas segurou a mão dela.
— Vamos ao médico. Você vai entender.
O exame de sangue pareceu durar uma eternidade.
Enquanto aguardavam, o celular de Siena começou a vibrar.
Vittorio.
Ela fechou os olhos antes de atender — mas não atendeu.
— Eu não vou atender — disse para Beatrice.
— Ele vai ficar mais preocupado. E irado.
— Ele vai entender depois.
Vittorio ligou várias vezes. Ela continuou ignorando.
A enfermeira chamou seu nome.
Alguns minutos depois, o mundo parou.
— Parabéns — disse a médica com um sorriso gentil. — Você está grávida.
Siena ficou imóvel.
Beatrice levou a mão à boca.
— Não pode ser…
— Pode, sim — a médica confirmou, mostrando o exame. — É muito recente, mas está tudo bem. Podemos agendar o início do seu pré-natal.
Siena m*l ouvia.
As lágrimas vieram primeiro em silêncio.
Depois em soluços.
Beatrice a abraçou com força.
— Você vai ser mãe…
Siena chorava e ria ao mesmo tempo.
— Bea… e se o Vittorio não quiser? E se ele me proibir de tudo?
— Ele vai amar essa criança — Bea afirmou com convicção. — Ele pode ser muitas coisas. Mas ele ama você.
Siena pousou a mão no ventre.
Um filho.
Deles.
O celular voltou a vibrar.
Não dava mais para ignorar.
Ela atendeu.
— Onde você está?
A voz dele estava alta. Mas estava controlada. O que era pior.
— Eu… saí cedo.
— Sem seguranças?
Silêncio.
— Siena.
— Eu estou com a Bea.
— Não foi o que combinamos.
Ela respirou fundo.
— Eu precisava resolver uma coisa.
— Você não sai sozinha. Não depois de tudo. Você me prometeu.
A irritação começava a ser atravessada pela preocupação.
— Eu estou bem.
— Eu sei que você está no médico. Já vi sua localização. Por que não me deixou ir com você?
— Vittorio… eu não sei. Acho que precisava da Bea.
— Nunca mais saia sozinha. Eu vou mandar os seguranças. Tenho algumas coisas para resolver.
— Não precisa. Eu quero esse momento sozinha.
— Siena. O que está acontecendo?
— Eu explico depois.
— Eu quero saber agora. Ou vou até aí.
Ela fechou os olhos.
— Eu vou te explicar quando estiver na sua frente. Agora eu preciso que cumpra o que disse sobre não invadir meu espaço… e confie em mim.
Silêncio.
Ele desligou.
Estava furioso. Mas sabia que poderia ser algo sobre a gravidez, não queria ser grosso com ela e nem chatea-la, ultimamente tudo o que ele dizia, fazia ela ficar chorona ou irritada, então preferiu desligar. Pra evitar o pior
Beatrice apertou a mão dela.
— Ele vai surtar.
— Eu sei.
⸻
Depois do médico, foram ao shopping comprar os materiais da faculdade.
Era como se precisassem se agarrar à normalidade.
— Vamos continuar com o plano — Siena disse, tentando se convencer. — Eu não vou parar minha vida.
— Vai contar pra ele hoje?
Siena sorriu, nervosa.
— Hoje à noite.
— Vou comprar uma roupinha pra entregar pra ele. Quero fazer uma surpresa — continuou Siena
O sorriso dela ficou mais largo.
Andaram por lojas de bebê. Tocaram tecidos pequenos demais para parecerem reais. Pela primeira vez, o medo deu espaço à esperança.
— Marquei a primeira consulta do pré-natal. Semana que vem. Quero o Vittorio comigo. Vai dar tempo de ele aceitar.
Beatrice riu.
— Eu duvido que ele precise de tempo pra aceitar.
— Você que parece precisar — continuou Beatrice.
As duas riram.
Foi Beatrice quem percebeu primeiro.
— Siena…
— O que foi?
— Aquele homem de preto estava atrás da gente no estacionamento.
Siena tentou manter a calma.
— Deve ser coincidência.
Mas não era.
Entraram em outra loja.
Ele estava lá.
Mudaram de corredor.
Ele reapareceu.
O coração de Siena disparou.
Ela pegou o celular.
— Vittorio.
— O que foi?
— Nós viemos ao shopping.
Silêncio pesado.
— Siena…
— Eu acho que estamos sendo seguidas.
A voz falhou.
Do outro lado, o mundo de Vittorio parou.
— O quê?
— Um homem de preto. Ele está aqui.
A respiração dele mudou.
Fria.
Letal.
— Escuta com atenção. Procura uma loja. Um provador. Qualquer lugar fechado. Tranca a porta. Eu e Luca estamos indo.
— Vittorio…
— Fica na linha comigo.
Ela segurou a mão de Beatrice.
— Bea…
— Eu estou aqui.
Os passos atrás delas aceleraram.
Siena virou a esquina do corredor
E deu de cara com ele.
O pai de Eduardo.
O sorriso era lento. c***l.
Dois homens surgiram atrás.
Beatrice tentou puxá-la.
Tarde demais.
Ele arrancou o celular da mão de Siena.
Levou ao ouvido.
— Vittorio… que saudade de falar com você.
A voz do outro lado veio baixa. Mortal.
— Se você tocar em um fio de cabelo da minha mulher, eu juro que te mato da forma mais lenta que puder imaginar.
— Não precisa de tanta violência — respondeu, irônico. — Eu vou cuidar bem delas. Igual você cuidou do meu filho.
Riu.
Beatrice gritou.
Siena tentou reagir.
Mãos fortes as puxaram.
O mundo escureceu.
Antes de desligar o telefone, ele sussurrou:
— Minha vez de tirar o que você ama.
A ligação caiu.
Vittorio ficou imóvel por meio segundo.
Depois destruiu a mesa do escritório com um único golpe.
— LUCA!
O olhar dele já não era humano.
Era guerra.
— Ele pegou elas.
Luca empalideceu.
Vittorio respirava como um predador.
— Ele acabou de assinar a própria sentença.
A câmera de segurança mostrava o estacionamento.
Um carro preto saindo.
E dentro dele…
Siena e Beatrice.
Amarradas.
Desaparecendo.