Capítulo 8 — O Dia em Que Tudo Mudou

1476 Words
O grande dia chegou. E, junto com ele, um nó no estômago que Siena não conseguia desfazer. Ansiedade, medo, expectativa… tudo misturado. Ela sabia que aquela seria a noite de núpcias e, por mais que tentasse se convencer do contrário, não estava pronta. Logo pela manhã, a casa começou a se encher. Madrinhas, a irmã, Izabela. Profissionais de todos os tipos circulavam ao seu redor: maquiador, cabeleireira, estilista, fotógrafo, cerimonialista. Gente demais. Vozes demais. Toques demais. Mesmo com Vittorio ao seu lado nos últimos dois dias, Siena não havia conseguido dormir nem comer direito. Sentia que estava prestes a desabar. Quando viu a mãe chegar acompanhada da irmã e da amiga, algo dentro dela cedeu. O choro veio forte, descontrolado. Siena se jogou nos braços da mãe e chorou como não chorava desde criança, um choro profundo, apertado, de quem estava prestes a atravessar um limite que não escolheu. — O que foi, filha? — a mãe perguntou, assustada. — Ele te machucou? Ele fez alguma coisa com você? — Não… — Siena negou com a cabeça, ainda chorando. — Ele tem sido bom… do jeito dele. Nunca me machucou. Mas eu estou apavorada. Com o depois. Com a minha vida… e com hoje à noite, mãe. Eu não sei como fazer e o que fazer. A irmã tentou suavizar: — Eu também fiquei nervosa na minha primeira vez, Siena. Se ele é bom como você diz, ele vai ser paciente. Não vai te machucar. Você só precisa tentar relaxar. A mãe, porém, completou num tom que fez o estômago de Siena revirar: — E se ele não for paciente… feche os olhos. Deixe ele fazer o que tem que fazer e vai acabar rápido. Aquelas palavras apertaram ainda mais o peito de Siena. — Querida — interrompeu o maquiador, tentando manter o profissionalismo —, você precisa parar de chorar. Vou passar o dia inteiro refazendo essa maquiagem? Seu marido não vai gostar de te ver assim. MARIDO. A palavra ecoou na cabeça dela como um peso. Não havia mais como fugir. Horas depois, Siena estava pronta. O vestido era digno de um conto de fadas, estilo princesa, elegante sem exageros. Os cabelos longos estavam presos em um penteado perfeito, sustentando uma coroa delicada. A maquiagem realçava seus traços naturais. Ela estava… deslumbrante. Ao chegar à igreja, o pai a aguardava. A marcha nupcial começou. Quando as portas se abriram, o mundo de Vittorio parou. Ela vinha em sua direção como uma visão, bela demais, frágil demais, perfeita demais. O peito dele apertou, o corpo reagiu instantaneamente. Ele precisou se controlar para não apertar os punhos. Quando o pai de Siena colocou a mão dela na dele, Vittorio sentiu o peso real do momento. Durante a cerimônia, ele m*l ouviu as palavras do padre. Só conseguia olhar para ela. — Pode beijar a noiva. O coração de Siena disparou. Vittorio levou a mão ao rosto dela com cuidado, como se estivesse tocando algo precioso demais para quebrar. Os olhos dele queimavam de desejo. A boca se aproximou devagar… e, finalmente, os lábios se tocaram. Não foi um beijo inocente. Foi longo, controlado, mas carregado. Um selinho firme, quente, que fez o corpo de Siena arrepiar inteiro, e fez Vittorio se afastar antes que perdesse o controle ali mesmo. A vontade dele era outra. Muito mais. No carro, a tensão continuava. — Siena, minha piccina… — ele disse, com a voz baixa. — Você está linda demais. Minha vontade é te levar direto para casa. Ela gelou. — Mas preciso te explicar como vai ser a festa. Você vai dançar comigo e com dois aliados. É tradição. — O tom ficou sério. — Dança rápida. Pouca conversa. Braços longe da sua cintura. Eu não quero precisar m***r ninguém hoje. Tentou soar leve, mas o aviso era real. — E depois… vamos para a Grécia. — Grécia? — ela perguntou, ainda atordoada. — Lua de mel. Eu jamais te deixaria sem isso. Quero que sua primeira vez seja perfeita. O estômago de Siena se revirou. Na festa, ela conheceu as esposas dos aliados. A primeira dança passou rápido, em silêncio. A segunda não. — Prazer, Eduardo — disse o homem, segurando sua mão com firmeza demais. — Está preparada para hoje à noite? Siena fingiu não entender. Ele se aproximou mais do que devia. — Vittorio é temido até por nós. Eu daria tudo pra ver ele te destruir na cama… ver quanto tempo leva pra te adestrar. O sangue de Siena gelou. — Houve um tempo — ele continuou, sorrindo — em que, depois do noivo, um aliado também tinham direito à esposa, mostrava lealdade. Eu daria qualquer coisa pra te f@der com força. Ela se afastou bruscamente. — Vittorio te mataria por isso. — Você acha que ele acreditaria em você? — ele riu. — Nossa lealdade vale mais que qualquer mulherzinha. Siena largou a dança e correu para o banheiro. Siena entrou no banheiro quase tropeçando nos próprios pés. Trancou a porta e se apoiou na pia, ofegante, sentindo o coração disparado como se estivesse fugindo de algo muito maior do que aquela festa. O reflexo no espelho a encarava, pálida, os olhos marejados, os lábios tremendo. As palavras de Eduardo ecoavam na cabeça dela como um veneno. “Te f@der com força.” “Adestrar.” “Mulherzinha.” O nojo subiu pela garganta. As pernas fraquejaram e Siena deslizou até o chão, sentando-se com o vestido espalhado ao redor do corpo. Chorou em silêncio no começo, tentando conter os soluços, mas logo perdeu o controle. Era um choro profundo, convulsivo, de quem se sentia invadida, diminuída, reduzida a algo que não escolheu ser. Ela abraçou os próprios joelhos, sentindo o corpo inteiro tremer. Não era só medo da noite de núpcias. Era medo de ser vista como posse. Como objeto. Como algo que poderia ser usado. Depois de alguns minutos — ou talvez horas —, ouviu batidas suaves na porta. — Siena? — a voz da irmã veio baixa, preocupada. — O Vittorio está te procurando. Siena respirou fundo várias vezes antes de responder. — Diz que eu já vou. Levantou-se com esforço. O espelho mostrava alguém diferente da noiva que havia entrado ali mais cedo. Mais frágil. Mais fechada. Quando saiu, Vittorio estava no corredor. O olhar dele a encontrou de imediato. E algo ali mudou. Ele conhecia Siena o suficiente para perceber, aquele não era nervosismo comum. Havia algo errado. Algo profundo. Algo que ela ainda não estava pronta para dizer. — Nosso avião já está pronto — disse ele, mantendo a voz firme, mas observando cada microexpressão dela. — Vittorio… — ela engoliu em seco. — Eu não arrumei nada. Não trouxe nada comigo. — Compramos tudo lá — respondeu sem hesitar. — Agora vamos. Já chega de gente, de barulho… de olhares. Ela concordou em silêncio. No carro, Siena permaneceu quieta. As mãos entrelaçadas no colo, os olhos fixos na janela. Vittorio não insistiu. Apenas segurou a mão dela por alguns segundos, num gesto discreto, protetor. No avião, o silêncio ficou ainda mais pesado. Assim que decolaram, Vittorio finalmente falou: — Você não disse uma palavra desde que saímos da festa. — Eu estou cansada — respondeu rápido demais. Ele virou o corpo na direção dela. — Siena… não minta pra mim. Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo. A resistência cedeu. — Eu estou com medo — confessou, a voz quebrada. — Medo de hoje. Medo de não conseguir. Medo de não ser suficiente. Eu sei que essa noite… — respirou fundo — …essa noite é seu direito. Mas eu não estou pronta. Por favor… hoje não. Vittorio segurou o rosto dela com cuidado, obrigando-a a olhar para ele. — Olha pra mim. Ela obedeceu. — Eu não te quero por obrigação. Não te quero por direito — disse ele, a voz baixa, intensa. — Eu te quero porque te desejo. Porque quero que você confie em mim… e me deseje também. Você não precisa me pedir por favor. Eu jamais te forçaria. As lágrimas escorreram livres. Ele a puxou suavemente para junto do peito. Siena encostou a cabeça ali, sentindo o coração dele bater forte e constante, diferente do caos dentro dela. A chegada à Grécia foi silenciosa. O hotel era luxuoso, iluminado por luzes suaves, com o som distante do mar. Um cenário que deveria ser romântico… mas, para Siena, parecia apenas mais um território desconhecido. No quarto, Vittorio parou perto da porta. — Vamos tomar banho e descansar — disse. — Temos um longo dia amanhã. Ela assentiu. Tomaram banho separados. Dormiram na mesma cama, abraçados, como já haviam se acostumado. Com ele, o desejo queimava por ela. Mas acima de tudo, havia algo maior, ele já a amava, e não a machucaria para ter o que queria.
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