Vittorio e Siena desceram juntos.
Ela sentou-se ao lado dele, a postura ereta, as mãos tranquilas demais para alguém cujo coração batia alto no peito. Beatrice estava alguns lugares à frente, próxima de Luca. As duas trocaram um olhar rápido, curto, mas cúmplice.
As apresentações foram formais e breves.
Aliados do sul. Nomes antigos.
Era a primeira vez que muitos deles viam Vittorio fora de uma cúpula completa, e isso, por si só, já era uma perigo.
O jantar começou a ser servido.
Homens acostumados a mandar.
A observar antes de falar.
A medir forças até no silêncio.
Eles sabiam — ou acreditavam saber — que as mulheres não estavam ali para ouvir tudo.
— Depois do jantar, eu e Luca resolvemos as estratégias no escritório — disse Vittorio, com a calma de quem não precisava se impor.
— Trouxe alguns relatórios também — retrucou um dos aliados. — Aquele desgraçado não vai roubar minha área e sair impune.
— Nossa área — Luca corrigiu, seco.
Beatrice percebeu a irritação imediata no marido. Antes que o clima azedasse, deslizou a mão pela perna dele por baixo da mesa, um gesto discreto, calculado.
— Esse frango está ótimo, não está? — comentou, mudando o tom.
Siena entrou no jogo.
— Também achei, vou pedir a receita — disse com um sorriso educado. — Minha cozinheira vai amar.
Vittorio interrompeu, a voz firme, definitiva.
— Vamos resolver isso no escritório. Elas não precisam ouvir isso.
O silêncio que se seguiu durou um segundo a mais do que o necessário.
Sempre durava quando Vittorio falava.
Um dos aliados inclinou-se levemente na direção de Siena.
— A aliança se fortalece quando a casa está… completa.
— A casa está completo comigo ao lado dela. — respondeu seco.
Mas a mão dele se fechou de leve sobre a perna de Siena, sob a mesa.
Aviso.
Estava no seu limite.
Siena não respondeu.
O jantar seguiu, protocolar, até que os homens se levantaram e seguiram para o escritório.
Pouco tempo depois, despedidas rápidas. Formais demais para quem fingia cordialidade.
Quando subiram, Siena estava inquieta.
No quarto, Vittorio tirava o paletó e afrouxava a gravata enquanto ela permanecia sentada na beira da cama, o olhar fixo em um ponto invisível.
— Você ficou quieta — ele observou, sem acusação. — O que quer saber?
Ela respirou fundo.
— Como vocês conseguem ser aliados e parecer que vão se m***r a qualquer momento?
Vittorio parou.
Virou-se para ela com atenção total.
— A cúpula e a aliança existem justamente pra isso — respondeu. — Pra impedir que homens como nós ajam como os animais que somos. E, claro… tem dinheiro envolvido.
Ele se aproximou.
— Mas todos sabem que eu tenho limites. — tocou o rosto dela com o polegar. — E você é o meu.
Ela engoliu em seco.
— Todos sabem disso?
— Sabem. — respondeu sem hesitar.
Depois suavizou o tom.
— Não pensa mais nisso hoje. Vamos tomar um banho e dormir. Amanhã a viagem é longa.
Ela hesitou.
— Pensei… talvez pudéssemos ficar mais um dia. Falei com a Bea, pra ela tudo bem.
Vittorio segurou o rosto dela com delicadeza, o olhar escuro, carregado de intenção.
— Pra ficarmos, eu ia precisar te f0der essa noite inteira. — disse baixo, provocador. — E eu sei que você não vai deixar.
Siena riu, empurrando-o de leve.
— Você é completamente depravado.
— E completamente seu.
Tomaram um banho rápido.
Dormiram juntos, como sempre, ele agarrado a ela, respirando o cheiro do cabelo dela como se aquilo o mantivesse no eixo.
⸻
A estrada começou cedo demais.
O comboio seguia em formação perfeita. Siena observava pela janela quando pararam para comer em uma área reservada.
Siena m*l tinha entrado no estabelecimento e um homem a olhou de cima a baixo, e aquilo foi suficiente para irritar completamente Vittório
O corpo de Vittório enrijeceu, o maxilar travou.
— Vittorio… — Siena tocou a mão dele por baixo da mesa. — Não vale a pena.
— Ele não sabe com quem está mexendo, não está vendo que está acompanhada.
— Sabe sim — ela respondeu, calma. — Ele só não importa.
Ela entrelaçou os dedos aos dele.
— Olha pra mim.
Ele respirou fundo. Uma vez. Duas.
— Você não pode sair batendo em todo mundo que olha pra mim.
— Posso.
— Não deve. — sorriu de leve. — É com você que estou. É isso que importa.
O olhar dele suavizou.
— Você não faz ideia de como me tem em suas mãos Siena.
Ela riu baixo.
⸻
Quando chegaram em casa, o silêncio os envolveu como um abrigo.
Siena largou a bolsa e se virou para ele.
— Promete tentar?
— O quê?
— Não reagir como se o mundo inteiro fosse uma ameaça.
Vittorio a puxou para perto, a testa encostada na dela.
— Não vou mudar quem eu sou, eu sou possesivo e não quero ninguém perto de você.
Ela assentiu.
— Só promete tentar… por mim.
Ele suspirou.
— Por você, eu tento tudo.
Siena respirou fundo, como se o corpo estivesse finalmente cobrando o dia inteiro, e deu um beijo leve no marido.
— Eu vou me deitar um pouco — disse, a voz mais baixa. — Estou me sentindo… estranha. Cansada demais.
Vittorio franziu levemente o cenho.
— Quer que eu chame alguém… ou vamos ao médico?
— Não. — ela negou rápido, apoiando a mão no peito dele. — É só cansaço. A viagem, o jantar… tudo junto.
Ele a puxou para perto mesmo assim, atento.
— Se não for, você me diz.
— Digo.
Quando chegou ao quarto, Siena adormeceu como se não dormisse há semanas inteiras.
Vittorio chegou a entrar algumas vezes, apenas para olhar. Não quis acordá-la. O corpo dela parecia exausto.
Ele gostava de vê-la dormir.
Havia algo de calmo, quase sagrado, naquele momento, como se ali, finalmente, nada pudesse alcançá-la.