Kragnor apenas levantou o braço, num pedido mudo para não interferir.
_ Não é isso, fêmea. Vejo que traz a espada do meu antigo comandante e amigo Gorfon.
_ Ele foi meu atar. - ela lhe respondeu, e em nenhum momento desviou o olhar - Se fosse seu amigo, saberia que ele partiu.
_ Quando a notícia chegou da sua partida, foi muito tarde para prestar as minhas honras. Mas… - ele começou a se aproximar devagar, mas ela não abaixou a espada, nem os seus olhos desviaram dos seus - por que fez isso? - apontou para o grande número de feras atrás dela. Ele queria muito perguntar como ela conseguiu fazer tal façanha.
_ Tenho certeza de que não é isto que quer saber. - perspicácia brilhou nos olhos da jovem fêmea - Vamos fazer o seu joguinho monarca. - cuspiu a última palavra - Este rito tem de ser modificado… - começou a dizer - estão matando os filhotes. Que tipo de ohtars querem provar o seu valor matando filhotes? Alguns os matam apenas por prazer.
_ Compreendo a situação. Isso podemos resolver. Mas por que prender os jovens? - Kragnor olhou a suas crias paradas a poucos passos de si, junto com Celegorm. Os olhos inquietos e surpresos de Níniel lhe cortavam a alma, como também as perguntas mudas nos seus olhos e os de Feanor.
_ Como eu ia chamar a sua atenção para isso? Mesmo se eu matasse a todos, não acharia uma forma de passar a minha mensagem para os futuros. Eu teria de ficar morando aqui eternamente para deixar claro que a jângala é território proibido. Portanto… teria de matar muitos. E tenho outros planos para mim.
A fêmea falava de matar de forma tão natural que Kragnor levantou a grossa sobrancelha intrigado, se perguntando como foi sua criação ou o que a levou a ser desta forma.
_ Quais são seus planos? - a ponta da espada encostou no peito dele e ela sorriu.
_ Quero a nave de Gorfon. - a resposta direta o surpreendeu - Quero uma boa tripulação e o direito de realizar todos os tipos de missões.
_ Você é muito jovem! - retesou-se ele irritado - Tenho comandantes muito mais experientes que podem fazer tais missões sem causar dano.
_ Sou melhor que eles… pois não tenho medo… - fez a sua espada descer e rasgar as suas vestimentas - e nada a perder.
Um filete de sangue desceu pela camisa de Kragnor o fazendo trincar os dentes, não pela dor, mas pelo atrevimento. Num momento de fúria, ele bateu na espada dela e agarrou o seu pescoço a levantando do chão.
_ Quem você pensa que é para me desafiar assim? - a viu se debater um pouco, mas depois segurou as suas mãos no seu pescoço e sorrir - Nem as minhas crias eu toleraria tal ousadia. Yeldë ou não de Gorfon, terá que me obedecer.
_ Nunca… - respondeu à fêmea sorrindo friamente, ainda segurando os seus braços.
Foi pego de surpresa quando os olhos dela ficaram azuis e foi jogado para longe como uma folha.
Uma gigantesca redoma amarela a circundava, fazendo todos recuarem, pois o poder era tão grande que queimava.
Eru tentou ajudar o monarca a se levantar, mas estava tão surpreso que nem percebeu quando a língua antiga dele se manifestou também, o jogando para longe.
_ Sou Melphierr, yeldë de Gorfon da tribo Narmohtar, ex-comandante deste reino. Como vencedora do rito, eu reivindico meu prêmio, a nave de meu pai e o direito de ser comandante. - gritou ela para que todos ouvissem.
_ Terá que se curvar, fêmea… - os olhos de Kragnor estão azuis e furiosos como nunca - perante seu monarca. Diante de tamanha afronta, estou disposto a lhe ensinar uma dura lição. Peço perdão ao meu amigo por isso.