O aniversário.

808 Words
No outro dia, acordei cedo. O corpo cansado, mas o pensamento já estava longe, no dia seguinte. Fiz café, acordei as crianças e chamei Daniel de lado. Expliquei com calma o que ele precisava fazer: ajudar a prima a olhar os irmãos enquanto eu trabalhava. Ele ouviu atento, sério demais pra idade que tinha, e concordou com a cabeça. Saí de casa mais cedo porque precisava passar no mercado perto do serviço. Era mais barato. Fui andando pelos corredores com cuidado, fazendo conta mental, escolhendo só o necessário. Um pacote de farinha, ovos, um pouco de açúcar, chocolate em **. Nada demais. Tudo simples. Mas cada coisa colocada no carrinho tinha um motivo: era o aniversário do meu filho. Comprei aos poucos, sem pressa, como quem constrói algo frágil com muito cuidado. Voltei pra rotina. Trabalhei, limpei, aguentei o dia. Mas meu coração já estava no amanhã. No dia seguinte, o dia do aniversário do Daniel, peguei folga. Acordei cedo, antes do sol, e fui direto pra cozinha. Preparei o bolo com o que tinha. Não era grande, não era bonito, mas era feito com amor de mãe. Enquanto assava, pensei nele pequeno, no sorriso fácil, na alegria que cabia em tão pouco. Arrumei tudo do meu jeito simples, como sempre fiz pros meus filhos. Jorge não chegou cedo — ele nunca gostou de aniversário. Nunca achou importante. Daniel estava feliz. Falante, animado, andando pela casa como se aquele dia fosse especial só por existir. A prima dele estava lá. Jantamos juntos. Depois, cantamos parabéns. A voz saiu meio desafinada, mas sincera. Para o Daniel, aquilo já bastava. Ele sorria como quem se sentia visto. Mas eu ainda tinha uma surpresa. Entreguei a camisa. Ele abriu o pacote com cuidado, vestiu na hora, foi até o espelho. Se olhou, se ajeitou, voltou correndo e me abraçou forte. — Obrigado, mãe. O sorriso dele iluminou a casa. As crianças começaram a brincar, correr, rir. Fizeram bagunça. O chão ainda sem pano, a pia cheia. Eu deixei. Era o aniversário do irmão. Foi aí que perdi a noção do tempo. Jorge chegou. Entrou em silêncio, olhando o chão, a sala, a mesa. As crianças acordadas, a casa viva. Olhou pro bolo e só então percebeu que era aniversário de alguém — mas nem lembrou de quem. Daniel foi até a geladeira, pegou um refrigerante e colocou no copo. Foi quando Jorge falou, com a voz dura: — Comer é uma maravilha, né? O sorriso do Daniel caiu na hora. Ele ficou parado, segurando o copo, sem saber o que fazer. Jorge olhou pra pia. — Por que isso tá assim? Respirei fundo. — As crianças estão comemorando o aniversário do Daniel. Já vão dormir. Eu limpo depois. — Coloca ele pra limpar — disse Jorge. — Isso é por causa dele. — Não — respondi firme. — Eu mesma limpo. Daniel tentou evitar confusão. — Eu lavo, mãe. Pra ajudar a senhora. Foi rápido demais. Jorge virou, segurou Daniel com força e puxou a camisa nova. O tecido rasgou no peito. O barulho foi seco. A casa ficou muda. Daniel ficou parado, olhando pra blusa rasgada, depois pro pai. Não chorou. Não falou nada. — Você ficou louco? — eu gritei, sentindo o coração sair pela boca. — Era a roupa do aniversário do seu filho! — Roupa não cria homem — Jorge respondeu, frio. — Ele precisa aprender. — Aprender o quê? — minha voz tremia. — Hoje é o aniversário dele! Daniel tentou se explicar. — Pai… eu só peguei refrigerante. Eu ia lavar tudo depois. — Eu não mandei você falar! — Jorge gritou. — Aqui quem manda sou eu! Eu me coloquei na frente do Daniel. — Não fala assim com ele! — eu disse. — Ele é seu filho! — Justamente — respondeu Jorge. — Filho meu não cresce mole. — Isso não é educação — falei, com lágrimas escorrendo. — Isso é humilhação. As crianças começaram a chorar no quarto. Daniel segurava a camisa rasgada com cuidado, como se ainda tivesse valor. — Vai dormir — Jorge disse. — Leva seus irmãos. Daniel me olhou, pedindo permissão com os olhos. Eu assenti. Quando ele saiu, Jorge virou pra mim. — Drama desnecessário — disse. — Criança esquece. Foi aí que eu entendi tudo. — Não esquece — respondi baixo. — Filho lembra. Principalmente quando a dor vem do pai. Ele virou as costas. — Limpa a casa. Fiquei ali, sozinha, com o bolo ainda na mesa e as velas tortas. Peguei o pano, mas minhas mãos tremiam. Mais tarde, fui ao quarto. Daniel estava acordado. — A culpa não é sua — sussurrei, abraçando ele. — Nunca foi. Ele encostou a cabeça em mim, em silêncio. E naquela noite, eu soube: não foi só uma camisa que rasgou. Foi algo dentro do meu filho.
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