Os dias seguintes não trouxeram paz.
Trouxeram costume.
A casa voltou ao ritmo de sempre, mas algo estava fora do lugar. Não era visível, não fazia barulho, mas pesava. Eu sentia no jeito de andar, no cuidado excessivo das crianças, no silêncio que se instalava antes mesmo de qualquer palavra atravessada.
Daniel continuava com a bola.
Mas agora jogava menos perto da casa. Preferia o canto do quintal, longe dos olhos do pai. Chutava forte, como se cada batida fosse uma tentativa de descarregar o que ficava preso no peito. Quando a bola escapava e batia na parede, ele parava, olhava para dentro de casa, e só continuava se tudo estivesse quieto.
Aquilo me partia.
Jorge seguia firme no jeito dele. Não tocava no assunto. Não pedia desculpa. Agia como se o episódio tivesse sido um exagero meu, algo pequeno demais para merecer lembrança. E talvez fosse assim que ele sobrevivia: diminuindo a dor dos outros para não encarar a própria.
Eu observava.
Mais do que antes.
Percebi que Daniel pedia licença até para respirar. Que recolhia os brinquedos antes mesmo de usá-los. Que respondia “sim, pai” com uma pressa que não era respeito — era medo. E medo não educa, ensina a se esconder.Daniel continuava indo à escola, voltava para casa, ajudava os irmãos. Ainda era meu menino. Mas algo nele começou a mudar por dentro.
Foi nessa fase que ele começou a andar com um menino chamado Bigo.
Era menor, estudava na mesma escola. No começo, não vi perigo. Adolescente anda com adolescente. Conversa no portão, risada no caminho, companhia de sala de aula. Nada fora do normal.
Mas Bigo tinha uma inquietação que me incomodava.
Andava com pressa de crescer. Falava de coisas que não eram da idade dele. Gostava de estar perto de gente mais velha, de lugares que não eram pra menino nenhum. E, sem perceber, Daniel começou a andar perto dessa influência.
Não era que meu filho tivesse se perdido.
Era que ele estava sendo puxado.
Enquanto muitos viam apenas escolhas erradas, eu via um menino cercado. Cercado por vozes mais altas que a minha, por promessas vazias, por caminhos que pareciam fáceis demais para terminar bem. E quanto mais esse cerco se fechava do lado de fora, mais eu dobrava os joelhos do lado de dentro.
Foi ali que eu entendi: aquela casa tinha virado um campo de batalha.
E eu não tinha armas visíveis.
Só tinha fé.
O clima dentro de casa ficou pesado. Jorge começou a observar mais, a desconfiar, a julgar. Qualquer coisa virava motivo.
— Esse menino tá andando com quem não presta — ele dizia. — Isso é culpa sua.
Eu tentava explicar que Daniel ainda era um adolescente, que não estava envolvido, que influência não é escolha. Mas já não havia conversa. Só acusação. Jorge não suportava ficar perto do próprio filho. E a casa foi ficando dura, tensa, desconfortável.
Quando alguém dizia que tinha visto o Daniel em alguma esquina, meu coração disparava. Eu ia até lá. Chamava. Mandava ele voltar pra casa. Ele vinha. Entrava. Ficava. Nunca sumia. Nunca deixou de voltar. Mas o medo não me largava.
E assim foram os últimos meses.
De vigilância.
De oração.
De cansaço.
Teve um dia que meu corpo não aguentou. Passei m*l. Fui ao médico. Diagnóstico: desidratação. Eu esquecia de comer. Não sentia fome. Só lembrava do corpo quando a tontura vinha — na rua, levando as crianças pra escola ou tentando vender minhas coisas.
Voltei a ser sacoleira.
Vendia o que podia.
Tentava manter a casa de pé.
As pessoas falavam sem saber:
— Como essa mulher não coloca moral nesse menino?
Mas elas não viam o que eu via.
Daniel ainda dormia em casa.
Ainda me obedecia.
Ainda era meu filho.
O problema não era quem ele era.
Era o que estava se aproximando dele.
Daniel gostava de bola, de rua, de amigos. Como muitos meninos da comunidade, às vezes pegava carona de moto, coisa comum por ali, sem maldade em si. Mas naquela semana, um comentário atravessou meu peito como faca.
Disseram que tinham visto o Daniel na garupa do Morte.
O chão sumiu debaixo dos meus pés.
O Morte trabalhava para o Cicatriz, primo do Fugaz. Cicatriz era visto como dono da comunidade. Eu sempre disse, e continuo dizendo: a minha comunidade pertence ao Senhor.
O Morte não era alguém de conversa.
Não criava vínculo.
Não andava com ninguém por amizade.
A presença dele sempre significava perigo.
E eu comecei a me perguntar, com o coração apertado, sem conseguir dormir:
por que meu filho estava perto de alguém assim?
No domingo, quando eu voltava da igreja, mataram um rapaz na comunidade. Disseram que ele roubou, colocou a culpa em um morador inocente, e o morador foi preso no lugar dele. O medo se espalhou como fumaça.
E eu entendi que aquilo não era exagero meu.
Era discernimento.
Naquela noite, ajoelhei no quarto e chorei como nunca.
Não pedi castigo.
Não pedi vingança.
Só p******o.
Porque Daniel ainda estava perto.
Ainda dava tempo.
E quando uma mãe entende isso,
ela luta com tudo o que tem.
Mesmo que seja
só com fé.