Capítulo 3— KAELITH

1664 Words
Ela não devia estar ali. Essa era a única verdade simples naquela noite. Humana entra na floresta. Humana morre. Sempre foi assim. Sempre funcionou. Até agora. Eu a observava de longe, entre as sombras das árvores, sem me revelar por completo. O cheiro dela ainda estava no ar — fraco, quebrado, mas insistente demais para ser ignorado. Errado. O tipo de cheiro que não pertence a esse lugar. O tipo de cheiro que fica na pele… mesmo quando deveria desaparecer. Os outros tinham recuado quando me sentiram. Não por respeito. Por instinto. Eles sabem. Sempre souberam. Quando eu decido, a floresta escuta. Mas ela… Ela não entendia nada disso. E ainda assim estava de pé. Sozinha. Respirando. Viva. Eu deveria ter encerrado isso no momento em que a vi cruzar a fronteira. Mas não fiz. Erro. Ou escolha. Ainda não decidi. O vento mudou. E eu senti antes de ouvir: ela estava sendo cercada de novo. Idiotas. Minha alcateia nunca foi paciente. Quando sentem sangue estranho, eles querem testar, pressionar, romper. Eu me movi. Rápido. Sem som. A floresta abriu caminho para mim como se já soubesse o que viria. Quando cheguei, eles já estavam próximos demais dela. Errado. Sempre errado. Um deles avançou. Eu nem esperei o impacto. Interrompi o movimento no meio. O corpo dele caiu no chão antes de entender que tinha sido parado. Silêncio imediato. Os outros recuaram. Não por medo dela. Por mim. — Eu não disse para não encostarem nela? — minha voz saiu baixa. Perigosa. Controlada. Nenhum respondeu. Não precisavam. Eles sabiam. Eu caminhei entre eles. Devagar. Cada passo forçando submissão. E quando cheguei até ela, a primeira coisa que vi não foi medo. Foi cálculo. Ela estava tentando entender o que a cercava. Ainda de pé. Ainda inteira. Errado. E interessante. — Você não correu — eu disse. Ela soltou uma risada curta. — Eu já te disse… correr não funciona muito bem aqui. Eu a observei. Ela estava suja. Respiração irregular. Mas não quebrada. Não ainda. — Você deveria estar tremendo — eu falei. — Eu estou. — Não o suficiente. Silêncio. Ela ergueu o olhar para mim. Direto. Sem desviar. Isso me irritou. E me chamou atenção ao mesmo tempo. — Eles vão voltar — eu disse. — Sempre voltam? — Sempre. — E você sempre aparece no meio? Pausa. Curta. — Sempre. Ela respirou fundo. — Então você é tipo… meu problema oficial agora? Eu deveria ter corrigido. Explicado. Colocado limites. Mas não fiz. Porque algo dentro de mim não queria mudar essa resposta. — Sim — eu disse. Simples. Definitivo. Ela soltou o ar devagar. — Isso é péssimo. — É. Silêncio. O vento passou entre nós. E trouxe outra coisa junto. Mudança. Algo na floresta se movendo diferente. Mais pesado. Mais antigo. Eu senti antes de ver. — Eles não são o maior problema — eu disse. Ela franziu o cenho. — Tem coisa pior? Eu olhei para a escuridão atrás dela. Onde o mundo não pertence mais aos vivos normais. — Sempre tem. Ela seguiu meu olhar. E pela primeira vez… o medo dela não foi arrogante. Foi real. — E o que exatamente você fez pra isso acontecer? — ela perguntou. Boa pergunta. Errada pergunta. Eu me aproximei. Mais perto do que deveria. Sempre mais perto. — Eu sobrevivi — respondi. Silêncio. Ela engoliu seco. — Isso costuma ser motivo de problema? — Quando você sobrevive ao que não deveria… sim. O ar ficou mais pesado. Ela deu um passo mínimo para trás. Instinto. Correto. — Então eu tô no meio disso tudo por sua causa? Eu não respondi imediatamente. Porque a resposta não era simples. Nunca foi. — Você está aqui porque atravessou meu território — eu disse. — E isso te torna minha responsabilidade. Ela soltou uma risada fraca. — Responsabilidade… claro. Mas não havia humor na voz dela. Só consciência começando a nascer. E isso era perigoso. Muito mais do que medo. Porque medo paralisa. Consciência reage. Ela olhou para as próprias mãos. Depois para mim. — Eu não pertenço aqui — ela disse. — Ainda não. Silêncio. Ela me encarou de novo. — E você acha que isso muda? Pausa. Curta. Honesta demais. — Sim. O vento parou. A floresta ficou quieta. E algo dentro dela também. — Você fala isso como se fosse decisão sua — ela disse. Eu dei mais um passo. Agora perto o suficiente para ela sentir minha presença inteira. — É. Ela sustentou o olhar. Mesmo assim. — E se eu não quiser? Eu me inclinei levemente. — Você já está aqui. Silêncio. Pesado. Definitivo. Ela não respondeu. Mas não saiu. Nunca saiu quando deveria. Isso era o problema. Eu deveria levá-la embora dali. Deixar claro os limites. Encerrar isso. Mas não fiz. Porque algo dentro de mim… não queria encerrar. A floresta se moveu ao longe. Outro chamado. Mais profundo. Mais organizado. Eles estavam voltando. Mais fortes agora. Mais conscientes. E ela percebeu também. — Eles estão vindo de novo — ela disse. — Sim. — E agora? Eu olhei para ela. Por um segundo. Mais longo do que deveria. — Agora você aprende. — Aprende o quê? Eu me aproximei ainda mais. Até não existir mais espaço confortável entre nós. — A sobreviver comigo. Silêncio. Ela respirou fundo. Mas não recuou. Nunca recuava completamente. E isso… era o começo do erro mais perigoso de todos. Porque agora não era só sobre território. Nem sobre instinto. Era sobre vínculo. E quando um Alfa reconhece algo assim… a floresta inteira muda. O silêncio depois disso não durou. Nada naquela floresta durava. O primeiro som veio baixo, distante… como unhas arrastando sobre madeira molhada. Depois outro. E mais outro. Não eram passos comuns. Eram coordenados. Cercando. Aprendendo. Eles estavam me testando. E, pior… estavam testando ela junto. Eu senti antes de ver: três direções diferentes se fechando ao mesmo tempo. — Fica atrás de mim — eu disse. Ela não respondeu. Mas também não discutiu. Só se moveu para o meu lado, não atrás. Erro pequeno. Perigoso. Mas… consciente. Isso já dizia muito. As sombras surgiram entre as árvores como se a própria escuridão tivesse decidido ganhar forma. Não eram como os outros da minha alcateia. Esses estavam errados. Olhos mais vazios. Movimentos mais quebrados. Como se algo estivesse empurrando eles além do natural. Forçando. Ela viu também. Eu senti a respiração dela mudar. — Isso não parece… normal — ela murmurou. — Não é. O primeiro avançou. Eu me movi antes. O impacto foi seco. Rápido. Final. Mas o segundo veio junto. Mais inteligente. Ele não veio pra mim. Veio pra ela. Erro. Eu interceptei no meio do caminho, arrastando o corpo dele contra o chão até o som de osso quebrando ecoar baixo na floresta. Silêncio por meio segundo. E então… mais. Eles estavam vindo mais rápido agora. Mais agressivos. Como se algo tivesse finalmente dado permissão. — Eles não estão só caçando — ela disse, a voz mais baixa. — Não. — Então o quê? Eu não respondi imediatamente. Porque a resposta não era simples. Nunca era. O terceiro surgiu atrás dela. Rápido demais. Errado demais. Eu já estava indo, mas ela percebeu antes de mim. Ela virou. Instinto puro. E isso salvou ela por um segundo. O golpe não pegou em cheio. Só passou. Mas suficiente para fazê-la perder o equilíbrio. Ela caiu de lado. Respiração falhando. — Elizabeth! Ela tentou levantar. Mas o quarto já estava lá. Eu senti a mudança dentro de mim antes mesmo de decidir. Algo cedeu. Não controle. Não lógica. Instinto. Eu atravessei o espaço entre nós como uma ruptura. E quando cheguei… não foi elegante. Não foi limpo. Foi destruição. O corpo dele bateu contra o chão e não levantou mais. Silêncio voltou. Pesado. Cheio de sangue. Eu fiquei parado por um segundo. Respirando. Sentindo. Errado. Sempre errado quando chegava nesse ponto. Atrás de mim, ela ainda estava no chão. Mas consciente. Viva. — Você… — a voz dela saiu fraca — você não hesita mesmo. Eu virei devagar. — Hesitar mata. Ela tentou se levantar. Conseguiu. Mas com dificuldade. Agora havia algo novo no olhar dela. Não só medo. Nem só confusão. Entendimento começando a nascer. — Isso não é só defesa — ela disse. Eu não respondi. Porque ela estava certa. E isso era irritante. Mais movimento ao longe. Mas dessa vez… diferente. Mais pesado. Mais organizado. Mais consciente. Eu olhei para a floresta. E senti. A mudança. — Não era isso que estava vindo antes — ela disse. — Não. Silêncio. Ela respirou fundo. — Então isso foi só… o começo. — Sim. Ela apertou a mandíbula. Tentando manter controle. — Ótimo. Mas a voz dela falhou um pouco no final. Ela estava entendendo agora. De verdade. O que significava estar aqui. O que significava estar comigo. E isso… não era leve. Nunca foi. Eu me aproximei dela de novo. Devagar. Sem pressa. Sem suavizar nada. — Você ainda pode ir embora — eu disse. Ela soltou uma risada curta. Sem humor. — Pra onde? Silêncio. Eu não respondi. Porque não havia resposta. Ela já sabia disso também. O vento mudou outra vez. Mais frio. Mais profundo. Como se algo maior tivesse acabado de notar nossa presença. E então ela falou de novo: — Isso vai piorar, né? Eu olhei pra ela. Direto. Sem desviar. — Vai. Ela respirou fundo. E dessa vez… não recuou. — Então eu fico. Silêncio. Pesado. Definitivo. Eu deveria ter dito não. Deveria ter imposto distância. Deveria ter encerrado aquilo antes que começasse a se tornar algo impossível de controlar. Mas não fiz. Porque quando ela disse aquilo… algo dentro de mim respondeu. E isso era o tipo de erro que não se corrige depois. Mais um som ecoou na floresta. Mais próximo. Mais claro. Não eram mais caçadores soltos. Agora era uma alcateia inteira. E no meio disso tudo… ela ainda estava ali. Ao meu lado. Respirando. Viva. E isso… mudava tudo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD