Capítulo 4 —KAELITH

1725 Words
O cheiro mudou antes do som. Isso era sempre o pior sinal. Não era mais apenas minha alcateia desorganizada tentando testar limites. Agora havia disciplina. Coordenação. Algo mais antigo guiando o movimento deles. Eles não estavam mais caçando por instinto. Estavam obedecendo. Eu parei de andar. Elizabeth percebeu na hora. — O que foi agora? — ela perguntou, baixo, já se ajustando ao meu lado. — Eles organizaram. — Isso é r**m? Eu olhei para ela. Sério demais. — Isso é guerra começando a formar forma. Silêncio. O vento passou entre nós, mas não trouxe leveza. Trouxe aviso. As árvores ao redor começaram a ficar mais densas, como se a floresta estivesse fechando caminhos de propósito. Isso não era natural. Não era comportamento comum da alcateia. Era influência. E eu já sabia de quem. Ela. A Alfa antiga. Aquela que não deveria mais interferir diretamente. Mas estava interferindo. Sempre estava. Um som ecoou à esquerda. Depois outro à direita. E então… silêncio completo. O tipo de silêncio que não é vazio. É preparação. Elizabeth apertou a lâmina que ainda carregava. — Eu não gosto disso… — ela murmurou. — Não foi feito para você gostar. Ela me lançou um olhar rápido. — Você sempre responde assim? — Sim. — Incrível… você é péssimo em humanidade. Eu quase teria respondido algo mais afiado, mas não houve tempo. Eles vieram. Não como antes. Agora em formação. Três à frente. Dois flancos. Um atrás. Estratégia. Eu senti o peso disso imediatamente. — Eles estão aprendendo — eu disse. — Aprendendo o quê? — A me enfrentar. O primeiro impacto veio direto. Eu interceptei. Mas o segundo já estava indo para ela. Rápido demais. Intencional demais. Erro deles. Ou não. Eu me movi no instante exato. Mas Elizabeth também. E isso me fez hesitar meio segundo. Meio segundo demais. Ela desviou. Não perfeitamente. Mas desviou. A lâmina dela cortou o ar e atingiu de leve o ombro da criatura. Não foi suficiente para parar. Mas foi suficiente para quebrar o ritmo. E isso… já era evolução. — Não para! — eu disse, sem olhar. Ela não respondeu. Mas continuou. Errado. Perigoso. Mas continuou. O terceiro veio por trás de mim. Eu finalizei sem pensar. Sangue no chão. Respiração pesada. A floresta começou a reagir ao redor. Como se estivesse absorvendo tudo. Testemunhando. Elizabeth estava respirando mais rápido agora. Mas não tinha parado. — Isso não vai acabar, vai? — ela perguntou. — Não enquanto ela quiser. — “Ela”? Eu olhei rápido. — A Alfa. Silêncio. Ela apertou mais a lâmina. — Então isso é pessoal. — Sempre foi. Outro movimento. Mais pesado. Dessa vez… diferente. Não era um dos meus. Não era da minha alcateia comum. Era alguém mais forte. Mais antigo. Eu senti antes de ver. O ar ficou pesado. E então ela apareceu. Sem pressa. Sem esforço. Como se a floresta tivesse aberto espaço para ela existir. Alta. Presença dominante. Olhos frios. Controlados. Perigosos. Ela não olhou para mim primeiro. Olhou para Elizabeth. E sorriu. — Então é ela… — disse. Elizabeth não recuou. Mas eu senti a mudança nela. Ela percebeu o peso daquela presença. Perfeitamente. — Você está brincando com algo que não entende, Kaelith — a Alfa disse, sem tirar os olhos de Elizabeth. — Não estou brincando. — Está sim. Ela deu um passo. E a floresta pareceu obedecer. — Você trouxe uma humana para dentro de uma hierarquia que não permite fraqueza. Elizabeth falou antes de mim. — Eu não sou fraqueza. Silêncio. Curto. Perigoso. A Alfa finalmente olhou para ela. De verdade. Como se estivesse decidindo algo. — Não… — ela disse lentamente. — você não é. Isso foi pior. Muito pior. Porque não era insulto. Era avaliação. Ela estava considerando. Elizabeth apertou a mandíbula. — Então qual é o problema? A Alfa sorriu. Pequeno. Cruel. — O problema… é que ele não consegue parar de olhar para você. Silêncio. O ar mudou. Eu não me movi. Mas tudo dentro de mim ficou mais tenso. Elizabeth virou levemente o rosto na minha direção. Só um pouco. Mas o suficiente. — Isso é verdade? — ela perguntou. Eu não respondi. E isso foi resposta suficiente. A Alfa riu baixo. — Fascinante… Ela começou a andar em círculos lentos. Ao redor de nós. Como se já tivesse vencido algo. — Você sempre foi o mais difícil de controlar — ela disse para mim. — E agora… você está preso a isso. Eu dei um passo à frente. — Não fale como se eu fosse seu. Ela parou. E me olhou direto. — Você sempre foi. Silêncio. Pesado. Antigo. Elizabeth ficou entre nós. Literalmente. Mas eu vi. Ela não estava mais apenas assustada. Ela estava entendendo o padrão. E isso era perigoso. Muito perigoso. — Então é isso? — ela disse. — Eu sou o motivo da guerra? A Alfa inclinou a cabeça. — Você é o gatilho. Elizabeth soltou uma risada curta. Sem humor. — Isso é ridículo. — É real. Silêncio. A Alfa voltou o olhar para mim. — Você tem duas escolhas, Kaelith. Eu já sabia o que viria. — Ou você entrega ela… ou você perde tudo. Eu não respondi. Porque a resposta nunca foi uma escolha. Ela sorriu. Como se já soubesse. — Então você já decidiu. O vento ficou mais forte. As árvores rangeram. E a alcateia ao redor respondeu. Eu me coloquei ligeiramente à frente de Elizabeth. Instinto. Sempre instinto. — Fica atrás de mim — eu disse. Ela não se moveu. — Não. Eu olhei para ela. — Não é opcional. — Eu não sou um peso. Silêncio. A Alfa riu. — Ainda acha que isso é sobre você ser peso? Elizabeth apertou a lâmina. — Então é sobre o quê? A Alfa respondeu sem hesitar: — Sobre quem ele escolhe destruir primeiro para te proteger. Silêncio. E dessa vez… Elizabeth não respondeu. Mas eu vi. Ela entendeu. E isso… mudou o ar inteiro entre nós. A guerra não estava mais chegando. Ela já estava aqui. O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer som. Não era vazio. Era decisão sendo tomada ao mesmo tempo em vários lugares da floresta. Eu senti isso na pele. Elizabeth também sentiu — porque a respiração dela mudou. Mais curta. Mais controlada. Mas ainda humana. Ainda exposta. A Alfa continuava nos observando como se estivéssemos dentro de uma balança. — Você sempre foi previsível quando envolve ela — ela disse para mim. Eu não respondi. Porque responder significava validar o jogo dela. E eu não jogava. Elizabeth, porém, não ficou em silêncio. — Se isso tudo é sobre “escolher destruir alguém”… — ela falou, firme apesar da tensão — então por que não me matam logo? A pergunta fez o ar travar. Até os lobos ao redor hesitaram. A Alfa inclinou levemente a cabeça. Curiosa. — Você não entende o valor que tem. Elizabeth soltou uma risada curta, sem humor. — Eu tenho certeza que entendo perfeitamente o que eu não sou. Errado. Ela não entendia. Ainda não. E isso era o problema. A Alfa deu mais um passo. Devagar. Medido. — Você não é o problema — ela disse. — Você é o gatilho. — Para quê? Ela sorriu. Pequeno. Frio. — Para ele deixar de ser controlável. Silêncio. Eu senti isso antes de ver. A mudança em mim. Pequena. Mas real. Elizabeth percebeu também. Ela olhou para mim de lado. Só um segundo. Mas foi o suficiente. — Isso é verdade? — ela perguntou. Eu deveria ter negado. Deveria ter encerrado. Mas não fiz. E isso respondeu por mim. O vento passou forte entre as árvores. E algo ao longe respondeu de volta. Um uivo. Depois outro. E outro. A alcateia inteira estava acordando. A Alfa respirou fundo, como se estivesse satisfeita com aquilo. — Finalmente… Ela olhou para mim de novo. — Agora você vai parar de fingir que isso ainda é controle. Eu dei um passo à frente. A floresta pareceu prender a respiração. — Última vez — eu disse baixo. — Afaste-se dela. A Alfa sorriu. Dessa vez… diferente. Menos provocação. Mais decisão. — Não. E então ela se moveu. Não contra mim. Contra ela. Rápido. Direto. Errado. Mas intencional. Eu já estava no meio do caminho. Mas Elizabeth também. E isso foi o erro mais perigoso de todos. Ela não recuou. Ela avançou. De novo. Instinto. Ou teimosia. Ou algo começando a nascer dentro dela que ainda não tinha nome. A lâmina dela subiu. Não perfeita. Mas verdadeira. E pela primeira vez… A Alfa parou. Só um segundo. Suficiente. Suficiente para sangrar. Um corte leve apareceu no braço dela. Pequeno. Mas impossível. A floresta inteira pareceu reagir. Silêncio absoluto. Até os lobos ao redor travaram. Ela olhou para o próprio sangue. Depois para Elizabeth. E sorriu. Mas agora não era diversão. Era interesse perigoso. — Então é isso… — ela murmurou. Eu me coloquei entre elas antes que algo pior acontecesse. Mas era tarde. Algo já tinha mudado. Elizabeth não estava mais só sendo protegida. Ela estava sendo vista. De verdade. Como algo que pode responder. — Você não deveria ter feito isso — eu disse baixo para ela. Ela respirava rápido. Mas não abaixou a lâmina. — Ela ia me atacar. — Eu sei. — Então por que você está me olhando assim? Silêncio. Eu não respondi. Porque a resposta não era simples. Nunca era. Atrás de nós, a Alfa riu baixo. — Agora ficou interessante mesmo… O vento ficou mais pesado. E os uivos ao longe aumentaram. Não era mais um confronto. Era convocação. Eu senti isso no corpo inteiro. Elizabeth também sentiu. — O que isso significa? — ela perguntou. Eu olhei para a floresta. Depois para ela. E finalmente disse: — Que agora não é mais sobre te tirar daqui. Pausa. — É sobre decidir quem vai te possuir primeiro. Silêncio. Ela ficou imóvel por um segundo. Só um. Mas suficiente. — Eu não sou propriedade de ninguém — ela disse. Eu olhei direto para ela. — Então prove isso sobrevivendo. O ar explodiu em movimento. Lobos surgiram de todos os lados. Não mais testes. Não mais hesitação. Agora era definitivo. E no meio disso tudo… ela ainda estava de pé. Ao meu lado. E isso… mudava tudo o que vinha depois.
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