Ela não deveria ter visto aquilo.
Mas viu.
E agora já era tarde demais para fingir que a floresta ainda era só floresta.
O ar mudou logo depois da partida dos lobos.
Não de forma sutil.
Foi como se algo antigo tivesse aberto um olho no escuro.
E decidido prestar atenção.
Elizabeth ainda estava parada, mas eu via o detalhe que ela ainda não sabia reconhecer em si mesma.
Ela estava escutando diferente.
Não só com os ouvidos.
Com algo mais profundo.
Errado.
Perigoso.
— Eles vão voltar? — ela perguntou.
— Não do mesmo jeito.
Isso não acalmou ela.
E não deveria.
Porque nada aqui volta igual.
Eu comecei a andar.
Não rápido.
Controlado.
Ela veio atrás sem precisar ser mandada.
Isso, por si só, já dizia muita coisa.
— Você falou “convocação” — ela disse depois de alguns passos. — Convocação de quem?
Eu não respondi de imediato.
Porque o nome não deveria ser dito alto.
Não aqui.
Não ainda.
Mas a floresta já tinha ouvido demais hoje.
— Daquilo que está abaixo da linha dos lobos — eu disse por fim.
Ela franziu a testa.
— Existe mais abaixo?
— Sempre existe.
Silêncio.
O chão parecia mais firme agora.
Mas isso nunca significava segurança.
Significava armadilha bem escondida.
Um som distante ecoou.
Baixo.
Rítmico.
Como algo caminhando sem pressa.
Mas cada passo… era pesado demais.
Elizabeth parou.
Eu também.
— Isso não é humano — ela disse.
— Não.
— Nem lobo.
— Não.
Ela olhou para mim.
E eu vi ali pela primeira vez o limite do que ela estava começando a entender.
— Então o quê?
Eu respirei devagar.
A floresta respondeu antes de mim.
O som ficou mais próximo.
Mais de um.
Não correndo.
Nunca correm.
Eles cercam.
— Kaelith… — a voz dela ficou mais baixa.
— Fica atrás de mim.
— Você já falou isso hoje.
— E vai ouvir de novo.
Ela não discutiu.
Mas também não se escondeu completamente.
Isso já não era novidade.
Era padrão agora.
O primeiro apareceu entre as árvores.
E depois outro.
E outro.
Não lobos.
Não completamente.
Corpos mais altos.
Mais rígidos.
Olhos fundos demais para qualquer coisa viva que ainda deveria ser natural.
A pele… marcada.
Como se a floresta tivesse escrito neles.
Elizabeth engoliu seco.
— Isso… não parece coisa viva.
— Porque não é só isso.
Os três pararam em círculo.
Nos observando.
Não exatamente atacando.
Avaliando.
O primeiro inclinou a cabeça.
E então falou.
Mas não era voz comum.
Era como se o som viesse de dentro da própria terra.
— Ela foi sentida.
Elizabeth deu um passo instintivo para trás.
Eu não deixei ela ir longe.
Não com o corpo.
Só com a posição.
Sempre entre.
— Não fala com ela — eu disse.
O ser não respondeu diretamente a mim.
— O sangue abriu caminho.
Silêncio.
Elizabeth olhou para mim.
— Que sangue?
Eu não respondi.
Porque ela já estava envolvida mais do que deveria.
E eles sabiam disso.
O segundo se moveu.
Lento.
Pesado.
— Escolha foi feita.
Elizabeth apertou a lâmina.
— Eu não escolhi nada.
O terceiro virou o rosto para ela.
E ali havia algo pior do que ameaça.
Reconhecimento.
— Ela n**a — disse.
O primeiro deu um passo.
— Mas responde.
Meu corpo ficou mais rígido.
— Kaelith… — Elizabeth sussurrou.
— Não fala.
Mas já era tarde.
Eles estavam reagindo a ela.
Não a mim.
Isso era o problema.
O primeiro ergueu a mão.
E o ar ao redor dele vibrou.
Não magia visível.
Mais primitiva.
Mais antiga.
— A floresta não esquece o que aceita — ele disse.
Elizabeth deu mais um passo para trás.
Agora sim, recuando de verdade.
— Eu não aceitei nada.
O chão sob nossos pés pareceu responder.
Como se discordasse.
E então o segundo falou:
— Ela pertence ao chamado.
Eu me movi antes dele terminar.
Não para atacar.
Para bloquear.
Sempre bloquear.
Sempre impedir.
— Não — eu disse.
A palavra saiu mais dura do que deveria.
O silêncio que veio foi imediato.
Pesado.
E então o primeiro virou o rosto para mim.
— Você já interferiu demais.
Eu senti aquilo no corpo antes da mente.
A floresta reagindo ao redor.
Fechando.
Apertando.
Elizabeth percebeu também.
— Kaelith… isso tá ficando pior.
— Eu sei.
— O que eles querem de mim?
Silêncio.
Eu devia mentir.
Ainda devia.
Mas não fiz.
— Eles querem te levar.
A verdade fez o ar mudar.
Ela ficou imóvel por um segundo.
Só um.
Depois apertou a lâmina.
— Levar pra onde?
Eu olhei para ela.
E não tinha resposta simples.
— Para onde você para de ser humana.
Aquilo foi suficiente.
Os três se moveram ao mesmo tempo.
E dessa vez não havia mais observação.
Havia decisão.
Eu me movi também.
O primeiro veio direto em mim.
Erro.
Sempre erro.
Eu o derrubei com força suficiente para quebrar o chão abaixo.
O segundo tentou passar por mim.
Eu não deixei.
Mas o terceiro…
foi para ela.
Eu vi.
Tarde demais para impedir completamente.
— ELIZABETH!
Ela reagiu.
Não como antes.
Não congelou.
Desviou.
Mas não perfeitamente.
O braço dela foi puxado de raspão.
E eu senti o cheiro.
Sangue.
Aquilo fez algo dentro de mim mudar.
Não pensamento.
Instinto.
Eu atravessei o espaço entre nós dois e o arranquei dela.
Rápido.
Violento.
Sem contenção.
O silêncio voltou depois.
Mas não era final.
Nunca era.
Elizabeth respirava forte.
— Isso… tá ficando muito frequente — ela disse.
— Vai piorar.
— Você sempre fala isso.
— Porque é verdade.
Silêncio.
Ela olhou para o próprio braço.
O corte leve.
Mas suficiente.
— Eles me marcaram?
Eu hesitei.
Só um segundo.
— Sim.
Isso fez o olhar dela endurecer.
— Então agora eu sou o quê?
Eu olhei para ela.
E a resposta veio antes que eu pudesse segurar.
— Agora eles sabem seu nome.
O vento passou.
E pela primeira vez…
não foi a floresta que pareceu viva.
Foi ela.