O silêncio depois dela não era descanso. Era espera.
Eu ainda sentia o corpo tenso, como se a floresta inteira estivesse segurando a respiração junto comigo. Os lobos não tinham avançado de novo. Não porque tinham desistido… mas porque estavam observando.
Aprendendo.
E isso era pior do que ataque.
— Você está diferente — Kaelith disse, sem olhar diretamente para mim.
— Diferente como?
Ele demorou um pouco antes de responder.
— Você não está tremendo.
Eu soltei um ar curto, quase uma risada sem humor.
— Eu ainda estou com medo.
— Não como antes.
Aquilo ficou no ar.
Porque era verdade.
Eu ainda sentia medo. Mas não era mais o mesmo tipo de medo que me fazia correr, cair ou implorar.
Era outra coisa.
Mais fria.
Mais consciente.
Mais… útil.
Eu apertei a lâmina na mão.
— Eles vão voltar?
— Sim.
Direto. Sem suavizar.
— A elfa também?
Pausa.
Ele finalmente me olhou.
— Principalmente ela.
O vento passou entre as árvores, mas não trouxe alívio. Só mais alerta. Eu comecei a perceber que aquela floresta não tinha momentos neutros. Tudo era aviso.
— Eu não posso viver assim pra sempre — eu disse.
— Pode.
— Não quero.
Kaelith deu um passo mais perto. Não era pressão. Era hábito. Como se ele sempre precisasse estar dentro do espaço onde podia me alcançar.
— Você já está vivendo assim — ele disse.
Eu engoli seco.
Porque ele estava certo.
Eu não tinha percebido o momento exato em que isso deixou de ser fuga e virou permanência.
— Eu não pedi por isso… — murmurei.
— Ninguém pede.
Silêncio.
Mais pesado agora.
Mais íntimo, de um jeito desconfortável.
Eu olhei ao redor.
As árvores pareciam mais altas do que antes. Mais próximas. Como se estivessem me estudando também.
— Isso tudo… — minha voz saiu mais baixa — sempre foi assim?
— Sim.
— E você ainda escolheu ficar aqui?
Ele não respondeu imediatamente.
Isso me fez olhar para ele de novo.
E havia algo diferente no rosto dele agora. Não era dúvida. Kaelith não parecia ter dúvidas com facilidade.
Era outra coisa.
Algo que ele não queria nomear.
— Eu não escolhi isso — ele disse por fim.
— Então o que você escolheu?
Silêncio.
E pela primeira vez desde que o conheci…
ele pareceu humano demais.
— O que restou.
Aquilo me atingiu de um jeito estranho.
Não era resposta completa.
Mas era honesta.
E honestidade ali parecia sempre perigosa.
Um som distante cortou o ar.
Eu me virei imediatamente.
— De novo…?
Kaelith já estava atento.
— Não é ataque.
— Então é o quê?
Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse ouvindo algo além do mundo.
— Mudança.
Eu não gostei daquilo.
— Mudança pra melhor ou pior?
Ele abriu os olhos.
— Pra você… nunca é melhor.
Ótimo.
Simplesmente ótimo.
Eu dei um passo para trás sem perceber, e senti a pedra atrás de mim. Não tinha mais para onde recuar.
— Eu não quero ser peça nesse jogo — falei.
Kaelith me encarou.
Mais fixo dessa vez.
— Você já é.
Aquilo deveria me irritar.
Mas não irritou.
Só confirmou algo que eu já vinha sentindo desde que entrei naquela floresta.
Eu não era mais alguém fora disso.
Eu era parte.
Mesmo que não tivesse aceitado.
Mesmo que não quisesse.
O som voltou.
Mais perto.
Diferente.
Não lobos.
Nem elfa.
Algo entre os dois… ou acima deles.
Kaelith virou o corpo totalmente agora.
— Fica atrás de mim.
— Não começa com isso de novo.
— Elizabeth.
A forma como ele disse meu nome não era pedido.
Era limite.
Eu hesitei.
Mas fiquei ao lado dele.
Não atrás.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
Mas não comentou.
Porque naquele momento…
até ele estava mais atento do que dominante.
As árvores ao longe se moveram.
Não com vento.
Com presença.
E então…
eles apareceram.
Mas não como antes.
Não eram apenas lobos.
E não eram apenas humanos.
Eram ambos.
Corpos mais altos, mais firmes, com olhos que ainda carregavam instinto… mas também consciência.
Isso era errado.
Completamente errado.
— Isso não deveria existir… — eu sussurrei.
Kaelith respondeu sem tirar os olhos deles.
— Deveria não.
Um deles inclinou a cabeça.
Como se estivesse reconhecendo algo em mim.
E isso me fez dar um passo involuntário para trás.
— Eles estão… me olhando diferente — eu disse.
— Estão te reconhecendo.
— Como o quê?
Kaelith ficou em silêncio por um segundo.
Longo demais.
E então respondeu:
— Como escolha também.
Meu estômago afundou.
— Isso não faz sentido.
— Aqui faz.
Os seres se moveram um pouco mais perto.
Mas não atacaram.
Ainda não.
Eles estavam esperando algo.
Ou alguém.
E então eu senti de novo.
A presença dela.
Mais forte.
Mais perto.
Kaelith percebeu no mesmo instante.
— Ela está aqui.
Eu prendi a respiração.
— Agora?
Ele assentiu.
— Agora.
E como se o mundo tivesse obedecido a palavra dele…
o ar mudou outra vez.
Mais pesado.
Mais quente.
Mais vivo.
Ela não apareceu de imediato.
Primeiro veio o silêncio.
Depois a certeza.
E então…
ela saiu das sombras como se a floresta tivesse se aberto só para ela.
Perfeita demais.
Calma demais.
E completamente errada para tudo aquilo.
Os novos lobos… se curvaram levemente.
Não todos.
Mas o suficiente.
E aquilo me gelou.
— Eles obedecem ela… — eu disse.
Kaelith não respondeu.
Mas a tensão no corpo dele respondeu por ele.
Ela sorriu quando me viu.
Não surpresa.
Não curiosa.
Diferente.
Como se finalmente tivesse chegado no ponto que queria.
— Você está ficando interessante demais — ela disse.
Eu não recuei.
Mas minha mão apertou a lâmina.
— Eu não sou entretenimento.
— Ainda não.
Kaelith se colocou entre nós em um movimento rápido.
— O que você quer?
Ela olhou para ele.
Depois para mim.
E então respondeu com calma demais:
— O que sempre quis.
Silêncio.
Ela deu mais um passo.
— Ver até onde você vai quebrar antes de decidir o que ela é.
Eu senti aquilo.
Não como ameaça.
Como destino sendo empurrado.
Kaelith ficou mais rígido.
— Você não toca nela.
A elfa sorriu.
— Eu não preciso tocar.
E naquele segundo…
eu entendi.
Não era sobre ataque.
Nunca tinha sido.
Era sobre escolha.
Sobre mim.
Sobre o que eu iria me tornar.
E sobre o que ele não poderia impedir para sempre.
A floresta inteira pareceu prender o ar de novo.
E eu soube.
O próximo passo…
já tinha sido dado por todos nós.
Só ainda não tinha caído.