capítulo 15—KAELITH

1003 Words
O silêncio depois dela não era vazio. Era pressão. Eu sentia a floresta inteira segurando algo no limite, como se qualquer movimento errado pudesse romper tudo de uma vez. Elizabeth estava ao meu lado. Ainda de pé. Ainda consciente. Isso já era um desvio do que deveria ser possível. E a elfa… estava sorrindo como se isso fosse exatamente o que ela queria. — Você está empurrando demais — eu disse, sem desviar o olhar. Ela inclinou levemente a cabeça. — Não. Eu estou revelando. Os novos lobos ao redor não atacavam. Isso era o mais errado de tudo. Eles não eram instinto puro como antes. Havia direção. Ordem. Uma espécie de entendimento coletivo que não deveria existir naquele nível. Elizabeth respirou fundo. — Eles não são só… criaturas — ela murmurou. — Não mais — eu respondi. A elfa deu mais um passo. E todos ao redor reagiram com ela. Não comigo. Com ela. Isso era a confirmação que eu não queria. Elizabeth percebeu também. Eu vi no olhar dela. — Eles obedecem você… — ela disse, baixa. A elfa sorriu. — Eu não ordeno. Pausa. — Eu apenas libero o que já está lá. O vento mudou de novo. Mais pesado. Mais próximo. Como se algo estivesse sendo puxado de dentro da própria terra. Eu senti antes de ver. A ligação. Algo antigo. Algo que não deveria estar acordando. Elizabeth deu um passo involuntário para trás. — Kaelith… isso não é normal. — Eu sei. A elfa observava os dois como se estivéssemos em uma peça que ela já tinha visto o final. — Ele não te contou tudo ainda, contou? — ela perguntou para Elizabeth. Eu não respondi. Elizabeth me olhou. E ali estava o problema. Ela não precisava de palavras para começar a entender quando eu estava omitindo algo. — Contou o quê? — ela perguntou. Silêncio. Mais pesado do que qualquer ataque. Eu devia ter parado isso antes. Devia ter mantido distância. Mas já era tarde demais para esse tipo de lógica. A elfa andou lentamente em círculo, como se a floresta fosse palco. — Você não é só a companheira dele. Elizabeth não respondeu. Mas eu senti a mudança nela. Atenção total. — Você é… um ponto de ruptura. — Isso não significa nada — Elizabeth disse. — Significa tudo. A elfa parou. E então olhou diretamente para mim. — Você sabia o que aconteceria quando a encontrasse. Silêncio. Eu não neguei. Porque negar seria mentira. E eu não podia mais me dar esse luxo. Elizabeth virou o rosto para mim. Devagar. Como se já estivesse esperando algo quebrar. — Kaelith… Eu respirei fundo. E pela primeira vez, não consegui responder imediatamente. A elfa sorriu como se isso já fosse vitória suficiente. — Ele não te salvou — ela disse. — Ele te colocou no centro. Elizabeth apertou a lâmina. Mas não levantou. — Centro do quê? A resposta não veio dela. Veio de mim. Baixa. Direta. — Da mudança. Silêncio. A floresta pareceu reagir ao que eu disse. Como se a palavra tivesse peso físico. Elizabeth me encarou. — Que mudança? Eu devia ter suavizado. Devia ter preparado. Mas já não dava mais. — O equilíbrio entre as linhagens está quebrando. A elfa abriu um sorriso maior. — Finalmente. Elizabeth piscou lentamente. — Linhagens? Eu fechei os olhos por um segundo. E odiei o fato de ter que dizer isso agora. — Lobos não são todos iguais. Ela ficou imóvel. — Existem os instintivos… — continuei — e os antigos. O ar ficou mais frio. — Aqueles que lembram. Elizabeth engoliu seco. — Lembram do quê? Eu abri os olhos. E a encarei. — Do que eram antes de serem controlados pela natureza. Silêncio. A elfa completou, suave demais: — Antes de serem limitados. Elizabeth olhou entre nós dois. E eu vi. O instante exato em que ela entendeu que aquilo não era só guerra. Era história antiga. E ela estava dentro dela. — E eu…? — ela perguntou, mais baixa agora. Eu não respondi imediatamente. Porque essa era a parte que eu não queria dizer. A elfa respondeu por mim. — Você é o catalisador. Elizabeth ficou imóvel. — O quê? Eu dei um passo à frente. Mas não para ela. Para impedir a elfa de continuar falando como se fosse inevitável. Tarde. — Ela é o ponto onde tudo converge — a elfa continuou mesmo assim. — O que estava dividido… agora se aproxima. Elizabeth virou o rosto para mim. Lentamente. E havia algo novo ali. Não medo. Não confusão. Algo pior. Consciência. — Isso é verdade? — ela perguntou. Silêncio. Eu não menti. — Sim. Ela respirou fundo. E por um segundo… pareceu menor. Não fisicamente. Mas internamente. — Então eu não sou só perseguida… — ela murmurou. — Não. — Eu sou a razão disso tudo. Eu não respondi. Porque parte disso… era verdade demais. O som ao redor mudou novamente. Mais próximo. Mais pesado. Mais organizado. A elfa levantou a mão levemente. E os lobos responderam. Todos. Elizabeth percebeu. — Você está controlando isso… — Estou guiando — ela corrigiu. Eu me movi para frente. — Isso não vai terminar como você quer. Ela olhou para mim. E sorriu com algo quase cansado. — Vai terminar exatamente como precisa. Elizabeth deu um passo ao meu lado. Agora não atrás. Nunca atrás. — Eu não sou peça — ela disse. A elfa inclinou a cabeça. — Ainda não. O ar estalou. E eu senti. Eles iam avançar. Não por fome. Por comando. Eu me preparei. Mas Elizabeth fez algo diferente. Ela deu um passo à frente. Sozinha. — Elizabeth— eu comecei. Mas ela levantou a mão, sem olhar pra mim. — Se isso tudo começou comigo… então eu quero entender até o fim. Silêncio. A elfa observou como se aquilo fosse exatamente o que ela queria ouvir. Eu não gostei. Nem um pouco. Porque agora… ela não estava sendo empurrada. Ela estava escolhendo se aproximar. E isso mudava tudo de novo.
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