capítulo 8— KAELITH

1083 Words
O som não era dos que já tínhamos enfrentado. Isso eu soube no instante em que senti o vento mudar. Não era perseguição. Nem reconhecimento. Era… resposta. Algo tinha sido chamado além do que os lobos e os corrompidos costumavam obedecer. Elizabeth percebeu minha mudança antes mesmo de eu falar. — Isso não é deles de novo, é? — ela perguntou. — Não. Simples. Direto. O tipo de resposta que não ajuda ninguém a respirar melhor. Ela apertou a lâmina, mesmo com a mão cansada. — Então o que é agora? Eu fiquei em silêncio por um instante. Porque algumas coisas, quando são ditas, deixam de ser aviso e viram realidade. E eu ainda estava decidindo o quanto ela precisava saber. O vento soprou mais frio. Mais profundo. Como se estivesse vindo de dentro da floresta, não de fora. — Você atraiu atenção demais — eu disse por fim. Ela me olhou rápido. — Eu não fiz nada! — Fez. — Eu sobrevivi! Silêncio. Aquilo… não era argumento aqui. Era consequência. O som se aproximou. Mais pesado agora. Não passos comuns. Mas impacto. Como se algo grande estivesse se movendo sem tentar ser discreto. Elizabeth deu um passo involuntário para trás. Mas não correu. Ainda não. Isso estava mudando nela. E não era algo que a floresta fazia sozinha. Era comigo também. — Kaelith… — ela chamou mais baixo. — Fica atrás de mim. — Você já disse isso várias vezes. — E ainda é verdade. Dessa vez ela não respondeu. Mas se moveu para o lado. Não completamente atrás. Nunca completamente. O erro mais perigoso que alguém pode cometer aqui é achar que controle parcial é segurança. E ela estava começando a aprender isso tarde demais. A forma surgiu entre as árvores primeiro como sombra. Depois como massa. Depois como presença. Não eram lobos. Nem humanos corrompidos. E definitivamente não eram parte do ciclo que ela já tinha visto. Eram mais antigos. Mais estruturados. Como se tivessem sido moldados para existir aqui desde o início. Três. Depois cinco. Depois mais. Eles não vinham correndo. Vinham certos. Elizabeth engoliu seco. — Isso… parece organizado. — É. — Isso é pior? — Muito. A primeira fileira parou a alguns metros. E então um deles falou. A voz não era animal. Nem humana. Era algo entre memória e comando. — O nome foi ouvido. Elizabeth me olhou. — Meu nome? Eu não respondi. Porque o erro já tinha sido cometido. Eles já sabiam. O segundo deu um passo à frente. — A marca foi reconhecida. Silêncio. Elizabeth ficou mais rígida. — Que marca? Eu fechei os olhos por meio segundo. Erro. Não era para ter chegado aqui tão rápido. Mas chegou. Sempre chega. — Kaelith… — ela disse mais baixo. Eu abri os olhos. — Não é visível. — Então como eles sabem? — Porque isso não precisa ser visto. O terceiro inclinou a cabeça. E então todos eles olharam para ela ao mesmo tempo. Não como caça. Como confirmação. — Ela pertence ao limiar — disse um deles. Elizabeth recuou meio passo. — Eu não pertenço a nada. O som que veio depois não foi risada. Mas quase. — Todos pertencem. Eu dei um passo à frente imediatamente. Bloqueando. Sempre bloqueando. — Não falem com ela — eu disse. O líder deles virou o rosto para mim. — Você está interferindo no processo. — Eu estou interrompendo um erro. Silêncio. O vento ficou mais pesado. E então a floresta pareceu… escutar. Eles não estavam sozinhos. Nunca estavam. Elizabeth olhou para mim. — O que é o limiar? Eu devia ter parado ali. Devia ter cortado tudo. Mas o tempo de evitar já tinha passado. — É o ponto onde você deixa de ser só o que nasceu — eu disse. Silêncio. Ela entendeu rápido demais. — E o que eu tô virando? Eu não respondi. Porque a resposta já estava ali. Nos olhos deles. Na forma como o ar se comportava ao redor dela. No jeito que a floresta não a rejeitava completamente. O líder deu mais um passo. E dessa vez… não era observação. Era decisão. — Ela será levada. Elizabeth apertou a lâmina. — Eu não vou com ninguém. O silêncio que veio foi imediato. Como se aquilo não tivesse sido ouvido como recusa. Mas como… ruído. Algo irrelevante. E isso foi o pior. Kaelith… — ela sussurrou. Eu me movi. Rápido. Quando o primeiro avançou. A floresta explodiu em movimento. Não caos. Coordenação. Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo. E isso significava que não era só sobre mim. Era sobre ela. Sempre foi. O impacto veio forte. Eu segurei o primeiro. Mas o segundo já estava passando. Direto nela. — NÃO! Ela reagiu. Não perfeita. Mas suficiente para não ser levada imediatamente. E isso… isso já era impossível o bastante. Eu cheguei no meio segundo seguinte. E tudo ficou mais pesado. Mais violento. Mais… definitivo. Quando o silêncio voltou por um instante, não havia mais dúvida na postura deles. Nem hesitação. Só certeza. — O processo começou — disse o líder. Eu não tirei os olhos dele. — Não. — Sim. Elizabeth respirava forte atrás de mim. — Kaelith… isso tá ficando grande demais. Eu sabia. Mais do que ela. Muito mais. O líder virou o rosto para ela uma última vez. E agora a voz veio diferente. Mais baixa. Mais precisa. — Você será chamada novamente. Elizabeth não respondeu. Mas eu vi. Ela entendeu. E isso mudou o ar inteiro. Eles começaram a recuar. Não fuga. Retirada. Como se já tivessem conseguido o suficiente. E isso era verdade. Quando sumiram entre as árvores, o silêncio não voltou. Ele foi substituído por algo pior. Expectativa. Elizabeth ficou imóvel por alguns segundos. Depois olhou para mim. — Isso vai continuar? — Sim. — Sempre? Eu hesitei. Só um pouco. — Até você escolher. Ela soltou uma risada curta. Sem humor. — Eu não tô escolhendo nada disso. Eu me aproximei. Mais uma vez. — Mas o mundo escolheu você. Silêncio. Ela me encarou. E dessa vez não havia dúvida no olhar dela. Só entendimento pesado. — Então me explica direito… — ela disse. — O que acontece quando o “limiar” termina? Eu olhei para ela. E não havia forma leve de dizer isso. — Você deixa de ser alguém que pode voltar. Silêncio. Longo. Profundo. E pela primeira vez… eu vi o medo real nela. Não do que estava ao redor. Mas do que estava se tornando dentro dela.
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