capítulo 9— ELIZABETH

1432 Words
O sono não veio como deveria. Ele veio em pedaços. Como se a floresta estivesse tentando me puxar de volta mesmo enquanto eu ainda estava acordada dentro de mim. Eu abri os olhos várias vezes durante a noite. Sempre o mesmo lugar. Sempre o mesmo silêncio errado. Kaelith não se movia muito. Mas também não desaparecia. Ele estava ali… como uma presença constante demais para ser ignorada. Não dormia como eu entendia dormir. Era mais como se ele estivesse esperando o mundo errar primeiro. Eu me sentei devagar. A pedra ainda estava fria sob minhas costas. O corpo pesado. Cansado. Mas não destruído. Isso já parecia estranho demais para alguém como eu. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Você não descansou — ele disse. Não era pergunta. Nunca era. — Eu tentei. — Tentou pouco. Eu soltei um ar pelo nariz, quase uma risada. — Você sempre é assim? — Assim como? — Irritantemente certo. Silêncio. Ele olhou pra mim por um segundo. Mais longo do que o necessário. — Você ainda está viva — ele disse. — Isso conta como elogio? — Conta como fato. Eu me levantei com cuidado, ignorando o peso nas pernas. — A floresta não parece diferente de noite. — Ela nunca parece. — Então por que parece pior? Ele virou o rosto em direção às árvores. Como se estivesse ouvindo algo que eu ainda não conseguia. — Porque ela não está dormindo. Aquilo fez meu estômago apertar. — Nada aqui dorme? — Poucas coisas. — E o resto? Ele demorou um pouco. — Espera. Silêncio. Eu engoli seco. — Espera por quê? Kaelith finalmente se levantou também. Lento. Preciso. Como se cada movimento fosse calculado. — Por movimento — ele respondeu. — Movimento de quem? Ele me encarou. E isso já foi resposta suficiente. Meu corpo ficou mais alerta. Mesmo cansado. Mesmo pesado. — Ela está vindo de novo? — perguntei. — Não sozinha. Ótimo. Simplesmente ótimo. Eu apertei a mão ao redor da lâmina que ainda carregava. Já não parecia tão improvisada quanto antes. Parecia… necessária. — Você sempre fala como se isso fosse normal — murmurei. — Não é. — Então por que você não parece surpreso nunca? Ele se aproximou um pouco. Não perto demais. Mas o suficiente para eu sentir que ele estava me colocando dentro do campo dele de atenção. — Porque surpresa mata. Silêncio. Eu não gostei daquilo. Mas entendi. Infelizmente. Um som cortou o ar. Baixo. Distante. Mas claro demais para ser ignorado. Eu congelei. — Isso foi…? — Sim. Ele não esperou eu terminar. Já estava se movendo. E eu também. Por instinto agora. Não por escolha. As árvores começaram a parecer mais próximas. Como se o espaço estivesse diminuindo. Errado. Tudo errado. — Kaelith… — minha voz saiu mais baixa. — Fica perto — ele respondeu antes mesmo de eu terminar. E dessa vez… Eu obedeci sem discutir. Porque eu também já tinha entendido. Aquela floresta não estava mais apenas nos observando. Ela estava nos cercando. E algo me dizia… Que dessa vez não era só caça. Era resposta. Kaelith não acelerou de imediato. Isso foi o pior sinal. Quando ele não corre, é porque ainda está medindo algo maior do que o perigo imediato. — Eles estão testando o espaço — ele disse baixo. Eu olhei ao redor, tentando enxergar o que ele já parecia sentir. — Testando como? — Se você reage. Aquilo fez meu estômago apertar. — E se eu reagir errado? Ele me lançou um olhar rápido. — Então você aprende rápido… ou não aprende mais. O som voltou. Mais perto. Mais organizado. Não era mais aquele caos de antes. Agora havia ritmo. Como passos que não pertenciam a uma criatura só… mas a várias coordenadas pela mesma intenção. Eu senti o ar mudar. Ficar mais pesado. Mais frio. — Kaelith… isso não é só caça comum, é? Ele não respondeu imediatamente. E isso já respondeu por ele. — Não — disse por fim. Silêncio. Eu apertei a lâmina. — Então o que é? Ele parou de andar. Eu parei junto. E pela primeira vez… ele olhou diretamente para mim como se estivesse decidindo o quanto deveria me contar. — Ela está tentando te estudar — ele disse. Um arrepio subiu pela minha nuca. — A esposa? — Sim. — E essas coisas? — Extensões. A palavra ficou presa no ar. Extensões. Não criaturas. Não ataques. Ferramentas. Aquilo era pior. Muito pior. — Ela pode fazer isso? Controlar eles assim? Kaelith virou o rosto novamente para a floresta. — Não todos. — Só alguns? — Os que já estão… perto do limite. — Limite do quê? Ele demorou. Mais do que antes. — Da perda de si. Eu senti o significado sem ele precisar explicar completamente. E isso me deu um frio no estômago. — Isso aqui… — murmurei — não é só uma disputa, né? — Nunca foi. Um som cortou a esquerda. Depois outro à direita. Eu virei o rosto rápido demais. Erro. Porque agora eu não sabia de onde vinha o verdadeiro perigo. Kaelith se moveu. Rápido. Mas não atacou. Só se posicionou entre mim e o vazio da floresta. — Eles estão fechando o círculo — ele disse. — Então a gente sai. — Não há saída se ela decidir que você fica. Silêncio. Aquilo bateu diferente. Não como ameaça. Como fato geográfico. Como uma regra do mundo. Eu senti minha garganta apertar. — Então ela pode simplesmente… decidir? — Sim. — E você? Ele olhou por cima do ombro, rápido. — Eu posso atrasar. A palavra atrasar me incomodou mais do que devia. Não era proteção total. Não era controle. Era tempo. Só tempo. Outro som. Mais próximo. Agora eu ouvi algo diferente junto. Respiração. Não humana. Mas organizada. E isso fez meu corpo reagir por conta própria. Eu levantei a lâmina. Kaelith percebeu. — Não gasta força ainda. — Ainda? — Ainda. Ótimo. Maravilhoso. A floresta se abriu um pouco à frente. Não como espaço. Como permissão. E então eles apareceram. Não como antes. Esses não estavam quebrados. Não estavam deformados. Eles eram inteiros. Mas vazios. Olhos escuros demais. Movimentos sincronizados demais. E isso… era o mais assustador. Porque eles ainda eram humanos de algum jeito. Ou tinham sido. — Não olha demais — Kaelith disse baixo. — Por quê? — Porque eles reagem ao reconhecimento. — O quê isso quer dizer? Ele não respondeu. Mas se moveu. E isso foi resposta suficiente. O primeiro veio direto. Eu não esperei. Dessa vez eu não congelei. Eu me movi junto. Desviei. Cortei. Não perfeito. Mas suficiente para abrir espaço. O corpo dele não caiu imediatamente. Isso foi o pior. Ele continuou por um segundo… como se ainda tivesse ordem para seguir. Até que Kaelith terminou. Seco. Rápido. Sem hesitação. — Continua — ele disse. E eu continuei. Mas algo dentro de mim mudou nesse momento. Não era mais fuga. Não era mais sobrevivência passiva. Era aprendizado forçado. Cada movimento dele me puxava junto. Cada erro meu quase me custava. E ainda assim… Eu estava ficando mais rápida. Mais consciente. Mais… encaixada naquele ritmo errado. Outro veio pela lateral. Eu já tinha visto. Eu já tinha entendido. Desviei antes de chegar. Cortei de novo. Mais firme. Dessa vez ele recuou de verdade. — Isso — Kaelith murmurou. Não era elogio. Era constatação. Mas ainda assim… Eu senti. Mais dois surgiram. Agora mais próximos. Mais coordenados. E então eu vi. Não era aleatório. Eles estavam me cercando primeiro. Não ele. Eu. — Eles estão me ignorando — eu disse. — Não estão ignorando — Kaelith respondeu enquanto se movia — estão priorizando. — Isso não melhora nada! — Melhora o fato de que você importa pra ela. Aquilo fez meu estômago despencar. — Isso não é um privilégio! — Nunca foi. Silêncio curto. Um deles avançou. Rápido demais. Eu tentei bloquear. Não consegui completamente. O impacto queimou meu braço. Eu recuei um passo. Kaelith já estava lá. Sempre lá. — Você hesitou — ele disse. — Eu vi o rosto dele! — Não vê rosto. A frase veio dura. — Vê ameaça. Eu engoli seco. Mas entendi. Mesmo assim… era difícil. Outro som. Mais pesado. Mais próximo. E então o ar mudou completamente. Como se algo maior tivesse decidido aparecer. Kaelith ficou imóvel por meio segundo. Só meio. Mas foi o suficiente para eu sentir que aquilo era diferente. — Ela chegou… — ele murmurou. E pela primeira vez desde que tudo começou… Eu senti que a floresta inteira estava prendendo a respiração. E não por nós. Mas por ela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD