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1273 Words
Capítulo 1 Eu acordei com gosto de sangue na boca. A primeira coisa que senti foi o frio. Não aquele frio comum de uma madrugada qualquer, mas um frio que parecia atravessar minha pele e se instalar diretamente nos ossos. Meu corpo inteiro estava pesado, dormente, como se eu tivesse passado horas inconsciente sobre uma superfície de metal. Tentei abrir os olhos. Nada. Apenas uma luz branca, forte demais. Fechei-os novamente. — Ela está acordando. A voz veio de algum lugar acima de mim. Mas eu não conhecia aquela voz. Meu coração disparou. Tentei me mexer. Meus braços não obedeceram. Foi então que entrei em pânico. — Calma. Não se mexa. Outra voz. Mas aquilo só me deixou ainda mais assustada. Abri os olhos de uma vez. O teto branco apareceu diante de mim. Havia luzes embutidas nele. Câmeras. Estruturas metálicas. E pessoas. Duas pessoas vestidas com roupas brancas estavam paradas ao meu lado, observando-me através de uma espécie de vidro transparente. Tentei levantar. Meu corpo inteiro reclamou. — Onde eu estou? Minha voz saiu rouca. Ninguém respondeu imediatamente. Olhei para os lados. Eu estava deitada sobre uma maca. Havia tubos presos ao meu braço. Um deles levava um líquido transparente para dentro da minha veia. Arranquei o acesso. — Ei! Não faça isso! A mulher correu até mim. Eu me afastei. — Onde eu estou?! — Você precisa ficar calma. — Onde eu estou?! Minha voz ecoou pela sala. A mulher parou. O homem atrás dela trocou um olhar com alguém que eu não conseguia ver. Aquilo me deu uma sensação h******l. Eu não estava em um hospital. Hospitais tinham janelas. Tinham familiares. Tinham enfermeiros entrando e saindo. Aquilo parecia um laboratório. Um laboratório enorme. E eu estava no centro dele. — Meu nome é doutora Helena Vilar — disse a mulher. — Você está em segurança. Soltei uma risada nervosa. — Se eu estivesse segura, eu saberia onde estou. Ela não respondeu. Levantei novamente. Dessa vez consegui sentar. Minha cabeça girou. Levei a mão à testa. — O que aconteceu comigo? Silêncio. — Onde está minha família? Nada. — Onde está meu celular? Mais silêncio. Meu peito apertou. — O que vocês fizeram comigo? A doutora se aproximou. — Você foi selecionada para um programa experimental. Eu a encarei. — O quê? — Você foi considerada compatível. — Compatível com o quê? Ela respirou fundo. E foi naquele momento que percebi que havia algo muito errado. Porque ela estava com medo de me contar. — Com um ambiente biológico que estamos estudando. Meu estômago revirou. — Eu quero ir embora. — Isso não será possível. Meu coração parou por um segundo. — Como é? — Você não pode sair daqui. Levantei de uma vez. — Eu quero ir embora! Corri até a porta. Bati nela. Puxei a maçaneta. Nada. — Abram! Bati novamente. — ABRAM ESSA p***a! Ninguém veio. Comecei a chorar. Não porque eu queria. Meu corpo simplesmente não conseguiu segurar. — Por favor... Minha voz falhou. — Eu quero ir para casa. Atrás de mim, ouvi a doutora dizer alguma coisa. — Ela ainda não sabe. — Não conte agora — respondeu uma voz masculina. Virei lentamente. — Não sabe o quê? Eles ficaram em silêncio. Foi quando uma enorme tela se acendeu na parede. Uma imagem apareceu. Uma floresta. Mas não era uma floresta que eu conhecia. As árvores eram enormes. Algumas tinham troncos azulados. Havia plantas luminosas espalhadas pelo chão. E, ao fundo, duas luas apareciam no céu. Fiquei imóvel. — Onde é isso? A doutora respondeu: — Aqui. Olhei para ela. Depois para a tela. Depois novamente para ela. — Isso é algum tipo de reserva? — Não. — Então o que é? Ela demorou alguns segundos. — Um território isolado. — Onde? Ela me encarou. — Você não está mais no continente. Meu coração começou a bater tão rápido que senti dor. — Como assim? — Você foi transportada para uma instalação localizada em uma região remota, fora das áreas habitadas. — Quanto tempo eu fiquei desacordada? — Quase vinte horas. Balancei a cabeça. — Não. — Eu sinto muito. — Não. A palavra saiu baixa. — Não, não, não... Eu não queria ouvir mais. Queria acordar. Queria descobrir que aquilo era um pesadelo. Mas então ouvi um som. TUM. Todos ficaram em silêncio. Outro. TUM. A parede atrás de mim vibrou levemente. Olhei para a doutora. Ela ficou pálida. — O que foi isso? Ninguém respondeu. TUM. Mais forte. As luzes piscaram. Um dos homens correu até um painel. — Ele está perto. Meu sangue gelou. — Quem? A doutora não respondeu. — Quem está perto? O homem olhou para mim. E eu vi medo nos olhos dele. — Não pode ser. — O que está acontecendo? — perguntei. Ele digitou alguma coisa no painel. Uma câmera externa apareceu na tela. Primeiro, só vi árvores. Depois, movimento. Algo passou entre elas. Grande. Muito grande. Parei de respirar. — Aquilo é um animal? Ninguém respondeu. A criatura surgiu parcialmente entre as árvores. Eu não consegui enxergar tudo. Mas vi uma mão. Ou algo parecido com uma mão. Dedos longos. Garras escuras. E uma pele marcada por desenhos que pareciam tatuagens naturais. Ele estava parado. Observando o laboratório. Observando a mim. — O que é isso? A doutora sussurrou: — Uma das espécies que estudamos. — Espécie? A criatura ergueu a cabeça. Mesmo através da tela, tive a sensação absurda de que ela conseguia me enxergar. Então aconteceu. Ele se aproximou da câmera. O rosto apareceu. Olhos dourados. Pupilas estreitas. Cabelos negros e compridos. Uma estrutura facial quase humana. Quase. Mas havia algo nele que fazia todos os instintos do meu corpo gritarem para correr. Ele abriu a boca. Não disse nada. Apenas respirou. Como se estivesse sentindo alguma coisa. A doutora olhou para os monitores. — Isso não deveria acontecer. — O quê? Ela não respondeu. A criatura virou o rosto. Depois voltou a olhar para a câmera. E então... ele rosnou. Não foi um som animal. Foi profundo. Inteligente. Possessivo. Meu corpo inteiro arrepiou. — Tirem ela daqui — disse alguém. — Para onde? — Para o setor três. — Agora! Começaram a correr. Eu não entendia nada. — O que está acontecendo?! A doutora segurou meu braço. — Precisamos sair daqui. — Por quê? Ela olhou novamente para a tela. A criatura havia desaparecido da floresta. — Porque ele nunca demonstrou interesse por nenhum humano antes. Meu coração acelerou. — E isso significa o quê? Ela apertou os lábios. — Significa que alguma coisa mudou. As portas se abriram. Do outro lado, havia um corredor enorme. Comecei a andar. Mas antes que pudesse dar três passos... BAM! Alguma coisa atingiu a parede externa. Todos gritaram. As luzes ficaram vermelhas. Alarmes começaram a tocar. E, pela primeira vez, ouvi aquela criatura de perto. Um rugido atravessou todo o laboratório. Eu congelei. A doutora segurou meu braço com força. — Não olhe para trás. Olhei. Foi um erro. Porque, no final do corredor, através do enorme vidro de segurança... Do outro lado da instalação... ele estava ali. De pé. Enorme. Coberto por marcas escuras. Os olhos dourados fixos diretamente nos meus. E, mesmo separados por dezenas de metros e uma barreira de vidro reforçado, eu soube uma coisa. Ele estava me olhando. Só para mim. E naquele momento eu ainda não sabia seu nome. Não sabia o que ele era. Não sabia por que havia me escolhido. Mas descobri, com um medo que percorreu cada parte do meu corpo, que aquela criatura não parecia interessada em destruir o laboratório. Ela parecia interessada em me encontrar.
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