Ao que tudo indicava, o episódio desastroso com o jardineiro, não tinha sido encarado como um desastre pelo mesmo. Agora, mais do que nunca, ele buscava a companhia de Lunna e continuava lhe presenteando com flores diversas, coisa que já não era segredo entre os criados.
Por sorte, Ivy, seria pela primeira vez uma anfitriã e receberia uma respeitosa família em Gloucester, alguns amigos de Andrew. Isso lhe tomava muito tempo com preparativos e Lunna a ajudava em todos os detalhes, tendo assim uma desculpa para sumir da vista de todos o máximo possível.
- e então, sua caladinha, não vai me contar nunca como foi o seu encontro? Não me pareceu muito promissor.- perguntou Ivy a Lunna, enquanto organizavam o cardápio para a semana seguinte.
- o casamento já a tornou uma senhora sábia? Na verdade, foi muito pior do que eu poderia imaginar. Não que o senhor Sammir seja desrespeitoso, ou algo assim, mas...
- mas? Ora, Lunna, não me encha de curiosidade! Lembre-se que eu sou uma mulher gestante agora.
A ruiva revirou os olhos diante da desculpa constantemente de Ivy, para qualquer coisa que imaginasse.
- ele tentou me beijar e foi h******l!
- ele a desrespeitou?- a duquesa perguntou alarmada, soltando a pena que usava para escrever.
- não, eu consenti com o beijo. Mas, o beijo não foi nada bom. Algo não se encaixava, eu me senti completamente babada e o pior é que ele não parece ter sentido o mesmo e continua me perseguindo.
- quer que eu resolva isso?
- não, absolutamente. Eu vou deixar claro que não desejo mais nada, apenas isso. Não precisa usar o seu poder ducal.
As duas riram e continuaram planejando os detalhes para agradar aos convidados na semana seguinte. Durante os próximos dias, Lunna realmente conseguiu se manter ocupada e longe do senhor Sammir e das fofocas, durante o dia, a noite, porém, sua mente continuava sendo invadida e o seu corpo despertava inquieto e ansioso.
Finalmente havia chegado o dia em que as visitas chegariam a Gloucester, Ivy estava especialmente nervosa, mas Andrew a tranquilizava carinhosamente.
Quando a carruagem luxuosa parou de frente a propriedade, o próprio duque e sua nova duquesa foram receber os convidados. No interior da mansão, os criados se desdobravam para agradar os visitantes e consequentemente o seu recente senhor e Lunna, apesar de não ter sido ordenada pra isso, Lunna também se preocupava com as visitas e verificava se estava tudo bem. Agora, os criados a respeitavam da mesma maneira como respeitavam a senhora Gertrudes, pelo fato de ser tratada com i********e pela duquesa.
Os lacaios já estavam a postos na entrada para carregar as malas, havia água fresca nos quartos de hóspedes para tirarem a poeira da viagem, uma refeição leve também estava pronta para ser levada e o banquete de boas vindas, que seria servido a noite estava bem adiantado.
Lunna não precisaria estar presente na recepção, não haveria lugar para ela ali. Por mais que Ivy insistisse que ela era como uma amiga, ela sabia o que era de fato, sabia que os nobres jamais a enxergariam de tal forma e preferia se manter longe da hostilidade daquelas pessoas.
Aproveitando o tempo que tinha, ela desceu até o salão dos criados e sentou-se a mesa para descansar os pés, tinha se dedicado a muitas coisas durante aquele dia e agora estava cansada.
Ela comia um pêssego doce, quando algumas criadas voltaram do salão principal, com risinhos e fofocas sobre os visitantes que chegavam. Ela até gostaria de participar do assunto, mas, não conseguia se aproximar dos outros criados. Era muito próxima da duquesa para ser uma deles e geralmente os assuntos referentes aos nobres ou que eles julgassem exclusivos da criadagem, se calavam com a sua presença.
O que teria de engraçado ou chamativo nos visitantes do duque?– pensou sem parar de comer sua fruta.
Logo após, alguns dos lacaios pareceram mau encarados ao voltar e iriam dizer alguma coisa as mulheres que riam, porém, desistiram ao notar a sua presença.
– perdão, tem alguma coisa errada acontecendo com os visitantes da duquesa?– perguntou, sem resistir a curiosidade que a tomava naquele momento.
– não, senhorita, está tudo correndo perfeitamente.
Contrariando a resposta que acabara de receber, Constance, a criada mais jovem da casa, entrou praticamente correndo no salão, seu rosto branco estava rubro e o seu sorriso iluminado.
– ele me pediu frutas frescas! Em seu quarto! Agora, agora!– disse a garota, empolgada, enquanto pegava uma bandeja de prata polida e colocava sobre ela diversas frutas.
– você não deveria ir! Sequer sabe carregar uma bandeja corretamente, eu irei.– protestou outra criada, Meg, a primeira ao entrar com os risinhos.
– de forma alguma!– a mais jovem negou, ao mesmo tempo em que pegou a bandeja e praticamente correu.
Nesse momento, Meg tentou alcança-la e a puxou pelo uniforme, fazendo com que caísse para trás, soltando a bandeja com um estrondo no chão, enquanto os rapazes sorriam da situação.
Obviamente, a senhora Gertrudes estava ocupada demais e bem longe dali para resolver aquele assunto, as mulheres estavam prestes a brigar pela bandeja, quando Lunna se levantou de onde estava sentada e elas paralisaram, lembrando da sua presença ali e do quanto estariam enrascadas, se ela contasse aquilo a senhora Gertrudes, que agora estava do seu lado em tudo, ou pior, a própria duquesa, com quem parecia manter uma amizade.
– mas, que absurdo é esse? Acham que sua graça se dedicou tão pouco para receber seus visitantes, que agora querem arruinar tudo o que ela preparou? Pois eu digo que na última semana, isto foi tudo a que ela se dedicou. Eu mesma levarei as frutas, e não contarei nada do que houve aqui, se pararem com essa briga imediatamente.
Lunna voltou a pegar a bandeja do chão e a limpou novamente, com mais calma do que a senhorita constante, escolheu as melhores frutas na mesa e retirou de um arranjo no centro desta um broto de rosa, para decorar.
Com uma elegância Completamente incomum para uma serva, ela caminhou de cabeça erguida e a postura que tanto intrigava os outros empregados, mas, antes se certificou sobre o quanto em que deveria ir.
Apesar de levar a bandeja, seus passos eram firmes e qualquer um que a visse a julgaria como uma lady. Usando as escadas dos criados, que levava diretamente aos quartos de hóspedes, ela se dirigiu ao quarto principal daquele corredor e bateu levemente.
– entre.– respondeu uma voz grave, de forma imparcial, mas que foi capaz de roubar uma batida do seu coração, que parecia ter parado por um instante para ouvi-lo.
"Não, estava louca, só poderia estar."
Para comprovar que os seus pensamentos eram infundados e poder se acalmar novamente, ela respirou fundo e abriu a porta de vez, comprovaria que estava errada, deixaria a bandeja e sairia dali calmamente.
No entanto, dessa vez foi ela mesma quem soltou a bandeja quando finalmente abriu a porta.
Era ele. Ele iria se hospedar em Gloucester. Como ela não sabia disso?
Ela que tinha ajudado em todos os preparativos, sequer parou para pensar nos nobres que estariam ali.
Com raras excessões, eram todos igualmente esnobes, não importando o sobrenome e aquele homem era mais uma prova disso.
Ele sequer olhou para porta quando esta abriu e nem se dignou a falar onde desejava que ela colocasse a bandeja, apenas apontou de forma fria para a mesa e continuou olhando pela janela, sem uma palavra sequer.
Somente quando ela derrubou a bandeja no chão com a sua terrível surpresa, o visconde de Severn a encarou aborrecido, com aquele olhar n***o que muito a incomodava, porém, ela também notou quando o seu aborrecimento se transformou em surpresa ao nota-la ali, na porta do seu quarto, quase como uma tentação irresistível.
É claro que ele esperava encontra-la em Gloucester, apesar de não estar ali por sua causa, absolutamente. Ele sabia que ela era uma dama de companhia para a duquesa de seu amigo Andrew e que obviamente a encontraria por lá.
Ele apenas não esperava que fosse tão cedo, ou que ela vinhece servi-lo pessoalmente.
– o que o senhor está fazendo aqui?– perguntou assim que assimilou que desta vez não era um sonho, ele estava realmente ali.
– Sou um dos padrinhos desse casamento, amigo de Andrew há anos, nada mais justo de que ser um dos primeiros visitantes do casal.
Enquanto ele falava, Lunna notou, mais uma vez, os seus olhos revelarem o que ele estava sentindo. Ele a encarava feroz, tal quanto um predador e o seu olhar, a metros de distância dela, eram como dedos percorrendo o seu corpo da forma mais ousada.
Sem pensar duas vezes, ela voltou a bater a porta e correu para o mais distante possível dali.