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" Chama-me vida!
Encha-me de felicidade.
Chama-me calor!
Encha-me de ansiedade.
Quero sentir seus braços aos meus prantos.
Quero ouvir sua voz ao meu descanso.
Quero beijar seus lábios enquanto canto.
Mórbidos silêncios seus são quando já me falta medo.
Quero escalar seu peito, pressionar seu corpo ao meu.
Quero subir seu colo e agarrar o desespero.
Quero te ouvir gritar não por ódio.
Mas por prazer.
Quero fazer de tu um homem e te deixar feliz,
Quero sentir seu amor, onde já existe ódio.
Quero que me aceite
Mesmo já me tendo recusado
Quero te chamar de meu
Mesmo que jamais seja. "
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Os seus olhos se abriram num brilho púrpura, como se tivesse acabado de presenciar um ataque nuclear. Suas mão tremiam e suavam frio.
Era isso? - pensava ela. - Essa é a verdade que eu precisava relembrar?
Ela estava transtornada e mesmo isso não a fez chorar, não. Não era tristeza que ela estava sentindo agora. Era talvez culpa. Remorso.
- Pessoal. - chamou. O trio adentrou o quarto cautelosamente, observando os arredores, pesarosos. - Está tudo bem, eu não invoquei nenhuma entidade maligna ou algo do tipo.
- Você conseguiu? Lembrou de alguma coisa? - perguntou uma Hanna curiosa.
- Sim. Na verdade, eu lembro de tudo.
Todos se entreolharam e suspirados. Não se sabia ao certo de era de alívio ou de satisfação. Afinal, nada ainda havia sido resolvido. Eles saíram daquela atmosfera sinistra no quarto de Hanna e se reuniram na sala para conversar e beber umas cervejas.
- E então? - David estava ansioso. - O que descobriu?
Esmeralda sorriu um pouco tristonha, como se não quisesse falar sobre o assunto imediatamente, mas sabia como o tempo era importante para achar seus entes queridos. Ela respirou fundo e encarou seu copo que já estava pela metade.
- Eu acho que se existisse um ponto de onde teria começado tudo, seria com a mudança da minha família para uma casa nova. Bom, nova pra gente. Eu sempre fui muito reclusa quando era criança pois tinha poucos amigos e meus pais não eram muito atentos à mim, não depois que meu irmão Will nasceu. Mas quando nós chegamos naquela casa, algo novo começou a acontecer. Especialmente comigo. Tudo começou com uma sensação.
- Depois o arrepio. - disseram em coro os meio irmão. Mel os olhou surpresa.
- Nós também sentimos isso. - explicou David. - E sempre depois do arrepio...
- Vinha a presença. - completou Hanna.
- Você também sentiu isso, certo Brian? - perguntou David. Mas o menino estava um pouco pensativo.
- Eu... acho que ainda estou no estágio da sensação. Como se algo estivesse me observando, mas eu não pudesse vê-la ou ouvi-la.
- É exatamente isso. - explicou Hanna. - Continue, Esmeralda.
- Sim, depois da sensação vinham os arrepios e depois a presença. Com a presença vinham as aparições e os hematomas em meu corpo. E quando eu comecei a ficar com medo dos jogos dela e quis me afastar, ela ficou com raiva e tentou me m***r na banheira. Ainda não entendo cem por cento o que ela queria comigo, mas sinto que quando aconteceu o acidente que matou a minha família, ela tenha me possuído. E que por este motivo, eu tenha sobrevivido sem arranhões.
- Então o coma...
- Sim, Hanna. Era eu lutando contra ela e as sombras para assumir o comando de meu corpo. Eu era apenas uma criança. Eu tive ajuda, no entanto. Eu não teria ganho se não a tivesse. Vou lhes contar o que eu me lembro....
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Esmeralda
Após o acidente tudo ficou escuro. Acho que minha mente ficava revivendo inúmeras e inúmeras vezes o acidente de carro e se encerrava com aquela nuvem n***a invadindo minha garganta. Parecia que eu estava no escuro fazia muito tempo, mas eu sentia que não estava sozinha. Eu às vezes achava que havia morrido no acidente, às vezes eu achava que eu estava apenas dormindo. Mas eu comecei a ouvir aquelas vozes... vozes tristes.
- Ei, quem é você?
- Eu nunca te vi aqui.
- Você morreu?
- Ela é tão jovem... eu também era jovem... mas não tão jovem... pobrezinha...
- Ela é bonita. Mesmo para uma morta.
- Ei, quem é você?
- Eu nunca te vi aqui.
- Você morreu?
(...)
Aquilo ficava se repetindo. As vezes eles choravam, as vezes cantavam músicas tristes. Sempre juntos. Às vezes me perseguiam, mas na maioria das vezes me faziam as mesma perguntas. Uma vez eu tomei coragem e perguntei à um deles.
- Onde é este lugar?
- É o vazio. Onde pessoas que não sonham mais moram.
Uma mulher de aparência estranha havia respondido à minha pergunta e arregalou seus olhos mórbidos em minha direção.
- Espere. Você está viva? Você pode me ver?
Com o passar do tempo eu percebi que aos poucos eles começaram a me temer. Quase ninguém mais ficava muito tempo perto de mim. Depois de uns dias eu percebi o vestido vermelho correndo por entre aqueles seres horripilantes que se lamuriavam cada segundo mais. Almas que sofriam no esquecimento de suas almas.
Era ela.
Ela passava e perguntava de mim, mas as almas rapidamente se esqueciam, por isso sempre falavam a mesma coisa. Eu me mantinha escondida dela. Eu sabia que se ela me encontrasse, seria o meu fim. A primeira vez que eu soube que estava dormindo foi quando eu ouvi uma voz me chamando.
- Boa noite. Me chamo Padre Michael e esta é a gravação de Megan Smith. Número um. Hoje é dia 21 de outubro do ano de 1994 e são exatamente dez horas da noite. Estamos no quarto de Megan, ela está em um sono profundo há alguns dias e eu vou tentar entrar em contato com ela...
Eu senti um arrepio. Ninguém mais parecia ter ouvido, mas eu precisava ter certeza de que Dalila não estaria ouvindo também. Eu queria sair daquele lugar. Eu queria acordar e fugir dali.
- Megan? Pode me ouvir? Me chamo Michael.
Eu respirei fundo e sussurrei, torcendo para que minha voz pudesse ser ouvida.
- Sim, eu posso te ouvir...
- Quantos anos você tem, Megan? - perguntava o homem. Eu fiquei surpresa por esta ser uma pergunta importante, ele não devia saber disso?
- Eu tenho oito anos.
- E há quanto tempo está dormindo?
- Há muito tempo.
- Você está com medo? - aquela pergunta era óbvia. Eu queria respondê-la, mas outra pessoa respondeu em meu lugar. Uma gargalhada atrapalhou a minha concentração e eu a notei, me observando à distância
- Eles têm medo de mim.
- Eles quem? - indagou.
- Os que vivem no escuro.
- E por que eles têm medo de você? - continuava o homem.
- Por que eu estou no mundo deles e posso ouvi-los.
O homem pareceu ficar em silêncio por alguns momentos e então pigarreou e voltou às suas perguntas à mim, mesmo que eu não as tivesse respondendo mais.
- Pode ouvi-los agora? O que dizem?
- Eles cantam uma música triste... - Dalila encenava tudo, como se estivesse mesmo com dor ou medo. Eu a olhava insegura. Ela abriu um sorriso para mim.
- Uma música? Pode cantar ela para eu ouvir?
- "Uma brisa banha a manhã, dos seus dias/ E toda vez que fechar seus olhos para rezar, olhes onde pisa/Os cacos da desgraça de minha vida é apenas culpa minha/Mas os pesares de sua morte serão apenas a última flâmula da vida..."
- Mary! - gritou Michael. - Corra!
- Ela achou que isso iria me deixar mais fraca, mas tudo o que fez foi me deixar com muita raiva.
- Ela quem? - gritou o homem já aos prantos.
Eu sabia o que estava acontecendo. Eu corri até ela no intuito de pará-la.
- Dalila! - gritei.
O meu grito foi tão alto que todos os seres que estavam ao meu redor começaram a gritar também. Tão alto que eu precisei me agachar e proteger meus ouvidos. Dalila que estava perto de mim parecia confusa e de repente desapareceu. Eu achava que a tinha vencido, mas ela voltou a me procurar nos arredores não muito tempo depois e eu voltei a me esconder dela.
Eu percebi que o que me conectava à ela era o mundo exterior e todas as vezes que alguém que estava próximo de meu corpo, tentava falar comigo, ela de alguma forma me localizava. Não sei se era por que eu tentava me concentrar no que era dito e esquecia de me proteger. Eu não sabia.
- Esta é a gravação de Megan Smith. Número dois. Hoje é dia 2 de dezembro do ano de 1994 e são exatamente nove horas da manhã. Estamos no quarto de Megan, ela está em um sono profundo, mas devido à sons perturbadores eu fui chamado para auxiliar esta família... – um som de cadeira se fez e o homem parecia ter levantado. Eles estavam tentando novamente. Isso me surpreendeu. O homem prosseguiu. – Megan, há dois meses o Padre Michael esteve aqui com você e aparentemente você o deixou em um manicômio. Você consegue me ouvir?
Uma risada infantil percorreu meus ouvidos uma risada maligna. Nós estávamos competindo para ver quem conseguiria falar. Eu não a localizei de imediato, mas eu sabia que ela estava perto. Afinal, nós habitávamos o mesmo corpo.
- Megan, seus pais morreram no acidente que te deixou em coma, todos querem que você acorde e melhore...
O que? Não, eu já sabia disso. Não era uma surpresa. Mas... eu sabia que não poderia acordar agora, ela daria um jeito de acabar comigo. Eu podia correr enquanto a pudesse ver.
- EU... NÃO... POSSO... A-COR-DAR! – gritei. – Se eu acordar a Dalila vai me m***r. - suspirei.
- Quem é Dalila? – o homem parecia confuso. Mas eu não respondi. Ela tomou posse de minha voz e gritou:
- Pergunte ao Samuel!
O que? Quem era Samuel? Eu não fazia ideia. Sobre o que ela estava falando? Isso tinha haver comigo? Eu sabia que ela faria algo maligno novamente, mas sem poder vê-la, eu não a poderia impedir novamente.
- Daniel! - gritou uma mulher. Eu podia ouvir o som de janelas se quebrando e a conexão foi interrompida.
- Por favor, me ajudem. - sussurrei aos prantos. Mas eles já não podiam mais me ouvir.
- Ei. - chamou alguém. - Você não devia estar aqui.
Eu olhei para trás e vi algo que fez meu estômago revirar. As lágrimas brotaram em meus olhos e eu não conseguia distinguir se aquilo era real ou algo da minha imaginação. Era o meu irmão. Mas a sua cabeça... ela estava parcialmente esmagada. Minha mãe estava logo atrás dele, sorrindo e estendendo o único braço que ela agora tinha para me receber com um abraço.
- Filha, aqui não é o seu lugar.
Eu corri e afundei meu rosto em sua barriga e toda a minha família apareceu para me dar um abraço apertado e incrivelmente caloroso. Eu sorri, com minhas lágrimas manchando o meu rosto imundo e fechei meus olhos. Uma forte luz apareceu. Eu estava em um lugar onde quase não havia muita iluminação. Eu abri meus olhos, surpresa e me encontrei deitada em uma cama. Eu imaginava que estaria em um hospital, mas eu estava em um quarto pequeno.
Eu acordei? Eu tentei me lembrar de alguma coisa antes daquilo, mas tudo ficou escuro. Eu não conseguia lembrar nem mesmo de meu próprio nome.
Me levantei com dificuldade, minhas pernas não me permitiam ficar em pé devidamente, já que fiquei muito tempo desacordada. Coloquei a mão em meu pescoço, mesmo sem saber o motivo aquilo me deixou assustada, mas algo me dizia que eu não tinha com o que me preocupar. Eu suspirei.
- Olá? - perguntei com a minha voz rouca. - Alguém pode me ajudar?
Uma mulher de vestes brancas entrou no quarto com um olhar surpreso, como se não acreditasse no que estava vendo. Eu também ficaria surpresa se presenciasse a mesma cena, mas eu estava ali, eu estava bem.
- Oi, onde estou? - perguntei.
- Santo Cristo!
A mulher me ajudou rapidamente e me apoiou na cama novamente.
- Espere aqui um momento.
- Está bem.
Ela se apressou ao sair do quarto e voltou com um senhor alto e tão surpreso quanto ela. Mas em seus olhos eu podia ver o medo.
- Oi. - disse novamente. - Onde eu estou?
- Olá, pequena. Você está na igreja no senhor.
- Oh, e qual é o seu nome?
- Eu me chamo Padre Daniel e esta é a irmã Mary. Foi graças à ela que você teve todo o cuidado aqui, ela nunca desistiu de você.
- E o que aconteceu comigo?
- Você não se lembra?
- Não.
Eles se entreolharam e o padre pigarreou, limpando a garganta.
- Do que você se lembra?
- De absolutamente nada.
- Qual o seu nome? - perguntou Mary.
Eu fiquei pensativa, como se algo não se encaixasse.
- Eu... não sei.
Eles me permitiram ficar com eles por cerca de uma semana para que eu me acostumasse à vida fora da cama e pudesse andar sem dificuldades. Me faziam orar e rezar todos os dias por várias vezes. Me ensinaram à ler a bíblia. Depois desses dias eles apareceram com um casal muito simpático.
- Os seus pais estavam em uma viagem e finalmente voltaram para buscar você.
- Oh, então vocês conheciam os meus pais! Por que nunca me disseram?
- Para não ficar ansiosa com o nosso retorno, querida. - disse a mulher.
- Vamos para casa, Mel? - disse o homem, estendendo sua mão em minha direção.
- Mel? - perguntei.
- Sim. Este é o seu nome. Esmeralda Santiago.
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