Andrew
A vida parece normal mais uma vez, tudo parece estar certo de novo. Eu voltei à escola e também voltei a tocar assim que me recuperei dos meus ferimentos, que não foram tão feios quanto os do meu irmão, Aaron se atravessou na frente e tomou uma bala por mim, mesmo sabendo que isso podia ser fatal, ele não pensou duas vezes antes de agir, só foi e fez por instinto, tudo o que ele queria é me salvar, mesmo que isso significasse que ele morresse no processo. Felizmente, o tiro não foi fatal, mesmo causando alguns transtornos e mudanças no dia a dia dele, ele está bem melhor, estou otimista que logo eu o terei ao meu lado na escola e nas baladas e seremos a dupla que sempre fomos, esse tempo separado dele tem me afetado, mas não só isso, eu ando me sentindo estranhamente apático em relação a mulheres em geral, apenas uma parece me afetar seriamente.
Uma mulher cuja beleza exótica me chama sempre que eu a vejo ou ao mero pensamento da figura dela.
Freya.
Até seu nome emana mistério e perigo.
No momento em que eu a vi pela primeira vez, fiquei hipnotizado pela sua beleza tão exótica, os olhos vermelhos, a pele e o cabelo imaculadamente branco, parecia uma figura saída dos contos de um livro de fantasia. Parecia uma fada, envolta em beleza avassaladora e mistério, eu queria me aproximar e fazer o mesmo que sempre faço com todas as mulheres que conheço, mas aquilo parecia errado, eu não queria que ela me visse apenas como um cara que a queria por sua beleza, eu tinha o desejo de conhecer o que estava por baixo daquela camada de mistério, daquele silêncio, eu queria conhecê-la por completo, nada menos que isso era meu desejo. Por esse motivo, resolvi que o melhor a se fazer era manter uma distância segura e silêncio, até por quê, a intensidade daqueles sentimentos também me assustou, eu não sabia o que estava acontecendo e eu queria muito só ignorar isso e seguir em frente, mas parece que não era possível, o tempo todo em que estivemos reunidos na mesma sala, meu olhar era atraído para ela, era impossível de evitar, parecia natural a forma como meu olhar sempre acabava vagando para ela uma e outra vez.
Nos dias que se seguiram, depois daquela batalha sangrenta, eu a via com certa frequência, já que estávamos todos na mansão para cuidar de assuntos variados, no caso dela, e se recuperar dos ferimentos, no meu caso. Muitas vezes eu quis começar uma conversa, mas eu simplesmente não sabia o que dizer, o velho Andrew conquistador não ganharia nada aqui, ela era uma mulher experiente e culta, seu olhar parecia demonstrar ao mundo que já havia visto de tudo um pouco e que não se impressionaria com pouca coisa, ainda mais em se tratando de um garoto como eu.
Aquilo me deixava frustrado, eu não sabia como me aproximar, não sabia o que fazer, perto dela eu parecia um garotinho inexperiente e tímido, que apenas poderia se contentar com olhadelas ocasionais e que desviava o olhar assim que ela percebia.
Isso mudou quando nos sentamos no terraço, Tyler e eu, estávamos conversando sobre o que tinha acontecido naquele dia, Tyler saiu para atender uma ligação e mesmo ainda mancando um pouco, achei que seria uma boa ideia sair pouco e sentar na praia, era tão perto e não parecia ter perigo nenhum, m*l sabia eu que o perigo era eu mesmo. Estava descendo as escadas vagarosamente fazendo algumas caretas no processo, estava quase lá e achei que havia conquistado o mundo naquele momento. Ledo engano. Acabei tropeçando quando faltava apenas três degraus para chegar no corredor e caí de cara, fazendo um estardalhaço no processo, fiquei lá no chão tão espalhado como um maldito tapete naquele corredor, acabei me machucando mais ainda, eu queria levantar, mas qualquer movimento meu enviava uma agulhada de dor por algumas partes do corpo, fiquei ali esperando que alguma alma passasse e me visse naquele estado deplorável, Freya ia passando com um tablet na mão, parecendo distraída quando ouviu o meu gemido de frustração, assim que eu percebi que era ela, fiquei imediatamente chateado, ela era a única pessoa nesse lugar que eu não queria que me visse assim, mas foi justamente ela que apareceu para me socorrer.
Ela colocou o tablet em um lugar e se aproximou rapidamente.
– Você está bem? – pergunta suavemente.
Ela vestia um shorts bem leve, camisa branca e rasteirinha, era um dia relativamente quente e todos estavam vestindo algo mais leve, não faço a mínima ideia do nome daquelas peças ou de que tecido eram feitas, mas ficavam maravilhosamente bem nela. Suas pernas ficavam lindas e eu não consegui tirar os olhos daquela mulher. Percebendo que eu estava provavelmente de boca aberta e babando, tentei o melhor para reunir qualquer dignidade ou compostura restante, dado a posição que eu me encontrava no momento que não era muito favorecida.
– Não exatamente. – respondo um pouco envergonhado.
– Venha, eu vou lhe ajudar, Andrew. – se abaixa para me ajudar a levantar.
O som do meu nome saindo dos lábios dela parecia música e eu fiquei enfeitiçado, eu queria ouvi-la dizer o meu nome outra vez, muitas vezes. Fiquei surpreso de ao perceber que ela sabia meu nome, mesmo que não tenha perguntado em momento nenhum, é normal me confundirem com meu irmão, por isso, eu esperava que ela se confundisse também, ou perguntasse qual dos dois eu era. Confesso que aquela simples coisa me deixou ridiculamente feliz e eu não sabia administrar isso muito bem, a melhor saída para não passar vergonha naquele momento era falar alguma coisa que não fosse vergonhosa.
– Você sabe meu nome, pensei que me confundiria com meu irmão. – ok, não era isso que eu queria dizer, realmente eu poderia ter pensado alguma coisa melhor, eu culpo essa mulher por ter efeitos estranhos em mim.
– Eu reconheceria você em qualquer lugar. – responde com aquela voz melodiosa.
Droga, eu acho que estou apaixonado.
– Como? – pergunto com um meio sorriso.
– Simples, você é diferente do seu irmão. Ele é mais ativo e barulhento, você por outro lado é mais tranquilo e contemplativo, além do mais, você é o único que me encara constantemente quando pensa que não estou olhando. – responde com um sorrisinho.
Touchè.
Parece que eu fui pego em flagrante.
– E eu aqui pensando que você não havia percebido. – massageio a nuca envergonhado.
– Eu vi. Mas você parecia tão bonito que eu não quis interromper o seu momento. – sorri.
Ela é tão bonita.
– Desculpe por isso. Posso falar sinceramente? – pergunto.
– Deve. – incita.
– Você é linda demais. Eu não consegui evitar e mesmo quando eu tentava, meu olhar acabava migrando para você sem que eu percebesse. Você tem essa coisa misteriosa que me chama e eu simplesmente não consigo evitar. – falo com toda a sinceridade que eu posso.
Eu realmente não consigo deixar meu olhar muito longe dela quando estamos no mesmo lugar, é inevitável.
Freya me ajudou gentilmente a me sentar na calçada e deixando o tablet de lado, sentou-se comigo. Aquele movimento era algo tão deslocado que a fazia parecer outra pessoa. Eu nunca imaginei que uma figura tão etérea como ela, estaria sentada no chão comigo nesse momento.
– Não se deixe enganar pela minha beleza. Por mais singular e chamativa que seja, eu sou apenas uma ferramenta que a senhorita Pandora possui. – avisa.
Aquelas palavras me fazem franzir o cenho.
– Porque você pensa isso? – pergunto genuinamente curioso.
– Porque é a verdade. Eu me dei de corpo e alma a ela com a condição de que atendesse os meus desejos. Ela o fez e isso que você vê hoje, é criação dela. Ela me treinou e me ensinou tudo o que eu sei. Eu sou dela para fazer o que quiser. – responde com convicção.
A forma como ela se referiu a si mesma me deixou um pouco incomodada, mas eu não posso reclamar sobre isso, eu não sou nada dela e nem a conheço, na verdade. E Pandora parece ter sido a única que a ajudou.
– Um pacto com o d***o? – pergunto.
– Talvez. Mas ela foi a única que matou os demônios que me atormentavam, então eu tenho uma dívida com ela que só pode ser paga servindo-a por toda a minha vida. – diz.
Me surpreende a forma apaixonada como ela fala sobre Pandora. Vejo que o que ela sente é muito mais do que simples senso de dever ou porque está em dívida, ela sente admiração por Pandora, uma admiração muito forte.
– Ela é mais do que apenas sua patroa, não é?
– Sim. Eu a admiro muito, porque ela viu em mim uma coisa que ninguém tinha visto ainda. – diz.
– O que?
– Ela viu um propósito, eu não era só mais uma pessoa inútil nesse mundo como me fizeram acreditar. E mesmo achando que ela estava errada, ela desenvolveu cada habilidade que eu tinha e me transformou na mulher que eu sou hoje. Eu a admiro por ter visto em mim, algo que ela poderia usar. É uma honra para mim trabalhar ao lado dela. – profere solene.
Entendo o que ela quer dizer, eu realmente entendo. Sempre há alguém que nós admiramos imensamente e que queremos ajudar de alguma forma, alguém a quem queremos devotar nossas vidas e que talvez somos capazes de entregar a nossa própria vida por ela.
Na maioria das vezes é difícil explicar a intensidade de certos sentimentos.
É sempre mais fácil sentir, do que expressar.
– Oh, você está aí. Eu estava te procurando. Freya, como está? – Tyler aparece.
– Olá, Tyler. Eu estou bem. Aaron está melhor? – Freya pergunta.
– Ele está bem, ferimento à parte é claro. – explica.
– Que bom. Eu pretendo ir me desculpar com ele assim que possível. – diz.
Pelo que?
– Pelo que? – Tyler dá voz aos meus pensamentos.
– No dia em que ele se feriu, eu acabei esquecendo por um momento que ele estava ferido naquele lugar e não avisei a ninguém. O coitado foi jogado na cama como um saco de batatas. – explica.
– Oh. Isso explica algumas coisas. – Tyler murmura e eu continuo olhando de um para o outro em silêncio.
– Bem, eu tenho que ir. Até logo, Andrew. – Freya se despede e acena para Tyler quando vai embora.
Eu apenas acompanho com o olhar.
– Vamos lá, Casanova. – Tyler me ajuda.
Eu apenas o encaro e prefiro não falar nada.