Prólogo - Ayla

1881 Words
Certa noite perguntei a minha mãe sobre o assunto. Ela sorriu em minha lembrança e eu via apenas o sorriso de seu rosto embaçado, não consegui ouvir o que ela disse, mas meus olhos pesaram e ela se foi, sem me dar nenhuma resposta. No dia seguinte, minha família jazia morta na sala, meus pais sentados ao sofá. Meu avô a poltrona, meus dois irmãos no chão deitados por sobre os pés de meus pais. Ouvi o choro de meu irmão mais novo, subi a escada às pressas, olhei ele no seu berço azul, tão indefeso, sozinho e incapaz e agora eu teria de cuidar dele, o peguei no colo ninando-o, lágrimas borravam minha visão, mesmo assim, teria de ser forte, prometi a mim mesma que choraria apenas dessa vez e que protegeria meu irmão com minha vida. Eu fui apresentada muito cedo a crueldade do mundo. Eu tinha apenas 8 anos. Meus pulmões buscaram desesperadamente ar, concedendo seu pedido finalmente consegui voltar a respirar, me sentei na cama, minha cabeça ainda latejava, mas ignorei a dor, me concentrando apenas em esquecer os corpos da minha família. Em breve iria fazer dez anos da morte deles, tornando os pesadelos mais constantes, mais um lembrete de culpa para minhas costas aguentarem. Ergui minha mão para abrir a cortina, foi só ai que percebi que ainda tremia. O sol lá fora logo alcançaria seu auge, então devia ser em torno das nove horas. Olhei em volta, a pequena luz que passava por entre as cortinas iluminava o recanto. Eu estava dormindo no quarto antigo de meu irmão Rafa, imaginei que após dez anos, ainda teria o cheiro de seu aconchego, mas não tinha. O cheiro de mofo era o que predominava no quarto, tinha alguns locais do quarto com poeira, como nossa foto em cima da mesa dele, estávamos eu, ele e Théo, na foto meu rosto era o único que não estava totalmente apagado pelo tempo, o que se tornava a merda de uma coincidência, talvez se eu limpasse os rostos deles aparecessem, mas eu não queria, não queria ver o sorriso frágil e inocente deles. O único odor que restava na casa era sangue seco, mofo e as lágrimas constantes de uma pessoa morta. Foi mais difícil do que eu pensei entrar na casa após dez anos. O tapete não estava mais lá, tampouco o sofá, achei que poderia voltar e me sentar na poltrona de meu avô, para, talvez, matar a saudade que sentia deles, para inalar seu cheiro e conhecimentos que não foram adquiridos totalmente por uma criança de apenas 8 anos, achei que teria coragem de entrar no escritório de meu pai, passear com anseio pelos inúmeros livros que falei que ainda leria quando criança, seguindo cada ensinamento do meu pai. Mas as lágrimas intalaram na garganta e eu as engoli junto com a coragem. Meio a contra-gosto me levantei, indo para o banheiro. A água quente queimou minha pele, mas não liguei para dor, batendo fortemente contra a ferida aberta nas minhas costas, queria apenas apagar a amargura crescente em meu peito, queria que ele descesse pelo ralo assim como a água. Era difícil, quando tudo ao redor me lembrava deles, me lembrava que eu tinha vindo a esse cidade com o propósito de vingança, uma coisa tosca, se pensasse como minha mãe, mas eu não era ela, mesmo que nossas aparências fossem parecidas, eu nunca seria ela, seria sempre o monstro que minha vó criará no porão de sua casa, com o único propósito de matar. Desliguei o chuveiro, pegando a toalha e me enrolando nela. Passei a mão pelo espelho, encarando meu reflexo, eu estava com grandes olheiras, meus olhos azuis estavam apagados, tornando-os quase cinzas. Imaginei quantas vezes meu irmão ficou se arrumando para impressionar a garota da escola, imaginei quantas vezes ficou ensaiando para dizer que gostava dela, imaginei se ele chorou quando ela disse que não sentia o mesmo, seria no mesmo local onde eu estava parada. Queria não lembrar deles, queria simplesmente poder apagar tudo que aconteceu, se possível, eu mesma, mas como isso não era possível e eu ainda tinha uma vida para viver, eu saí do banheiro atrás de uma roupa qualquer. Fui para o quarto do meu irmão, sentindo a madeira velha ranger sobre meus pés, me esquivei da lembrança longínqua de quando eu corria por aqueles corredores, para acordar a casa quando nevava. — Ô preguiça, vamos levantar! — Digo da porta, esboço um sorriso quando ele resmunga algo desconexo. Arthur, estava dormindo em seu antigo quarto, quando chegamos, tudo em seu quarto estava intocado, ele não quis fazer mudanças drásticas, acho que para Arthur, aquele quarto era uma maneira de se conectar com os pais que nunca teve. — É sábado, Ayla! — Levantei uma sobrancelha, ele tinha esquecido? — Você quer comemorar seu aniversário na cama? Hm.... Você que sabe! — Estava saindo, quando ouvi ele gritar. — Eu já estou indo! — Disse entusiasmado — Vou andar de montanha-russa umas duzentas vezes. — Ri com seu comentário e fui para o quarto de minha irmã, ela estava no chão, enrolada com as cobertas, ri da cena, tateando meu bolso em busca do meu celular. Lucy estava no mesmo quarto que dividia com Théo, ela deixou intocável a cama de Théo, não invadiu nem um pouco de seu espaço, mantendo os pôsteres em cima da cama, os livros empilhados, eu tive certeza que Théo tinha lido a metade. Já no seu lado, ela tinha removido seus desenhos, os pôsteres de princesas, colado algumas fotos e pôsteres de seus ídolos. — Lucy! Bora! Arthur já está quase pronto! — Chamei após tirar uma foto. — Não quero ir. — Ela se enrolou mais nas cobertas. Levantei uma sobrancelha. — Você tem certeza? Iremos para o parque de diversões! — Me compra algodão doce? — Ela se levantou, me encarando com seus grandes olhos verdes. — Fica pronta em quinze minutos? — Ela correu para o banheiro, me empurrando para passar pela porta, abandonando as cobertas no chão. — Quando voltarmos quero seu quarto arrumado! Fui para a cozinha e comecei a fazer nosso café da manhã, ouvindo atentamente as noticias da tevê da sala, o número de ataque de animais tinha aumentado relativamente desde o último mês, eu conhecia muito bem aquela cidade, o bastante para saber que não eram apenas animais. Quando eu era criança, lembrava que meu pai controlava a maior parte do território de Drinwing, Toerat, após sua morte o local virou uma bagunça, vários híbridos e transmutados surgiram, vampiros aterrorizavam as ruas á noite e as matas tinham sido ocupadas totalmente pelos lobos, sendo quase impossível esconder o mundo sobrenatural e a magia dos humanos, principalmente quando gangues de diferentes espécies resolviam se socializar com seus punhos. Mas assim que Noah se tornou o lobo supremo, acordos foram feitos e finalmente Toerat ficou em paz e a magia guardada a sete chaves, mas algo sombrio ainda rondava a cidade á noite, o motivo de eu ter vindo para cá foi esse, talvez quem aterrorizava as ruas à noite fosse a mesma pessoa que assassinou minha família. Meu irmão desceu as escadas, com um sorriso enorme nos lábios, os olhos verdes mais brilhantes do que nunca, os cabelos ruivos ainda molhados por conta do banho. — Bom dia, aniversariante lindão! — Ele fez uma cara de desgosto e eu ri. — Bom dia... — Vamos sair assim que você e Lucy terminarem de comer. — Ele engoliu a comida às pressas, tomou todo o suco e sorriu para mim, revirei os olhos, mas não pude evitar sorrir. Ele saiu da mesa correndo para a tevê, mudando de canal. Temi por Arthur caso essa coisa sombria nos atacasse, éramos moradores de uma casa afastada, quase no centro da floresta, carne pura e fácil e Arthur era apenas um garotinho que ainda não tinha tido sua primeira transformação. — Não vamos nos mudar dessa vez, não é? — Perguntou Lucy descendo as escadas e me fitando com seus olhos verdes claros, me fazendo me lembrar de papai, quanta saudade. Os cabelos dela eram encaracolados, assim como os de nosso pai, com a cor castanho claro, as pontas ainda estavam rosa dá ultima vez que ela as pintou. — Você sabe que eu não posso prometer nada. — Grr... por que nos mudamos? Sabe se você me disser o motivo eu posso pensar em parar de te encher o saco toda vez que fazemos isso! — Ah! Qual é Lucy, você sabe que eu não posso dizer, eu não quero te envolver nisso. — Respondi, ela pegou a tigela de cereal e saiu pisando firme, bufando. — Come logo! Arthur já terminou, só falta você, mocinha. — Sentei-me ao lado de Arthur no sofá, que agora assistia atentamente a um desenho. Lucy finalmente terminou e olhou para mim, me olhando de cima a baixo, revirei os olhos. — Ayla, você não pode se esconder atrás desse capuz sua vida toda, seus problemas não vão desaparecer só por você não ser vista ai dentro, dessa vez, me prometa, que irá fazer uma, pelo menos uma amiga. Vai comprar um sainha, mostre sua bela b***a, por favor. — Cara! Pra uma garota de 14 anos você se preocupa com roupas demais, eu já disse que não posso fazer promessas e também não gosto de fazê-las. — Para uma adolescente de 17 Anos, você se preocupa com roupas de menos. "Cara" — Repetiu imitando minha voz. — Não vejo nenhum problema com ela assim. — Disse Arthur me abraçando. — Arthur, você não entende nada de moda! — Repreendeu ela. — Mas sou o mais bonito da casa. — Contestou sorrindo abertamente. Ri alto. — Quantos anos vocês tem mesmo? — Somos precoces. — Respondeu Arthur, ri. Lucy passou por nós, indo para a cozinha onde deixou a tigela. O dia no parque foi maravilhoso, o melhor dia da minha vida. Mesmo sendo aniversário de Arthur, parece que eles quiseram que o dia fosse pra mim. E acho que conseguiram. Passamos o dia de domingo comendo bobagens e assistindo filmes. Segunda-feira chegou mais rápido do que o planejado. Acordei meus irmãos cedo e fomos para a escola, deixei Arthur no primário, tive que me segurar a vontade de correr, pegar ele e voltarmos nós três para casa, mas eu estava fazendo isso por eles e sabia que eles ficariam bem, um pequeno lobinho que não tinha medo de nada, sim, ele ficaria bem. Bati a porta da caminhonete velha, joguei a bolsa nos ombros e encarei a escola, adolescentes que não tinham passado nem a metade do que eu tinha, que sorriam sem motivo nenhum. — Você realmente deveria usar roupas apertadas, é tão bonita. — Disse Lucy colocando o cabelo atrás da orelha. — Vai logo que você vai se atrasar. — Falei empurrando Lucy, sabendo que aquela discussão não daria em nada. Ficaríamos em blocos separados, já que eu estava no último ano e ela no primeiro. — Terminaremos essa conversa em casa — Falou quando já caminhava em direção a entrada e já se enturmando com algumas garotas que passavam ali. Maldita garota popular. Revirei os olhos e caminhei para o inferno. Será um longo dia.
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