Após a refeição, Gabriel caminha até a sala principal quase sem perceber.
É um espaço amplo, silencioso, com janelas altas e estantes que ocupam uma parede inteira. Livros de todos os tamanhos, encadernados em couro, alguns gastos pelo tempo, outros impecáveis.
Gabriel para.
Não toca em nada.
Apenas olha.
Marcos entra logo depois e percebe o modo como os olhos do menino percorrem os títulos, como se estivesse contando algo invisível.
— Gosta de livros? — pergunta, casualmente.
Gabriel se assusta levemente.
— Eu… — hesita — posso?
— Pode — responde Marcos. — E pode responder à pergunta.
Gabriel dá dois passos à frente, as mãos atrás do corpo.
— Eu sei ler. — diz, quase em desafio. — Aprendi sozinho.
Marcos arqueia a sobrancelha.
— Sozinho?
— Eu lia à noite, quando sobrava luz.
Marcos observa enquanto Gabriel passa o dedo pelos lombos, reconhecendo palavras.
— Escolha um. — diz.
Gabriel puxa um volume grosso, pesado demais para suas mãos magras.
Marcos lê o título e se surpreende.
— Economia Rural e Contabilidade Básica. — comenta. — Tem certeza?
Gabriel assente.
Ele se senta, abre o livro com cuidado, como se fosse algo sagrado. Os olhos percorrem as linhas com fluidez.
— Leia em voz alta. — pede Marcos, curioso.
Gabriel obedece.
A leitura é clara. Sem tropeços. Compreensão.
Marcos se aproxima.
— E o que isso quer dizer? — pergunta, apontando para um trecho.
Gabriel pensa por um segundo.
— Que o lucro não vem só do que se vende, mas do que se deixa de perder. — responde. — Se gastar mais do que produz, não importa o preço final.
Marcos fica em silêncio.
Ele muda de página.
— E isso?
Gabriel franze a testa.
— A conta está errada. — diz.
— Como assim?
— Eles somaram a renda anual sem descontar o custo do transporte. — explica, rápido. — Se fizer assim, parece que há lucro, mas na verdade não há.
Marcos pega papel e pena quase por reflexo.
— Mostre.
Gabriel se inclina, pega a pena com cuidado, e começa a escrever números.
Rápido. Preciso.
— Aqui. — diz. — Se o custo é esse e a produção é aquela, o resultado real é menor. — Ele olha para Marcos. — Don Alonso sempre reclamava que nunca sobrava dinheiro… mas ele gastava demais com ostentação.
Marcos encara o papel, depois o menino.
As contas estão corretas.
Muito corretas.
— Quem te ensinou isso? — pergunta, finalmente.
Gabriel dá de ombros.
— Ninguém. — responde. — Eu só… observava. E contava.
Marcos se endireita devagar.
A surpresa dá lugar a algo mais sério.
— Gabriel… — diz, com cuidado — você entende que isso não é comum, não é?
Gabriel fecha o livro.
— Eu só não queria apanhar por erros de outros. — responde. — Então aprendi a evitar.
Marcos sente um aperto no peito.
Ali não estava apenas um menino ferido.
Havia inteligência afiada. Lógica. Potencial bruto.
E, pela primeira vez desde que Gabriel cruzara os portões da mansão, Marcos não pensa apenas em protegê-lo.
Ele pensa em futuro.
Um futuro que ninguém jamais permitiu que aquele menino sequer imaginasse.
Ana surge na porta da sala com passos leves, trazendo consigo o cheiro do jardim e do sol da manhã.
— Gabriel? — chama, sorrindo. — Quer vir comigo?
Ele fecha o livro com cuidado e se levanta rápido demais, como se tivesse medo de ter feito algo errado.
— Sim, senhora… Ana.
Marcos observa a cena, ainda com o papel das contas na mão.
— Vá. — diz ele, com um aceno. — A propriedade é grande demais para ficar só nos livros.
Gabriel lança um último olhar às estantes, quase em despedida, e segue Ana.
Assim que cruzam os portões laterais, o mundo muda.
O ar é aberto, vivo. Há campos que se estendem até onde a vista alcança, cercas bem cuidadas, árvores frutíferas carregadas. Galinhas ciscam livres, ovelhas descansam à sombra, e ao longe os cavalos se movem com uma elegância que prende o olhar.
Gabriel para de andar.
— Eles… — murmura, os olhos brilhando — eles são lindos.
Ana ri baixo.
— São. — concorda. — Quer chegar mais perto?
Ele hesita por um segundo, depois assente.
À medida que se aproximam do estábulo, algo inesperado acontece.
Um dos cavalos ergue a cabeça. Depois outro. O relinchar é baixo, curioso.
Um deles, um alazão de porte forte, se aproxima da cerca sozinho.
Gabriel congela.
— Eu não fiz nada… — diz rápido, instinto antigo.
Ana segura gentilmente o braço dele.
— Não é bronca. — diz. — É interesse.
O cavalo estica o focinho, cheira o ar, e então encosta a cabeça na mão de Gabriel como se o conhecesse.
Gabriel prende a respiração.
— Ele… — a voz falha — ele não me estranhou.
Outro cavalo se aproxima. Depois mais um.
Ana observa, surpresa e tocada.
— Parece que eles gostam de você.
Gabriel passa a mão pelo focinho do alazão com cuidado absoluto. O gesto é natural, seguro, como alguém que fala uma língua antiga.
— Eles sentem quando a gente não mente. — diz, baixinho. — Cavalos não gostam de gente que machuca.
Ana sente um nó no peito.
— Você lidava com eles antes?
— Cuidava. — responde. — Eram os únicos que não gritavam comigo.
O alazão solta um sopro quente, quase um cumprimento.
Gabriel sorri.
Não é um sorriso grande.
Não é aberto.
Mas é real.
— Aqui eles têm nomes. — diz Ana — Aquele é Dourado. O outro é Estrela, e tem também o Trovão.
Gabriel repete os nomes em voz baixa, como quem grava algo precioso.
— Posso… — ele hesita — posso vir vê-los de novo?
Ana não responde de imediato. Apenas observa o menino cercado de animais grandes demais para machucá-lo, gentis demais para temê-lo.
— Pode. — diz, por fim. — Sempre que quiser.
Gabriel olha em volta: o campo, as árvores, os cavalos, o céu aberto.
Por um instante, ele não pensa em dívidas.
Não pensa em trabalho.
Não pensa em medo.
Ele apenas sente algo que não conhece bem, mas reconhece como bom.
Liberdade.
E Ana observando aquele momento silencioso, entende que ali, entre cavalos que o reconhecem sem nunca tê-lo visto, Gabriel começa a criar raízes em um lugar que finalmente o acolhe