Capítulo 33. Sopa

672 Words
Ana observa o rosto de Gabriel por mais alguns minutos. Os olhos fecham, abrem. O corpo relaxa e torna a ficar tenso. O descanso não vem. Não naquela noite. Ela se inclina novamente. — Isso não vai passar tão cedo, vai? — diz, mais para si do que para ele. Gabriel balança a cabeça em um gesto quase imperceptível. — Quando fica assim… — ele hesita — normalmente me mandavam levantar. Ana decide no mesmo instante. — Então vamos levantar por outro motivo. — diz, levantando-se. — Que tal uma sopa quente? Gabriel arregala levemente os olhos. — Agora? — Agora. Ele se senta rápido demais. — Eu sei fazer. — diz de imediato. — Posso ajudar. Posso cortar, limpar, o que precisar. Ana ergue a mão, interrompendo com delicadeza, mas firmeza. — Não. — diz. — Desta vez, eu faço para você. Ele parece genuinamente confuso. — Mas… eu sempre— — Eu sei. — corta ela, suavizando o tom. — E justamente por isso. Eles descem juntos a escadaria silenciosa. A mansão dorme, mas a cozinha está viva o suficiente: um fogão de ferro, panelas limpas, ingredientes organizados. Gabriel entra como quem pisa em território conhecido… e perigoso. Ele observa tudo, atento demais. — Sente-se. — pede Ana, puxando uma cadeira. Ele obedece, mas mantém as mãos sobre os joelhos, postura rígida. — O que você gosta de comer? — pergunta ela, enquanto pega uma panela. Gabriel demora a responder. — Eu… — franze a testa, buscando algo na memória — não sei. Ana para por um segundo. — Como assim, não sabe? Ele dá de ombros, desconfortável. — A gente comia o que sobrava. — explica. — Às vezes pão duro. Às vezes caldo ralo. Não tinha escolha. Ana sente um nó na garganta, mas continua. — Então vamos descobrir juntos. — diz, abrindo um sorriso pequeno. — Sopa é um bom começo. Ela coloca água para aquecer, separa legumes simples. Gabriel acompanha cada movimento com atenção, como se estivesse em aula. — Você pode ficar só olhando. — reforça. — Sem obrigação. Ele assente. O silêncio entre eles agora é diferente. Menos pesado. — Gabriel… — Ana diz, enquanto corta os legumes — quantos anos você tem? Ele pisca. — Não sei. A faca para no ar. — Não sabe? — ela pergunta, com cuidado. — Nunca disseram. — responde. — Quando perguntava, diziam que eu já tinha idade suficiente para trabalhar, então não importava. Ana respira fundo antes de continuar. — Você lembra de algum aniversário? Um dia especial? Um presente? Gabriel pensa por longos segundos. — Uma vez… — começa — uma mulher da cozinha me deu um pedaço de maçã maior que o normal. Disse que eu devia estar crescendo. Ana fecha os olhos por um instante. — Você lembra do mês? Estava frio? Calor? — Frio. — responde ele. — Acho que chovia. Ana assente lentamente, como quem monta um quebra-cabeça impossível. Ela mexe a sopa, o cheiro começa a se espalhar pela cozinha. — Aqui, Gabriel — diz com suavidade — nós vamos resolver isso também. Sua idade, sua história… tudo. Ele a observa, hesitante. — Pra quê? Ana se vira para ele. — Porque você tem direito a existir com nome, tempo e lembranças. — responde. — Não apenas com funções. A sopa ferve lentamente. Gabriel sente algo estranho no peito. Não dor. Não medo. Algo novo. Quando Ana serve a tigela e a coloca diante dele, o vapor sobe quente, convidativo. — Está quente. — avisa ela. Ele segura a colher com cuidado. — Obrigado… senhora. Ana franze levemente a testa. — Ana — corrige. — Só Ana Gabriel prova a primeira colher. Os olhos dele se arregalam um pouco. — É… bom. — diz, como se fosse uma descoberta científica. Ana sorri. E naquela cozinha silenciosa, entre uma sopa simples e perguntas que nunca haviam sido feitas antes, algo essencial começa a acontecer: Gabriel deixa de ser apenas o menino que sobreviveu. Ele começa, pela primeira vez, a ser alguém
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD