Capítulo 21. Eu gosto de você

958 Words
O dia seguinte nasce claro demais para o que ficou suspenso na noite anterior. Gabriel está no estábulo desde cedo. Limpa os cascos com atenção metódica, o corpo já acostumado ao ritmo, a mente ocupada em contas silenciosas ração, dias, sobra mínima. Os cavalos respiram pesado, tranquilos. Ali, tudo ainda faz sentido. Ele ouve passos. Não rápidos. Não hesitantes. Precisa-se. Gabriel não se vira de imediato. Termina o movimento, limpa as mãos no pano, então ergue o olhar. Francesca está à entrada do estábulo. Vestida com cuidado excessivo, como se quisesse provar que nada aconteceu. O rosto recomposto. Os olhos, porém, não. Há algo ali não febre, não delírio. Decisão. Ela se aproxima alguns passos. Para a uma distância calculada. — Eu lembro — diz, sem rodeios. A voz está firme. Controlada. Demasiado lúcida para permitir fingimento. Gabriel permanece em silêncio. — Lembro do que disse ontem — continua. — Não foi imaginação. Nem confusão. Ela o observa como quem mede uma reação que não vem. — Eu gosto de você, Gabriel. — Uma pausa curta. — É verdade. Não há sorriso. Não há pedido. Não há explicação. Ela não espera resposta. — Você é um menino bom — acrescenta, com a mesma naturalidade com que daria uma ordem. — Sempre foi. Por um instante, parece que dirá mais. Não diz. Francesca se vira e vai embora, os passos ecoando pelo caminho de pedras. Não olha para trás. O silêncio retorna ao estábulo como se tivesse sido chamado. Gabriel fica imóvel por alguns segundos. O cavalo mais próximo se mexe, impaciente. Ele termina o serviço, como se nada tivesse acontecido. O gesto é preciso. Correto. Por dentro, algo se ajusta. Ele entende, enfim, o contorno inteiro daquilo que sempre sentiu e nunca nomeou: não é afeto. Nunca foi. É posse disfarçada de aprovação. Gabriel passa a mão no focinho do cavalo, devagar. — Não sou seu — murmura, tão baixo que nem ele tem certeza se falou. Depois se levanta. Segue o dia. Cumpre as tarefas. Mas algo mudou. Não nele. Nela. E Gabriel sabe, com a clareza tranquila de quem aprendeu a esperar, que quando alguém confunde sobrevivência com gratidão, o erro cobra seu preço. Ele continua trabalhando. Silencioso. Atento. O criado não deveria ter ouvido. Mas ouviu. Estava do lado de fora do estábulo, fingindo ajustar uma ferragem solta, quando a voz de Francesca chegou clara demais para ser ignorada. Não ouviu tudo. Não precisava. As palavras “gosto de você” e “menino bom” bastaram para que algo se acendesse curiosidade primeiro, depois medo, depois oportunidade. Ele não olha para Gabriel. Sai rápido. Direto. Don Alonso está no escritório quando o criado entra, hesitante demais para parecer inocente. — Senhor… — começa, torcendo o boné nas mãos. — Achei que devia saber. Don Alonso ergue o olhar devagar. — Saber o quê? O criado engole em seco e conta. Em frases quebradas, cuidadosas, como quem escolhe o rumo do próprio destino. Diz que Francesca foi ao estábulo. Diz que falou coisas… inadequadas. Diz que Gabriel ouviu. Que ficou calado. Que não reagiu. — Parecia… íntimo — conclui, num sussurro conveniente. O silêncio que se segue é pesado. Don Alonso fecha o caderno com força controlada demais para ser calma. Os dedos ficam brancos ao redor da lombada. — Gabriel — repete, baixo. Não pergunta por Francesca. Não chama a esposa. Não busca contexto. Ele se levanta. A raiva não explode. Ela se organiza. No caminho até o pátio, Don Alonso já decidiu quem é o problema. É mais fácil. Mais limpo. Mais aceitável. Um menino não tem defesa. Um menino não tem palavra. Gabriel está carregando um balde quando o vê se aproximar. Para. Endireita o corpo. Espera. — Venha — diz Don Alonso, seco. — Agora. Gabriel obedece. No corredor lateral, longe dos outros, Don Alonso se vira para ele com o rosto fechado, os olhos duros de uma fúria que não admite nuance, ele desce um tapa com toda sua força no rosto de Gabriel. — O que você fez? — pergunta. Gabriel pisca uma vez ainda com o rosto virado pela força do tapa. — Nada, senhor. — Não minta. — A voz sobe um tom. — Você anda confundindo sua posição. Acha que não vejo? Gabriel mantém as mãos abaixadas, abertas. Postura de quem aprendeu a não parecer desafio. — Eu estava trabalhando no estábulo — diz. — A senhora falou comigo. Eu não respondi. Isso não acalma Don Alonso. Irrita. — Você provocou — acusa. — Com silêncio. Com presença. Com essa… postura. Gabriel entende naquele instante. Não importa o que fez. Não importa o que não fez. A culpa precisa de um lugar para pousar. E ele é o lugar mais conveniente. — Você esqueceu quem manda aqui — continua Don Alonso. — E fez minha esposa esquecer também. Gabriel ergue os olhos pela primeira vez. Não em desafio. Em constatação. — Não foi minha intenção, senhor. Don Alonso dá um passo à frente. — Intenção não importa. Resultado, sim. Ele respira fundo, se recompondo. Não bate de novo.Não grita mais. Decide. — A partir de agora, você mantém distância. Cumpre ordens. Some quando não for chamado. — Uma pausa curta. — E agradeça por eu estar resolvendo isso do jeito menos dolorido para você. Gabriel inclina a cabeça. — Sim, senhor. Don Alonso se afasta, convencido de que restabeleceu a ordem. Gabriel fica ali por um segundo a mais. Ele não está com medo. Não está confuso. Ele está aprendendo mais uma coisa. Que quando pessoas poderosas erram, elas não corrigem o erro. Elas escolhem alguém menor para carregar o peso. Gabriel pega o balde de novo. Segue o trabalho. O mesmo silêncio. A mesma precisão
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