Capítulo 22. Mudanças em Francesca

969 Words
Nos dias que seguem, a mudança não vem anunciada. Ela simplesmente… acontece. No primeiro dia, Gabriel está no pátio interno, limpando ferramentas, quando uma criada se aproxima sem encará-lo direito e deixa um prato ao seu lado. — Ordem da senhora — diz, rápido, como se a frase queimasse a língua. É comida quente. De verdade. Não sobras. Gabriel olha para o prato por um segundo a mais do que deveria. Depois continua o trabalho e come apenas quando termina, com a mesma calma de sempre. Não agradece. Não reage. Francesca observa da janela. No dia seguinte, as roupas. Quando Gabriel volta do estábulo, encontra um conjunto limpo dobrado sobre o banco de madeira do seu quarto. O tecido é simples, mas inteiro. Sem remendos. Sem manchas antigas que não saem nunca. — Troque — diz Francesca, passando por ele no corredor, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Não precisa andar… assim. Ela não termina a frase. Não precisa. Gabriel troca. Dobrado, guarda a roupa antiga no canto. Nada muda no rosto. No terceiro dia, vem a cama. Dois criados entram no quarto pequeno ao fundo da casa e montam uma estrutura simples: madeira firme, colchão fino, mas real. Lençóis limpos. Um travesseiro. Gabriel assiste em silêncio. — Ordem da senhora Francesca — repete alguém, já cansado da explicação. Quando ficam a sós, Gabriel se aproxima devagar. Toca o colchão com a ponta dos dedos. Não se senta de imediato. Dormir no chão sempre foi regra. O corpo aprendeu. A mente também. Naquela noite, ele se deita. De costas. Imóvel. Como se ainda estivesse sendo observado. E está. Francesca passa mais vezes pelos corredores. Pergunta se ele comeu. Manda separar roupas melhores. Às vezes deixa pequenos objetos “por acaso” no caminho dele: um pedaço de pão doce, um pano seco, uma caneca de chá ainda quente. Nunca pede nada em troca. Nunca explica. É isso que torna tudo mais pesado. Os outros criados percebem. Sussurram. Alguns invejam. Outros temem. Don Alonso observa à distância, o incômodo crescendo como algo m*l digerido. Ele não confronta Francesca. Ainda. Mas a presença de Gabriel agora parece ocupar espaço demais para alguém que deveria ser invisível. Gabriel, por sua vez, continua igual. Trabalha. Conta. Observa. Vai ao estábulo à noite. Lê quando pode. Mas algo nele se ajusta. Gabriel deita na cama nova, olhando o teto escuro. Ele aceita tudo. A comida. As roupas. A cama. Aceita como aceitou a chuva. Como aceitou o chão duro. Como aceitou o silêncio. Não porque pertence. Mas porque sabe usar o que lhe é dado. E enquanto Francesca acredita estar reparando algo, Gabriel apenas confirma, com a clareza fria de quem já sobreviveu demais: O que vem depois da violência não é amor. É controle com outra máscara. E ele já aprendeu a reconhecê-la. O cheiro é forte. Terra revirada, ração úmida, o som dos porcos grunhindo enquanto Gabriel limpa o cercado com movimentos firmes e econômicos. Ele trabalha sem pressa, atento para não desperdiçar nada, separando o que serve do que não serve, como sempre faz. É ali que Francesca o encontra. Ela para a alguns passos, observando em silêncio. Gabriel percebe a presença antes de ouvi-la o ar muda, como sempre muda quando ela chega. Mesmo assim, não interrompe o trabalho de imediato. Termina de ajeitar o cocho, limpa as mãos no pano e só então se vira. — Senhora. Francesca o encara por um momento longo demais. Ele está sujo de lama até os joelhos, a camisa marcada, o cabelo grudado na testa pelo suor. Trabalhando como se aquilo fosse apenas… normal. — Você trabalha demais — diz ela, num tom estranho, quase neutro. Gabriel não responde. Não concorda. Não n**a. Ela dá mais um passo à frente. — O lago da propriedade… — começa, como se testasse as próprias palavras. — Está limpo nesta época do ano. Ele ergue levemente o olhar, atento. — Eu autorizo — continua ela, firme — que você vá até lá e tome banho. Quando terminar o serviço, se quiser. Silêncio. Aquilo nunca aconteceu. Nunca sequer foi sugerido. O lago sempre foi território proibido aos criados. Espaço de lazer, de liberdade, de algo que não lhes pertencia. Gabriel inclina a cabeça. — Sim, senhora. Nenhuma surpresa no rosto. Nenhuma gratidão excessiva. Nenhuma reação que ela pudesse chamar de vitória. Francesca franze o cenho, incomodada com a neutralidade. — Vá — acrescenta, como se fosse ordem antiga. — Não quero vê-lo… nesse estado. Ele concorda novamente e volta ao trabalho para terminar o que começou, como se a autorização fosse apenas mais uma tarefa na lista do dia. Francesca se afasta, mas não sem olhar para trás uma última vez. Ela acredita ter dado algo grande. Algo íntimo. Algo que cria laço. Mais tarde, quando o sol já começa a baixar, Gabriel caminha até o lago. Ele entra na água devagar, sentindo o frio subir pelas pernas, pela pele cansada. A água limpa a lama, o suor, o cansaço visível. Ele mergulha uma vez. Depois outra. Não ri. Não celebra. A liberdade, para ele, não está no lago. Está no que ninguém pode ordenar. Gabriel ela um tempo ali relaxando o que conseguia, há tempos não sabia o que era um banho. Ele não sabia, não tinha como saber. Francesca estava em um ponto afastado, atrás de uma árvore observado o menino se banhar. Quando sai, se veste com calma e volta para a casa. Francesca, de longe, observa e sente algo que não gosta de sentir: a certeza de que, mesmo quando ela concede, Gabriel não se aproxima. Ele aceita. Usa. Segue. E continua exatamente onde sempre esteve fora do alcance real para ela, o fato dele não ceder, não agradecer, não...acreditar em sua bondade, já estavam a deixando no limite.
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