Capítulo 37. Adoção?

932 Words
O quarto está em silêncio, iluminado apenas pela luz suave do abajur. Ana está sentada na beira da cama, as mãos unidas no colo. Marcos fecha a porta atrás de si e percebe, de imediato, que algo pesa no ar. — Aconteceu alguma coisa? — pergunta, baixo. Ana respira fundo antes de responder. — Hoje… — ela começa, a voz já trêmula — quando vi o Gabriel lendo com você… eu senti algo que não sentia há muito tempo. Marcos se aproxima devagar e se senta ao lado dela. — O quê? Ana demora a responder. Os olhos se enchem d’água, mas ela não chora ainda. — Lembrei de todas as vezes que este quarto ficou silencioso demais. — diz, enfim. — De todas as vezes que eu esperei… e perdi. Marcos fecha os olhos por um instante. Ele conhece aquela dor. Viveu cada uma daquelas ausências com ela. — Cada gestação — continua Ana— vinha com esperança. E cada perda levava um pedaço de mim. — Ela engole em seco. — Eu comecei a achar que talvez… nós não fôssemos feitos para ser pais. Marcos segura a mão dela com firmeza. — Ana Laura... — Mas então esse menino entrou naquela carruagem. — ela sorri entre lágrimas. — Quebrado, assustado… e ainda assim inteiro por dentro. E eu percebi que meu coração não perguntou de onde ele veio. Só… abriu espaço. Ela respira fundo, reúne coragem. — Marcos… — olha diretamente para ele — eu sei que pode parecer precipitado, mas… e se nós o adotássemos? O silêncio se instala. Por um segundo, Ana teme ter ido longe demais. Então Marcos sorri. Um sorriso cansado, verdadeiro, cheio de algo antigo e novo ao mesmo tempo. — Querida… — diz ele, com suavidade — nós já adotamos. Ela franze a testa, confusa. — Como assim? — No momento em que o tiramos daquela casa. — responde. — No momento em que decidimos protegê-lo, alimentá-lo, escutá-lo. — Ele aperta a mão dela. — No momento em que ele passou a dormir sob este teto sem dever nada a ninguém. Os olhos de Ana transbordam. — Então você sente isso também… — Eu sinto. — confirma Marcos. — Não como obrigação. Mas como certeza. Ana apoia a testa no ombro dele, finalmente deixando as lágrimas caírem. — Eu nunca vou esquecer as crianças que perdi… — sussurra. — Mas talvez… talvez elas tenham aberto caminho para ele. Marcos a envolve com cuidado. — Talvez. — diz. — E talvez Gabriel não esteja aqui para substituir ninguém. — Ele pausa. — Mas para ser amado do jeito que sempre mereceu. Eles ficam assim por alguns minutos, em silêncio. No quarto ao lado, Gabriel dorme profundamente. O livro repousa aberto sobre a mesa de cabeceira. E, sem saber, naquela mesma noite, ele deixa de ser apenas um menino acolhido. Ele passa a ser filho. O sol m*l atravessou as cortinas quando Ana acorda. Há algo diferente nela naquela manhã uma leveza contida, um entusiasmo quase juvenil. Ela se veste rápido, o coração acelerado, já ensaiando mentalmente como iria falar com Gabriel, como iria dizer sem assustá-lo, sem pressioná-lo. — Bom dia… — murmura para o quarto vazio, sorrindo sozinha. Ela sai pelo corredor chamando em voz baixa. — Gabriel? Nada. Passa pela sala de refeições, pela biblioteca, pelo jardim interno. — Gabriel? — chama de novo, agora com um fio de preocupação. Um criado passa. — A senhora procura o menino? — pergunta. — Sim. — responde Ana — Você o viu? — Foi cedo para os estábulos. — diz o criado, sorrindo. — Parece que os cavalos também acordaram com ele. Ana suspira, aliviada, e segue naquela direção. O som chega antes da cena. Risos. Um riso baixo, mas real. Ao dobrar a porta dos estábulos, Ana para. Gabriel está no meio do espaço amplo, o chão limpo, a luz da manhã entrando pelas frestas. Ele corre alguns passos e para, o alazão Dourado acompanha o movimento, obediente e brincalhão. Estrela sacode a crina, curiosa, e se aproxima. Gabriel estende os braços. — Devagar… — diz, rindo — você é grande demais pra isso. O cavalo relincha baixo, quase em resposta. Gabriel apoia a testa no focinho dele, sem medo algum. Ana leva a mão ao peito. Ele está feliz. Não atento. Não alerta. Feliz. Ela se aproxima sem interromper. — Bom dia. — diz, por fim. Gabriel se vira, surpreso, mas sorri. — Bom dia, Ana O sorriso vem fácil agora. — Eu acordei cedo. — explica. — Eles também. — Ele passa a mão no pescoço do cavalo. — Dourado não gosta de ficar parado. — Percebi. — Ana responde, rindo. Ela observa como ele se move ali: confiante, solto, inteiro. Como se aquele espaço tivesse sido feito para ele. — Você parece… em casa. — diz, com cuidado. Gabriel pensa por um instante. — Aqui não dói. — responde. — Nem o corpo, nem a cabeça. Ana engole em seco. — Gabriel… — começa. Ele a olha, atento, mas sem medo. Ela hesita. Ainda não é o momento. Não ali. — O café já está quase pronto. — diz, mudando de assunto. — Você vem? — Já vou. — responde ele. — Posso só terminar isso? — Claro. Ana se afasta alguns passos, observando enquanto ele fala com os cavalos em voz baixa, como velhos amigos. Naquele instante, ela entende com clareza: Gabriel não está apenas se recuperando. Ele está criando vínculos. E, para ela, isso é a confirmação mais doce de todas que o amor deles chegou antes das palavras
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