Capítulo 38. Eu aceito

1192 Words
O café da manhã transcorre tranquilo. Gabriel come com mais segurança agora, ainda atento, mas já sem aquele receio constante de errar. Ana o observa por alguns minutos antes de criar coragem. O coração bate rápido demais. — Gabriel… — ela diz, pousando a xícara. — Posso conversar com você? Ele ergue o olhar de imediato. — Fiz algo errado? — Não. — ama responde rápido, quase sorrindo. — Muito pelo contrário. Ela respira fundo, escolhendo cada palavra. — Você sabe que veio para esta casa para ficar seguro. Para cuidar de você. — pausa — Mas eu queria saber… se você gostaria de ficar de verdade. Como parte da nossa família. Gabriel fica imóvel. — Ficar… como? — pergunta, com cuidado. — Como nosso filho. — diz Ana, a voz embargando apesar do sorriso. — Se você quiser. O silêncio pesa. Então o rosto dele muda. Os olhos brilham de um jeito novo, esperançoso. — Eu… eu gostaria. — diz, rápido demais, como se tivesse medo de perder a chance. — Muito. Mas logo o sorriso vacila. — O senhor Marcos… — ele baixa os olhos — ele vai concordar? Ana sente o peito apertar. — Gabriel… Antes que ela termine, passos firmes ecoam no corredor. Marcos entra na sala, ajeitando os punhos da camisa, como sempre faz pela manhã. — Concordar com o quê? — pergunta. Gabriel se encolhe por reflexo. Ana se levanta. — Eu estava dizendo a ele… — começa — sobre a adoção. Marcos para por um segundo. Olha para Ana. Depois para Gabriel. — Ah. — diz apenas. Gabriel prende a respiração. Marcos se aproxima da mesa, se inclina um pouco para ficar na altura do menino. — Gabriel… — fala com calma — eu quero isso também. O menino pisca. — Quer… mesmo? — Quero. — Marcos responde sem hesitar. — Não como favor. Não como obrigação. Como escolha. Por um instante, Gabriel não reage. Parece não saber o que fazer com algo tão grande. Então ele se levanta de repente e envolve Marcos com os braços, forte demais para um corpo ainda frágil. Marcos se surpreende, mas retribui o abraço no mesmo instante, firme, protetor. — Obrigado… — Gabriel murmura, a voz abafada. — Eu prometo— — Não prometa nada. — Marcos interrompe, com a voz baixa. — Você já é suficiente. Ana leva a mão ao rosto, emocionada, enquanto observa os dois. Gabriel aperta o abraço por mais alguns segundos, como se estivesse gravando aquele momento no corpo. Quando se afasta, os olhos estão marejados… mas o sorriso é inteiro. E ali, naquela mesa simples de café da manhã, sem cerimônia alguma, nasce oficialmente uma família não de sangue, mas de escolha, de cuidado e de amor. O sol da tarde cai suave sobre os jardins da mansão. Ana poda algumas flores com calma, as mãos sujas de terra, quando escuta passos apressados não de gente, mas de cascos. Ela ergue o olhar a tempo de ver Gabriel correndo pela campina, rindo, enquanto Dourado e Estrela o acompanham em trote leve, quase como se brincassem com ele. Gabriel corre sem medo agora. Para, gira, levanta os braços. Os cavalos respondem, atentos, dóceis. Ana sorri… e sente o peito apertar ao mesmo tempo. Ela se lembra da conversa na cozinha. Do “não sei” dito com naturalidade demais. Da ausência de um dia só dele. — Toda criança merece um aniversário… — murmura. A ideia nasce simples. Clara. Irrecusável. Ana limpa as mãos no avental e entra apressada na mansão, o coração acelerado como se estivesse tramando uma pequena revolução silenciosa. Na cozinha, ela prende o cabelo, amarra o avental com firmeza e começa. O bolo não precisa ser elaborado. Precisa ser real. Farinha. Ovos. Leite. Um pouco de açúcar. Ela mexe a massa com cuidado, como se cada volta da colher fosse uma promessa. Enquanto o bolo assa, o cheiro doce se espalha pela casa. Um cheiro que não pede nada em troca. Que não cobra. Que apenas convida. Ana cobre o bolo com algo simples nada de exageros. Apenas o suficiente para dizer: isto é especial. Ela coloca uma vela no centro. Uma só. Porque aquele é o primeiro. Ao tirar o bolo do forno, Ana respira fundo. — Hoje — diz para si mesma — você ganha um dia no mundo. Do lado de fora, Gabriel ainda corre com os cavalos, sem saber que, naquela tarde comum, alguém está criando para ele algo que nunca teve: Um começo marcado no tempo. Ana sai da cozinha com cuidado, o bolo nas mãos, protegendo a vela do vento leve da tarde. — Gabriel! — chama, erguendo a voz. No mesmo instante, ela percebe. O corpo dele enrijece. O passo desacelera. O sorriso some por um segundo rápido demais para quem não sabe olhar. Ana sente o aperto imediato no peito. Quantas vezes aquele nome foi gritado… E nunca por algo bom. — Gabriel… — ela chama de novo, agora mais suave. — Vem cá. Não é bronca. Ele se aproxima devagar, os olhos atentos, como quem mede a distância de um perigo antigo. — Aconteceu alguma coisa? — pergunta, baixo. Ana se agacha para ficar à altura dele, ainda segurando o bolo. — Aconteceu sim. — diz, sorrindo. — Uma coisa boa. Ela se levanta e vira o bolo para ele. Por um segundo, Gabriel não entende. Depois vê a vela. O formato. O cheiro doce. Ele prende a respiração. — É… pra mim? — pergunta, quase sem voz. — É. — Ana responde, firme. — Só pra você. Os olhos dele se enchem d’água de imediato. Ele tenta piscar rápido, como sempre fez para não chorar. — Mas… eu não fiz nada hoje. Ana sorri, com ternura. — Você não precisa fazer nada para merecer um dia. Ela se aproxima mais. — Gabriel… você me disse que não sabia sua idade. Nem sua data de aniversário. — Ela toca de leve no ombro dele. — Então nós vamos escolher uma. Ele franze a testa, confuso e emocionado ao mesmo tempo. — Escolher? — Sim. — Ana diz. — Hoje. Este vai ser o seu dia. O dia em que você ganhou um nome no calendário. Um dia que é só seu. Seu aniversário agora é dia quinze de abril. As lágrimas escorrem agora, sem resistência. — Eu posso… — ele hesita — eu posso guardar isso? — Pode guardar. — responde ela. — Pode esperar por ele todos os anos. Gabriel se aproxima do bolo como quem se aproxima de algo sagrado. — O que eu faço? — pergunta. Ana aponta para a vela. — Você sopra. — diz. — E faz um pedido. Ele pensa por alguns segundos. Depois sopra, com cuidado, como se tivesse medo de apagar algo maior. A chama se apaga. O silêncio dura um instante. — Feliz aniversário, Gabriel. — diz Ana , a voz embargada. Ele a abraça de repente, forte, desajeitado, inteiro. — Obrigado… — murmura. — Por me dar um dia. Ana o envolve com carinho. — Obrigada por existir nele. Ao longe, os cavalos relincham baixo, como se participassem da celebração
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD