Capítulo 39. Oficialmente um Cestáro

890 Words
Gabriel come o bolo devagar, sentado à mesa da cozinha com Ana . Cada garfada é pequena, quase cerimoniosa, como se tivesse medo de que aquilo acabe rápido demais. Um pouco de cobertura fica no canto da boca; Ana limpa com o polegar, gesto simples, íntimo. — Está bom? — ela pergunta. — Está… — ele procura a palavra certa — quente por dentro. Ana sorri. Observa o menino à sua frente, a vela já apagada, o prato quase vazio. O nome Gabriel ecoa na mente dela bonito, sim, mas carregado de gritos, de ordens, de medo. Ela respira fundo. — Gabriel… — começa, com cuidado — posso te contar outra coisa? Ele para de comer imediatamente. — É coisa boa? — pergunta, ainda com receio. — É. — Ana garante. — Muito boa. Ela se inclina um pouco mais. — Marcos e eu já cuidamos dos papéis. Você agora é oficialmente da nossa família. — sorri — Você é um Cestáro. Os olhos dele se arregalam. — Meu nome… é Cestáro? — É. — confirma ela. — Gabriel Cestáro. Ele repete em voz baixa, testando o som. — Cestáro… Ana observa a expressão dele mudar orgulho, surpresa… e um resto de dor antiga. — Mas eu pensei em outra coisa também. — continua ela, suave. — Não é uma obrigação. É só… uma ideia. E só se você quiser. Ele levanta o olhar. — Qual? Ana segura as mãos dele. — O nome Gabriel foi gritado muitas vezes para te machucar. — diz com honestidade. — E eu fiquei pensando se você gostaria de ter um nome novo… para essa vida nova. Ele engole em seco. — Um nome… só meu? — Só seu. — Ana responde. — Um nome que ninguém usou para te ferir. Ela faz uma pausa. — Eu pensei em Henrique. O silêncio se instala. Gabriel olha para o prato. Para as mãos. Para o bolo. — Henrique… — repete, quase sussurrando. — Henrique Cestáro. — Ana completa. — Forte. Gentil. Livre. Ele fecha os olhos por um instante. Quando abre, há lágrimas mas não de medo. — Eu posso escolher ser ele? — pergunta. Ana sorri, emocionada. — Você já é. — diz. — Só estamos dizendo isso em voz alta. Henrique respira fundo. Endireita os ombros, como se estivesse vestindo algo novo por dentro. — Então… — diz, com um fio de coragem — eu quero. Ana o puxa para um abraço apertado. — Feliz aniversário, Henrique Cestáro. — sussurra. Ele sorri contra o ombro dela. Um sorriso que não tenta se esconder. E naquela cozinha simples, entre migalhas de bolo e um nome recém-nascido, um menino deixa para trás quem precisou ser para sobreviver. E começa, oficialmente, a viver como quem sempre foi por dentro. O som da porta principal se abrindo ecoa pela casa. Passos firmes. Conhecidos. Marcos chega do serviço ainda com o casaco nos ombros, o semblante cansado do dia longo. Ele segue o cheiro antes mesmo de ouvir vozes um cheiro doce, inesperado. Ao entrar na cozinha, para na porta. Ana e o menino estão à mesa. Há um bolo já cortado, pratos com migalhas, um clima que não pede explicação. Marcos arqueia levemente a sobrancelha. — Estou atrasado para alguma coisa importante? — pergunta, com um meio sorriso. Ana sorri de volta. — Não atrasado. — diz. — Na hora certa. Ela se levanta, corta outra fatia e a coloca diante dele. — Sente-se. Marcos tira o casaco, pendura na cadeira e se senta, curioso. — Bolo em plena tarde… — comenta. — Isso é suspeito. Gabriel agora Henrique observa a cena com atenção, o coração acelerado. Ele aperta as mãos no colo, como se estivesse prestes a prestar um depoimento. Ana toca de leve o braço dele. — Quer contar ao Marcos? — pergunta, incentivando. Henrique engole em seco e olha para Marcos. — Senhor Marcos… — começa. — Marcos. — corrige ele, automático. Henrique respira fundo. — Hoje… — diz — hoje é meu aniversário. Marcos sorri de imediato. — Então é por isso. — pega o garfo — Feliz aniversário. Henrique sente o peito aquecer. — E… — continua, a voz tremendo levemente — eu ganhei um nome novo. Marcos para o garfo no ar. — Um nome novo? Henrique assente. — Agora eu me chamo… Henrique Cestáro. O silêncio que se segue não é pesado. É cheio. Marcos olha para Ana por um segundo. Ela assente, emocionada. Então ele volta o olhar para o menino. — Henrique. — repete, devagar. Henrique prende a respiração. Marcos sorri. Um sorriso aberto, raro. — É um nome forte. — diz. — Combina com você. Henrique sente os olhos marejarem. — O senhor… — ele corrige rápido — você gostou? Marcos estende a mão sobre a mesa. — Eu gostei. — diz. — E fico honrado de dividir o sobrenome com você. Henrique solta o ar que nem sabia que estava prendendo. Marcos dá uma mordida no bolo. — Além disso — completa, com humor leve — se esse é o bolo oficial do nascimento de Henrique Cestáro, então eu perdi muitos aniversários. Vou compensar começando agora. Henrique ri. Um riso curto, verdadeiro. Ana observa os dois, o coração cheio demais para palavras. O nome Henrique Cestáro deixa de ser apenas uma escolha. Ele se torna verdade
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