- És uma empreendedora, certo? – perguntou Dina enquanto caminhava em passos largos pelo meio das arvores com as suas mãos nos bolso.
- Certo! – confirmou Ellie meio atrapalhada com o caminho, não estava vestida e muito menos calçada para caminhar por cima de terra e musgo.
- Aposto que querem construir um grande resort, talvez um campo de golf também, um lago com veleiros e canoas... - divagou Dina.
- Bem, na verdade imaginei não um, mas dois campos de golf – Ellie gesticulava com as mãos enquanto falava querendo mostrar o tamanho dos campos - ...e um shopping bem no meio deles. – Parou e sorriu de lado para Dina, orgulhosa da sua ideia.
- Só para que saibas, estou disposta a ouvir a tua oferta, mas tenho intenções de manter o MEU rancho – carregando especificamente na palavra "meu" querendo impor a ideia de quem era o rancho e voltou a caminhar, agora em passos mais curtos, mas mantendo as mãos nos bolsos das calças jeans justas deixando as curvas da sua cintura bem delineada.
Ellie deu dois pequenos passos para a alcançar de novo, realmente a sua escolha de calçado não tinha sido a melhor, eram sapatos baixos estilo bowling, mas comparando com as botas de Dina, notava-se claramente que dificultavam o caminhar na terra, já para não falar que estavam a ficar todos sujos.
- O nosso empreendimento traria imenso comercio para a região, manteria as lojas abertas e daria oportunidade a novas pequenas-empresas prosperarem, obviamente, com um ótimo bónus incorporado para a venda do rancho. – Ellie percebeu que ia ser um negócio mais difícil do que imaginara anteriormente, mas estava determinada em convencer a dona a vender a propriedade.
- Estás a brincar comigo? – perguntou Dina ironicamente e nada satisfeita, franzindo o sobrolho e com um ar desapontado no rosto – Ainda agora nos conhecemos e já me estás a mostrar a porta de saída, praticamente sem hipóteses de negociar.
- Eu apenas .... – gaguejou Ellie vendo o olhar reprovador de Dina, mas de repente o seu olhar passou para outro lado. A vista daquele ponto era maravilhosa, o rancho era o lugar mais bonito que alguma vez vira. Tinha um espaço enorme com cavalos e um estabulo generoso ao seu lado, todo em madeira, mas muito arranjado. Ao fundo, os raios de sol m*l deixavam ver, mas tinha um grande chalé também em madeira com o telhado escuro e um terraço com algumas cadeiras e mesas em estilo rustico. O chalé estava rodeado por um riacho que parecia correr por toda a herdade e por cima dele, várias pontes em madeira que davam passagem para os vários pontos do rancho. Meia atrapalhada, Ellie tirou um papel do bolso do seu blazer cinzento – Bem, permite-me apresentar a minha oferta.
- Shhhh, shhh! – Dina tocou nos seus próprios lábios com o indicador, fazendo gesto de silencio – ouve, apenas... fecha os olhos!
Ellie respirou fundo e obedeceu. – O que devo ouvir? – perguntou.
Dina fechou também os seus olhos – O som do silencio. - Realmente a sensação era perfeita. Estavam completamente rodeadas de sons da natureza e com os olhos fechados conseguiam tomar mais atenção aos pormenores, como o som de um p**a-p*u ao fundo a bater na madeira, as cigarras e os grilos a "cantar", o som de uma leve brisa a passar por entre as arvores..., mas nesse momento o som de um telemóvel a tocar ecoou nas suas cabeças.
- Aaah! – Ellie deu um pequeno grito de felicidade. – Nem acredito que está vivo e melhor, com sinal. Sim... - Ellie atendeu apesar do telemóvel estar partido – Desculpa, tenho de atender. – e afastou-se de Dina. – Sim, sim, estou com a Woodward neste momento, estou a olhar para o rancho, é lindo. – virou-se para trás para sorrir para Dina, mas reparou que esta se estava a afastar caminhando na direção contraria. – Desculpa, tenho de ir agora... sim, ligo mais tarde. – Desligou e deu uma corrida para a alcançar, mas foi difícil, ela caminhava rápido.
Logo chegaram junto de Jesse da sua carrinha.
- Obrigado Jesse, por ficares com os cavalos. – Agradeceu Dina, colocando uma das suas mechas do cabelo, mais rebeldes, para trás da orelha.
- Acho que tenho de deitar estes sapatos fora. – Queixou-se Ellie sacudindo os seus pés cheios de terra.
- Não! Apenas um pouco de saliva e um trapo velha e voltam a brilhar num instante. – Dina riu-se enquanto subia para o cavalo. Notava-se que estava a gozar com Ellie, mas esta tentou não se sentir incomodada.
- Ei, posso ligar-te mais tarde quando arranjar um lugar para ficar?
Dina agarrou no seu chapéu com a mão direita enquanto agarrava as rédeas do cavalo com a mão esquerda, olhou de lado para Ellie com ar de espanto. – Não tens um lugar para ficar?
- Não, de acordo com o Jesse motorista, está tudo reservado há semanas por causa do....
- festival, sim. Parece que estás em apuros. – Dina respirou fundo com ar de quem não queria dizer o que ia dizer. – Nós temos uma casa de hospedes no MEU rancho. Não é um hotel Ritz, mas podes ficar lá se quiseres.
- Estás-me a oferecer uma estadia no TEU rancho? – Ellie riu quando deu enfase na palavra "teu".
- É assim que fazemos as coias por aqui, somos uma família, se vemos alguém com dificuldades sempre arranjamos um lugar para ficar. Além disso, é o mínimo que posso fazer depois de... - Dina apontou para os sapatos de Ellie. – bem, depois de arruinar os teus sapatos caríssimos.
- Eh, obrigada, é muito gentil da tua parte. – Agradeceu – mas sabes que isso não me vai impedir de te tentar convencer a venderes-me o teu rancho.
- Sim, é mesmo por isso que te quero lá. – Dina sorriu, o sorriso dela era assertivo e confiante, mas ao mesmo tempo super doce. – Assim posso ficar de olho em ti. Jesse, dás boleia à minha hospede?
- Entra, Ellie. – Jesse apontou com a cabeça para a carrinha, riu alto e seguiu caminho.
Abby e Lev bebiam um café bem encostados, enquanto estavam sentados nas escadas da entrada do chalé.
- Vou ter saudades deste rancho, desta vida. – Suspirou Abby.
- Se há coisa que sei sobre a Dina, é que ela não desiste facilmente e faz sempre o que é mais correto. É uma mulher determinada. – Lev respondeu tentando dar animo à sua esposa que agora tinha pousado a cabeça no seu ombro. Beijou-lhe os cabelos loiros e continuou – Não te preocupes. E por falar no diabo... - ambos se levantaram prontamente ao verem Dina a chegar com os dois cavalos, seguida pela carrinha do Jesse.
Ellie abriu a porta e saiu, pegando na sua mala que ainda estava na parte de trás. Jesse não saiu, apenas cumprimentou o casal baixando o seu chapéu e seguiu caminho.