Capítulo 5

928 Words
A umidade que subia das masmorras da Academia Real trazia consigo o cheiro de mofo e segredos guardados há séculos. Diferente da luz gloriosa do pátio ou do veludo do Salão das Sombras, o Setor de Interrogatório e Resistência era um labirinto de pedra crua, onde as goteiras marcavam o tempo com a precisão de um carrasco. O quinto capítulo da educação de um herdeiro não envolvia armas ou mapas, mas a capacidade de habitar o próprio silêncio enquanto o mundo desmoronava ao redor. Elowen foi levada para lá de olhos vendados. O toque áspero das mãos dos guardas em seus braços era um lembrete de que, naquela ala, sua linhagem era irrelevante. Quando a venda foi removida, ela se viu em uma cela pequena, iluminada apenas por uma única vela que lutava contra a escuridão. À sua frente, sentado em um banco de madeira, estava o Mestre Soren, um homem cuja pele parecia pergaminho esticado sobre um crânio, famoso por ter passado três anos nas prisões das Terras Queimadas sem revelar uma única palavra sobre os planos de Aethelgard. — A dor é uma professora barulhenta, Princesa — começou Soren, sua voz soando como o arrastar de pedras. — Mas o isolamento... o isolamento é o sussurro que te convence a trair a si mesma. O exercício era brutal em sua simplicidade: Elowen deveria permanecer naquela cela por doze horas. Ela não seria agredida fisicamente, mas a cada hora, Soren faria uma única pergunta sobre as vulnerabilidades de seu pai, o Rei. Se ela respondesse, teria comida e luz. Se permanecesse em silêncio, a cela ficaria mais fria, e a escuridão, absoluta. Nas primeiras horas, Elowen tentou manter a mente ocupada. Ela recitou linhagens, relembrou táticas de batalha e contou as batidas de seu próprio coração. Mas a mente humana é uma criatura inquieta. Quando o silêncio se tornou profundo demais, as memórias começaram a vazar pelas frestas. Ela viu o rosto de sua mãe, sentiu o cheiro de lavanda dos jardins de infância e, logo depois, a imagem de Julian na lama e a expressão de decepção de Alaric na varanda. — Primeira pergunta — a voz de Soren surgiu do nada, fazendo-a pular. — Qual é o maior medo do Rei quando ele olha para a fronteira norte? Elowen apertou as mãos, sentindo as unhas cavarem a palma da mão para que a dor física servisse de âncora. — O Rei não teme — ela respondeu mecanicamente. — Mentira. Você falhou na primeira lição de Malcorra: para mentir bem, você precisa aceitar a verdade primeiro. Seu pai teme a própria obsolescência. E você teme ser o motivo dela. A vela foi apagada. A escuridão que se seguiu era tão densa que Elowen sentiu como se estivesse enterrada viva. O frio começou a rastejar pelo chão, subindo por suas botas, entorpecendo seus dedos. O tempo perdeu o sentido. Minutos pareciam horas; horas pareciam eternidades. Ela começou a ouvir sons que não existiam — o tilintar de espadas, o choro de crianças, a voz de Kaelen gritando que ela era lenta. A privação sensorial era uma lixa desgastando sua sanidade. Ela sentia uma v*****e avassaladora de falar, de gritar qualquer coisa apenas para ouvir o som da própria voz, para confirmar que ainda existia. O conflito humano atingia seu ápice ali: a luta entre o instinto social de conexão e a necessidade política de isolamento. — Segunda pergunta — a voz de Soren parecia vir de dentro de sua cabeça agora. — Se você tivesse que escolher entre a vida de Alaric e a segurança de um segredo de estado, o que você sacrificaria? Elowen sentiu um nó na garganta. A imagem de Alaric, com seus olhos cansados e sua lealdade silenciosa, brilhou em sua mente. O que a Academia estava fazendo era despojar cada um deles de seus laços afetivos, transformando-os em ilhas de gelo. — Eu não sacrificaria o segredo — ela sussurrou, e cada palavra parecia uma traição que lhe rasgava o peito. — E é por isso que você está sofrendo — rebateu Soren. — Porque você ainda se importa com o que sacrifica. O verdadeiro governante não vê sacrifícios, vê apenas custos operacionais. As horas seguintes foram um borrão de calafrios e alucinações. Elowen começou a sentir que suas mãos não eram mais suas. Ela se encolheu em um canto da cela, abraçando os joelhos, tentando manter o calor interno. Ela percebeu que a Academia Real não estava apenas ensinando-a a resistir ao inimigo; estava ensinando-a a ser sua própria carcereira. Quando a porta da cela finalmente se abriu e a luz das tochas inundou o recinto, Elowen estava pálida, com os olhos fundos e o corpo tremendo violentamente. Soren a observou com uma indiferença clínica. — Você não quebrou, Princesa. Mas deixou que o silêncio a machucasse. Da próxima vez, aprenda a fazer do silêncio a sua a**a, não a sua cela. Ela saiu das masmorras tropeçando, a luz do sol ferindo sua visão como se fossem agulhas de fogo. Alaric estava lá fora, esperando por ela, ou talvez apenas cumprindo sua própria pena de espera. Ele deu um passo à frente para segurá-la, mas Elowen recuou instintivamente. O toque dele, que antes seria um conforto, agora parecia perigoso. Ela olhou para ele e não viu mais um amigo, mas um ponto de pressão, uma fraqueza que Soren poderia usar contra ela no futuro. O frio da cela não havia ficado para trás; ele havia se instalado permanentemente sob sua pele. Elowen caminhou em direção ao dormitório sem dizer uma palavra.
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