Capítulo 01

1150 Words
O ar em Aethelgard ao amanhecer não soprava; ele cortava. Tinha o gosto metálico do orvalho sobre o ferro e o cheiro persistente de pinheiro úmido que descia das montanhas circundantes. Antes mesmo que o primeiro raio de sol ousasse l****r as torres de marfim da Academia Real, o pátio de treinamento já pulsava com o som rítmico e brutal da exaustão humana. Não havia música ali, apenas a melodia visceral de respirações curtas e o estalo seco da madeira contra o couro dos sacos de areia. Elowen sentia o suor escorrer frio por sua espinha, traçando um caminho arrepiado sob a túnica de linho grosso. Seus dedos, já marcados por calos precoces e pequenas crostas de sangue seco, apertavam o punho da espada de prática com uma urgência que beirava o desespero. Para o mundo exterior, ela era a Terceira Princesa, uma figura de porcelana destinada a adornar tapeçarias e selar alianças com um sorriso ensaiado. Ali, naquele retângulo de terra batida e poeira, ela era apenas um alvo. E, naquele momento, um alvo lento. — Mais baixo, Alteza. O chão não vai fugir de você, mas a sua cabeça certamente pode — a voz do Instrutor Kaelen cortou o nevoeiro matinal como um chicote de couro. Kaelen era um homem feito de cicatrizes e silêncio. Ele não usava títulos, não fazia reverências e, acima de tudo, não oferecia piedade. Para ele, a dor era a única linguagem universal, a única ferramenta de ensino que não aceitava mentiras ou subornos. Elowen afundou a postura, sentindo os músculos das coxas queimarem em um protesto mudo. Era uma dor sorda, uma pulsação que parecia compassada com as batidas de seu coração acelerado. Seus pulmões ardiam; o oxigênio entrava como lâminas serrilhadas em sua garganta seca. Ela não via a beleza arquitetônica das colunas que sustentavam os arcos da Academia. Não notava os vitrais que começavam a brilhar com a luz pálida da aurora. Seus olhos estavam fixos nas botas desgastadas de Kaelen e na sombra da próxima investida que ele desferiria. A Academia Real era a fornalha onde as linhagens eram testadas. Enquanto o povo imaginava que os herdeiros passavam seus dias em banquetes regados a vinho e discussões filosóficas, a realidade de Elowen era o cheiro de suor rançoso e a pressão constante de ser "suficiente". A linhagem real era uma promessa de glória, mas dentro daquelas paredes, era um fardo que pesava toneladas em cada movimento. — O que você sente agora, Elowen? — Kaelen começou a circular, seus passos leves demais para um homem daquela estatura, como um predador avaliando a fraqueza da presa. — O peso — ela conseguiu ofegar, a voz saindo rasgada, quase irreconhecível para si mesma. — Mentira — ele rebateu instantaneamente, a voz fria. — Você sente o medo. O medo de decepcionar o trono, o medo de ser a peça fraca no tabuleiro do seu pai. Deixe a coroa lá dentro, nos aposentos aquecidos. Aqui, você não tem ancestrais. Só tem o seu sangue e o chão que te sustenta. Ele atacou. Foi um movimento fluido, quase preguiçoso na aparência, mas carregado de uma força que deslocou o ar ao redor. Elowen bloqueou por instinto, a vibração do impacto subindo pelos seus braços, sacudindo seus dentes e fazendo sua visão turvar por um breve segundo. O choque não foi apenas físico; foi um despertar. Naquele impacto, o cansaço acumulado de horas de vigília pareceu evaporar sob uma descarga elétrica de adrenalina. O conflito humano, despido de joias e protocolos, era a única verdade que restava. Ao redor do pátio, outros vultos começavam a surgir através da névoa. Jovens duques, herdeiros de baronatos distantes e príncipes de reinos vizinhos cujas fronteiras eram desenhadas com sangue. Eles se moviam como fantasmas, cada um mergulhado em seu próprio inferno particular de treinamento. Não havia saudações cordiais. O silêncio era uma lei sagrada na Academia. A amizade era um luxo que poucos podiam pagar, pois sabiam que, em poucos anos, poderiam estar em lados opostos de uma linha de frente, comandando exércitos que se morderiam até a morte. Elowen limpou o sangue do lábio rachado com as costas da mão, deixando um rastro escarlate em sua pele pálida. O sol finalmente rompeu a barreira das montanhas, tingindo as torres de pedra branca com um tom de vermelho violento, quase profético. Ela sentia o tremor em seus joelhos, a v*****e física de desabar e deixar que a terra a engolisse, mas havia algo mais profundo pulsando sob suas costelas. Uma raiva silenciosa, uma recusa em ser apenas a sombra de seus irmãos mais velhos. — De novo — ela exigiu, a voz agora firme, embora baixa. Kaelen parou. Um breve lampejo, algo que poderia ser um reconhecimento ou apenas um cálculo frio, passou por seus olhos cinzentos. Ele levantou a espada de madeira novamente. — A resistência não é sobre quanto você pode bater, Elowen. É sobre o quanto você consegue ser moída e ainda assim se manter inteira. O reino não precisa de uma rainha que saiba dançar. Ele precisa de uma rainha que não quebre quando o mundo decidir cair sobre ela. A manhã avançou e o calor começou a subir, transformando o suor em uma película pegajosa que prendia a túnica ao corpo de Elowen. Cada investida de Kaelen era uma lição de humildade. Ele encontrava cada brecha em sua guarda, cada hesitação em seu passo. Ele a derrubava, e ela se levantava. Ele a desarmava, e ela buscava a a**a no barro. O tempo na Academia não era medido por relógios de areia, mas pelo volume de esforço necessário para não desistir. Quando o sino da primeira refeição finalmente ecoou pelas galerias de pedra, Elowen estava no limite de suas forças. Seus braços pesavam como se fossem feitos de chumbo fundido. Ela olhou para as próprias mãos; as palmas estavam em carne viva, o suor ardendo nas feridas abertas. Mas, ao olhar para o horizonte, onde a cidade de Aethelgard começava a despertar sob a p******o daquelas muralhas, ela sentiu uma clareza brutal. Ela não era mais a menina que chorava por joelhos ralados nos jardins internos. A Academia Real estava arrancando sua infância com pinças de ferro e substituindo-a por uma armadura invisível. O capítulo de sua vida como espectadora havia se encerrado. Agora, cada gota de suor no chão do pátio era uma linha escrita em seu novo destino. Ela guardou a espada, sentindo o tremor constante nos tendões, e caminhou em direção ao Grande Salão. O caminho seria longo, as batalhas seriam injustas e o custo da grandeza seria tudo o que ela possuía. Mas enquanto houvesse fôlego em seus pulmões e o eco do aço em seus ouvidos, ela não pararia. Aethelgard observava. A Academia esperava. E a Terceira Princesa, enfim, começava a entender que o trono não era um assento de veludo, mas uma posição de guarda constante.
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