O sono de Elowen não foi um descanso, mas um campo de batalha de sombras. Ela acordou antes do sino, os olhos abrindo-se no escuro absoluto do quarto, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. O silêncio da madrugada na Academia Real era denso, quase sólido, interrompido apenas pelo uivo distante do vento nas ameias. Suas articulações estavam tão rígidas que o simples ato de se sentar na cama arrancou-lhe um gemido baixo. Cada fibra muscular parecia ter sido substituída por cordas de violino esticadas até o ponto de ruptura.
Nesta manhã, o currículo mudava. Não haveria pátio de armas, nem salas de estratégia. O Capítulo 3 da vida deles naquelas paredes era dedicado ao que os instrutores chamavam de "A Prova do Terreno".
Elowen vestiu o traje de couro batido, apertando as fivelas com dedos desajeitados. Ela desceu para o pátio inferior, onde um g***o de vinte alunos já esperava sob a luz bruxuleante de tochas de resina. O cheiro de cavalos, terra úmida e medo era quase sufocante. À frente deles, não estava Kaelen, mas a Mestra Vaelia, uma mulher cuja idade era impossível de determinar, com olhos que pareciam enxergar através da carne e dos ossos.
— Hoje — anunciou Vaelia, sua voz vibrando como um gongo — vocês aprenderão que o maior inimigo de um governante não é o traidor na corte, nem o general inimigo. É a natureza. Ela n******e ser subornada. Ela não conhece lealdade. Ela apenas consome.
O desafio era simples na teoria e brutal na prática: atravessar o Desfiladeiro das Sombras, um labirinto de rocha e lama aos pés da montanha, carregando um fardo de trinta quilos de pedras em suas mochilas. Eles deveriam chegar ao outro lado antes que o sol atingisse o zênite. Quem falhasse, passaria a noite no desfiladeiro — um lugar onde as lendas diziam que nem mesmo os lobos ousavam caçar.
Elowen sentiu o peso da mochila ser ajustado em seus ombros. A alça de couro imediatamente começou a cavar sua pele, encontrando as feridas abertas do treino anterior. Ela olhou para o lado e viu Alaric; ele estava pálido, o suor já brotando em sua testa antes mesmo do primeiro passo. A confiança que ele exibia no refeitório havia desaparecido, substituída por uma máscara de pura sobrevivência.
— Movam-se — ordenou Vaelia. — O tempo é o único recurso que vocês nunca recuperarão.
A descida para o desfiladeiro foi um mergulho em um abismo de umidade. O chão era uma mistura traiçoeira de musgo escorregadio e cascalho solto. A cada passo, o peso nas costas de Elowen parecia dobrar. A gravidade era um carrasco implacável. Seus pulmões começaram a protestar, o ar frio e úmido causando uma tosse que ela tentava suprimir para não gastar energia.
Logo, o g***o começou a se fragmentar. Os mais fortes, como os gêmeos de Valerius, dispararam à frente, movendo-se com uma coordenação mecânica. Elowen ficou para trás, mantendo um ritmo constante, mas lento. Ela não olhava para cima, para o topo das paredes de pedra que pareciam se fechar sobre ela; olhava apenas para os calcanhares da pessoa à sua frente.
A meio caminho, o terreno transformou-se em um pântano de lama n***a. Foi ali que o primeiro deles caiu. Um jovem conde, cujo nome Elowen sabia ser Julian, escorregou e mergulhou o rosto no lodo. O som do peso das pedras esmagando-o contra o chão foi abafado pela lama. Ele tentou se levantar, mas a mochila o prendia como uma carapaça de tartaruga.
Elowen parou por um segundo. A regra da Academia era clara: "O auxílio é uma fraqueza que gera dependência". Mas ao olhar para os olhos arregalados de Julian, tomados pelo pânico de quem sente o fôlego faltar, algo dentro dela vacilou. A frieza que ela tentara cultivar no dia anterior, ao falar em queimar aldeias, parecia uma mentira diante da realidade de um colega sufocando.
Ela estendeu a mão.
— Pegue — ela sibilou.
Julian agarrou seu pulso com uma força desesperada. Elowen sentiu o esforço rasgar seus próprios ombros enquanto o puxava para cima. Por um instante, o peso dos dois parecia impossível de sustentar. A lama tentava puxá-los para baixo, um abraço frio e faminto. Quando Julian finalmente ficou de pé, ele não agradeceu. Apenas assentiu, o rosto coberto de terra n***a, e continuou a andar, tropeçando.
Elowen retomou sua marcha, mas agora a dor em seu ombro era aguda, uma pontada de fogo a cada passo. Ela começou a sentir o delírio da exaustão. As paredes de pedra pareciam sussurrar os nomes de seus ancestrais, cobrando uma perfeição que ela não possuía. "Você é o elo fraco", a voz de seu pai parecia ecoar entre os paredões. "Uma princesa de vidro em um mundo de ferro".
— Cala a boca — ela murmurou para a própria mente, os dentes cravados no lábio inferior até sentir o gosto ferroso do sangue.
O sol começou a subir, e com ele veio um calor abafado que transformou o desfiladeiro em um forno de vapor. A umidade grudava em suas roupas, tornando tudo ainda mais pesado. Elowen sentia que seu corpo não pertencia mais a ela. Seus pés eram blocos de madeira, suas mãos eram garras inúteis. Ela estava operando apenas com a v*****e pura, aquela centelha teimosa que se recusa a apagar mesmo quando o óleo acaba.
Quando a saída do desfiladeiro finalmente apareceu — uma f***a de luz ofuscante entre as rochas — ela sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Não era tristeza; era o choque de ter sobrevivido. Ela cambaleou para fora, caindo de joelhos na grama seca do planalto superior. O peso da mochila foi removido por mãos ásperas.
Vaelia estava lá, observando o sol. Faltavam minutos para o meio-dia.
— Você ajudou o Conde Julian — disse Vaelia, sua voz sem qualquer traço de emoção.
Elowen olhou para cima, tentando recuperar o fôlego, a visão turva.
— Ele ia sufocar.
— E você quase perdeu o seu prazo. Na guerra, Princesa, salvar um homem pode custar a vitória de dez mil. Mas — Vaelia fez uma pausa, e por um milésimo de segundo, algo que parecia humanidade brilhou em seus olhos — um trono sem um pingo de compaixão é apenas um banco de gelo. O problema é saber quando a compaixão se torna o seu túmulo.
Elowen não respondeu. Ela não tinha palavras. Ela apenas se deitou de costas na terra dura, sentindo o sol queimar sua pele suja. Ela tinha passado pela Prova do Terreno, mas o custo fora alto. Julian estava sentado a poucos metros, recusando-se a olhar para ela. Alaric chegou logo depois, desabando como um saco de trigo.
Naquele momento, Elowen compreendeu a lição mais c***l da Academia Real: a solidão do comando começa quando você percebe que mesmo os seus atos de bondade serão usados para testar sua resiliência. Ela fechou os olhos, o som do seu próprio fôlego sendo a única companhia que realmente importava. Ela era aço sendo temperado na água fria da realidade.