Antonella
Eu estava nervosa.
Voltando àquela cidade onde recebi tantas palavras que agora percebia que eram apenas jogadas ao vento, ditas sem sentido sem que eles as sentisse.
Agora, um ano depois, eu percebi que tudo tinha sido uma mentira. A única pessoa que se apaixonou foi eu.
Eu percebi tarde demais que a diferença de idade não era um m*aldito mito.
A diferença de idade poderia destruir um casal que pensava estar apaixonado.
E eu começei a entender depois de alguns meses qual foi minha culpa desde o primeiro momento.
A minha irmã mais velha me disse mil vezes: — É um bom partido, mas você está destruindo sua vida para construir a de outra pessoa.
E caramba, como ela estava certa.
— Caros passageiros, bem-vindos a Nápoles, por favor, mantenham o cinto de segurança até aterrorizarmos completamente.
Eu estava sentada lendo tentando me concentrar na minha revista de variedades como se fosse uma ordem de vida ou morte.
Não queria olhar pela janela, repetia para mim mesmo desde que tinha deixado a Espanha.
Eu não queria olhar porque tinha medo de ver a cidade onde compartilhei tantas lembranças lindas, onde me senti amada.
Mais amada do que nunca.
Eu passei um ano inteiro tentando esquecer, para começar uma vida onde eu era dona das minhas ações.
Que tonta.
Eu não possuía nada.
A única coisa que eu possuía era meu próprio corpo e agora eu questionava isso considerando que mesmo depois de tantos meses, eu ainda não conseguia esquecer Vicenzo.
— Menina bonita, você está bem? A mulher no assento ao meu lado pegou a minha mão e apertou levemente. Devia ter uns setenta anos, talvez menos. — Parece que você tem medo de aviões. Ou será que algo está te incomodando?
— Que? Medo de...? Repeti, enquanto olhava para a mulher, intrigada com a pergunta. Não tenho medo de voar. Acho que viajei mais de avião do que de carro. — Estou bem. Não se preocupe comigo.
— É que vi você a viagem inteira na mesma página. Você passa uma em seguida você volta de novo. Você nunca esteve na Itália?
— Ah não, sim. Eu sou italiana... Eu não conhecia aquela senhora de jeito nenhum, e a minha mãe e irmã sempre me disseram que até os rostos mais lindos e inocentes podiam ser de cascavéis. Sou italiana.
Eu era muito inocente, meu maior pecado e fraqueza, e os meus entes queridos sempre me lembravam disso.
No entanto, apesar de terem avisado há um ano e alguns meses sobre o meu relacionamento com Vicenzo, eu não os ouviu.
Eu mudei todo o meu pensamento pelo amor que eu tinha por ele.
— Oh! Você não parece querida. A mulher ficou surpresa ao saber que eu era realmente de lá e que não era uma estranha chegando a um país desconhecido.
Eu tinha olhos azul-celeste como a água calma do mar, herdada dos meus avós maternos, e o cabelo loiro acinzentado, que muitos pensavam ter sido pintado em cabeleireiro, mas, na verdade, tinha herdado da minha mãe.
Minha mãe.
Eu senti falta dela!
A minha mãe, embora tivesse me aconselhado a ir em frente, eu tinha certeza de que ela me entenderia.
Certamente ela teria dito para mim o que fazer em situações como essa.
Eu olhei para a mulher de casaco de bisão, uma cor que podia ser vista a dez metros de distância. Se alguém matasse aquela senhora, ele facilitaria a sua localização.
— Sim, a minha mãe disse que eu tenho uma beleza peculiar. Eu não poderia responder outra coisa. A senhora olhou para mim com os seus olhos castanhos fixos em mim.
— Tem alguém te esperando no aeroporto? Você precisa de companhia?
— Não... eu... Eu não ia dizer a ela que ninguém me esperava.
Eu estava tão perdida que um estranho perguntou se eu precisava de alguém para me acompanhar?
— Não.
Definitivamente, o pior seria confessar o motivo da minha visita.
Sem entender para que eu estava aqui, o meu cérebro queria confessar a estranha Senhora que havia retornado àquela cidade o porquê eu estava aqui.
Os meus olhos azuis não conseguiam esconder a tristeza. Foi o que a minha irmã me disse.
— Bem, estamos aqui. Acho que mesmo que você não tenha medo de voar, algo o preocupa. Os meus filhos e netos dizem que sou uma boa ouvinte.
Ela sorriu para mim e apontou para a janela. — Olha como o dia está lindo. O nosso céu é um dos mais bonitos. Toda vez que estou fora, penso na minha pequena cidade e me acalmo um pouco, embora a saudade esteja sempre presente. De que parte você é?
A senhora perguntou enquanto tirava o cinto de segurança, pois o piloto já havia informado que havíamos pousado sem problemas.
— Eu sou de Di Tenno.
— Nossa, um pouco longe de Nápoles, não é? A curiosidade levou a melhor sobre a senhora e eu fiquei feliz por poder me distrair e não pensar no verdadeiro motivo de ter ido para a cidade que só me dava enxaquecas e ansiedade, por não pensar na dor e na decepção.
Um casamento fracassado, isso sim. Um casamento que ainda era atual e real.
Vicenzo Luigi não queria me dar o divórcio. Mesmo depois de um ano do fim do nosso casamento e da minha partida.
Um ano de pura amargura.
Os últimos meses, sim, devo admitir, não foram completamente r**m.
Scott Belén entrou na minha vida. Um espanhol de cabelos escuros e queixo pronunciado.
A minha irmã mais nova Thalia que nós apresentou. Eu disse a ela que não estava pronta para conhecer ninguém.
— Sim. Mas há momentos em que é bom enfrentar as situações para seguir em frente. Pelo menos foi o que Thalia disse para mim.
Me divorciar de Vicenzo parecia tão difícil, meses atrás, mas agora que uma oportunidade se apresentava, eu tinha que aproveitá-la de qualquer maneira.
O meu relacionamento com Scott estava ficando mais sério a cada dia.
Thalía, sob confiança e discrição de irmã, me disse que Scott havia pedido para ela acompanhar ele para comprar um anel de noivado.
Eu quase morri.
No entanto, naquele mesmo dia, um carteiro chegou no meu apartamento e me entregou um cartão postal.
O mesmo postal que chegava mês após mês.
Você ainda é minha, Antonella. Ninguém vai mudar isso. Nem mesmo ele.
Vincenzo
Enzo não me deixaria em paz.
Eu poderia mudar de cidade, casa, país. Ele sempre saberia como me encontrar.
Eu desafivelei o cinto e puxei a minha pequena bolsa de mão no andar de cima, onde a bagagem era guardada.
— Tenha um bom fim de semana. Disse à senhora tagarela.
— Você também, Senhora.
Eu me dirigi para a saída, eu queria sair do avião logo. Quanto mais rápido eu falasse com Vicenzo, melhor seria a minha vida.
Eu teria um futuro melhor, sem incertezas, sem pensar nele.
Embora eu tivesse certeza de que isso seria impossível, ele foi o primeiro homem que eu amei, desejei.
Era uma farsa, uma farsa ambulante e viva. Eu havia me entregado completamente a ele.
Mas Enzo nunca pertenceria a ninguém. Ele era só dele.
Enzo não amava mais ninguém, nunca amaria. Ele não podia. O dinheiro sempre seria a coisa mais importante para ele.
Foi por isso que eu estava determinada a me casar com Scott.
Eu ia concordar em ser sua esposa.
Antonella de Belém.
Não soou muito m*al. Talvez um pouco.
Mas de uma forma ou de outra eu tinha que virar a página. Esqueça a vida que eu imaginei com Enzo.
O meu coração não parecia se importar que ele só tivesse me usado para coletar a sua herança.
M*aldito negócio.
Eu fui uma tola por cair numa armadilha tão antiga. Casar-se para que o seu pai o deixasse conseguir o dinheiro. Seu pai morto.
Enzo não precisava daquela herança. Mas devido a problemas familiares, ele não queria deixar isso para sua mãe e irmã arrogantes apenas por parte de mãe.
— Você nunca me amou. Me lembro de como o encarei naquela noite depois de encontrar o documento sobre a mesa.
Eu ainda tinha o lençol que tinha enrolado em mim mesma quando sai da cama.
Depois de termos feito amor na noite de núpcias. Depois de ter me entregado de corpo e alma ao meu marido. Eu dei a ele a minha virgindade. Meu tesouro mais precioso.
Eu tinha vinte e cinco anos e nunca tinha dormido com ninguém. Só com ele.
Só com Enzo.
E ele tinha sido apenas uma mentira.
— Você não sabe o que está dizendo. Foi a única coisa que ele disse com a voz séria, ainda nu, acabando de sair do banho apenas com uma toalha amarrada na cintura.
— Você me usou para coletar a p***a de uma herança! Eu explodi e jogou os papéis nele. — Eu sou a por*ra do seu brinquedo, Enzo!
— Na...
— Você brincou comigo! Era apenas isso? Dormir comigo foi a cereja do sorvete? Vá para o inferno Enzo.
A discussão foi repetida várias vezes. Foi assim por meses.
Reproduzindo-se como se a vida tentasse me dizer algo.
Um vento frio me fez amarrar o cachecol no pescoço e passar as mãos pelos braços.
Eu era magra e a temperatura de Nápoles não ajudava. No entanto, havia algo mais.
— Olá, Antonella.
— Vincenzo!