Capítulo V

1334 Words
     Acordei com a cabeça para explodir de dor. Escovei os dentes, tomei um remédio e liguei o telefone. Haviam inúmeras chamadas e dentre elas, várias da sra. Lee. Suspirei fundo. Ela certamente queria uma explicação pela noite anterior.      Joguei o telefone na cama novamente e fui para a cozinha tomar o café da manhã. Para o meu alivio, Lana esse horário estava na faculdade de enfermagem. Meu avô assistia o jornal da manhã na sala e Bia estava na escola. - Não vai ao trabalho novo hoje? –  Tia Roberta surgiu atrás de mim. - Não vão precisar de mim hoje – Menti. - Então ficará responsável pelo almoço. Estou indo ao salão - Disse pegando a bolsa.      Não demorou muito minha tia retornou. - Tem um homem aqui na frente perguntando se você mora aqui.     Franzi o cenho e olhei pela janela. Era a Mercedes da sra. Lee. Comecei a rodar na sala, sem saber bem o que fazer. Ainda estava de pijama. Os cabelos bagunçados. Contudo não podia deixá-la lá fora esperando, então abri a porta e fui até o carro, onde o motorista aguardava de pé na frente do portão.   - Pediram para que a senhora me acompanhe até o hotel – Ele explicou.       Olhei para dentro do carro e vi que ele estava vazio. - Você sabe a respeito do que se trata? – Perguntei aflita. - A sra. Lee só me pediu para que a levasse até o hotel. - Certo. Só um minuto. Corri para dentro do quarto e vesti uma camiseta preta e uma calca jeans. Pus meus tênis all Star e peguei minha mochila com a carteira. Peguei também as chaves da moto, que havia deixado no estacionamento do hotel, no dia anterior e segui com o motorista.      Já eram onze da manhã. Fiquei ansiosa. Aquelas pessoas não eram brasileiras e tinham um comportamento estranho, então não sabia nem o que esperar.      A tristeza e decepção do dia anterior ficou em segundo plano, pelo menos até eu descobrir se teria que responder ou pagar alguma multa por causa da noite anterior. Minhas pernas gelaram e minha cabeça começou a trabalhar a mil, imaginando o tamanho do estrago que eu fizera.      O celular tocou, era a sra. Lee. Atendi prontamente. - Já chegou ao hotel? – Ela perguntou impaciente. - Estou quase chegando – Garanti. - Na recepção, uma moça estará te aguardando. Esteja pronta para sair com o sr. Lowell as 13h. Não irei acompanha-los hoje à tarde, pois tive um imprevisto com as contadoras da empresa. - Quer que eu continue fazendo as traduções? – Perguntei duvidosa. - Não tenho opção. O tradutor que a empresa me enviou passara essa tarde comigo. - Sra. Lee, eu ... - Não faça besteiras garotas, apenas faça o seu trabalho – Ela exigiu e desligou o telefone na minha cara.      Fiquei olhando para o aparelho confusa. Independentemente de qualquer coisa, não estava no clima de trabalhar com eles, ainda mais sozinha com o sr. Lowell. Estava frágil e confusa, precisava urgentemente de um tempo pra mim, poxa eu era humana.      Minha vida tinha acabado de desmoronar e eu nem se quer podia ficar trancada no quarto remoendo as lembranças e pensando no que deveria fazer. ``Casamento há muito tempo virou algo brega`` - Ouvi a voz de Dudu nos meus ouvidos. ``Não seja quadrada querida, o lance agora é se juntar. Se der certo e você ainda quiser, então você vai lá e casa, simples assim``. Ele havia dito quando contei que iria me casar com Carlos. ``Não de atenção ao Dudu amiga, ele está com dor de cotovelo, siga seu coração``. Michele me motivou. ``não seja falsa Michele, você acabou de dizer que era loucura ela fazer isso``. ``Mas no sentido de que eles não possuem grana pra isso. Tipo, o Carlos é professor e professor ganha m*l pra caramba. Todo mundo sabe disso``. ``Estou procurando emprego, assim que assinar a carteira iremos marcar a data`` - Fora a minha resposta estupida.  ``Pense bem. Depois não diga que eu não avisei``. Dudu chiou. ``Eu sou careta, e o Carlos também, queremos tudo à moda antiga. Casar no papel, esperar o dia da lua de mel...`` - Sorri, imaginando que em breve teria minha primeira vez. `` Você não existe Alice. Você é tão ingênua querida. Espero que não se decepcione``- Dudu desejou, me deixando pra trás com Michele.       Dudu certamente sabia do que estava rolando entre o Carlos e Lana, afinal, os dois estavam se pegando na frente do portão, no meio da rua. Com certeza, eu era o motivo de chacota da rua e só eu não sabia disso. Desejei desesperadamente que Michele não soubesse sobre aquilo, pois se ela soubesse e não houvesse me contado, eu jamais a perdoaria. Jamais.      O carro parou. Chegamos ao luxuoso hotel em que o sr. Lowell estava hospedado. Como dissera a sra. Lee, uma moça me aguardava na recepção. Fui imediatamente direcionada a uma sala, onde troquei de roupas e fui maquiada. Sorri da bizarrice. Era como se estivesse saindo dali para ver o presidente da república. Era incrível como as pessoas se dirigiam a ele como se ele fosse uma celebridade.      Nem eu me reconheci quando olhei no espelho. Uma maquiagem delicada, suave, fazendo meu rosto parecer de um anjo. Os cabelos presos em um coque elegante, um vestido de alfaiataria marfim, sem muitos detalhes, os poderosos scarpins pretos e uma bolsa pequena de couro, simples e discreta.     Nada daquilo parecia comigo, mas me fez pensar em como seria viver aquele estilo de vida, com roupas elegantes, pessoas te arrumando e carro a disposição. Eu só era uma mera funcionária, imagina como devia ser a vida da esposa desse homem?  - Agora a senhora pode aguardar o sr. Lowell na recepção – A moça sorriu docemente pra mim. Agradeci o trabalho dela e segui para a recepção. - A senhora irá almoçar no restaurante, ou prefere que eu providencie um quarto? – Um dos funcionários do hotel perguntou em um tom educado. - O meu almoço já está pago? – Perguntei sem me dar ao trabalho de escolher as palavras e logo senti o rosto esquentar de vergonha. - Sim senhora – Ele respondeu de forma muito educada. - Pode ser no restaurante mesmo – Garanti ficando de pé, seguindo na direção que ele indicou.       O restaurante estava cheio de pessoas elegantes, com quase todas as mesas ocupadas. O cheiro de comida era convidativo e agora a minha barriga roncava, me fazendo lembrar que eu não tinha comido nada ainda. - Por aqui – O garçom me levou a uma mesa reservada, em um lugar diferenciado, com sofás de couro e louças elegantes, então me entregou o cardápio.     Pensei em perguntar se havia um valor preestabelecido de gasto, mas fiquei com vergonha. Mordi os lábios. - Como funciona? Eu posso pedir o que eu quiser, ou tem algum voucher? – Acho que a palavra voucher, me fazia parecer menos pobre. - Não precisa se preocupar com o valor – Ele garantiu.      Ai meu pai! – Vibrei ansiosa e abrindo o cardápio comecei a procurar pelos pratos mais caros. - Esse camarão – Mostrei no cardápio, com receio de não conseguir pronunciar o nome que estava escrito em francês – Essa picanha também parece ótima – Apertei os lábios nos dentes sentindo a boca salivar. Pedi macaxeira frita, batatas, saladas, farofa e escolhi um Petit gateau como sobremesa.      O garçom levou meu pedido e quando eu ergui a cabeça para avaliar novamente o ambiente, me deparei com o sr. Lowell vindo na minha direção. "NÃO" – Gritei em pensamentos. d***a!      Ele estava de terno, sem gravata, com uns dois botões da camisa abertos de forma casual. Virei o rosto na direção da vidraça, fingindo estar olhando para o pátio do hotel. Eu só precisava ignorá-lo. Para o meu alivio, ele se sentou em outra mesa, com uma mulher morena, muito elegante. A amante?
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