Permaneci sentada, esperando que ele se pronunciasse. Como não o fez, tomei coragem para tentar esclarecer algo que estava me incomodando na confissão dele.
— Por que você ficou irritado com o meu cheiro? Eu te fiz algo? — Culpa e arrependimento, era tudo o que vi em seus olhos quando ele se agachou perto de mim.
— Se lembra que eu disse que estava no show? — Assenti. — Era o meu sonho conhecer você, então consegui uma permissão especial para sair naquela vez. Mas eu estraguei tudo... — Sua voz saiu meio rouca, não sei se por tanto ensaiar ou se por segurar o choro.
— Você não fez nada.
— Fiz sim! Não só não fiz nada para impedir os fãs de invadirem o palco, como me aproveitei dos empurrões para te ver mais de perto. E depois daquele dia a Lisa desapareceu e eu sentia que a culpa era minha, minha e de todos os que estavam lá naquele dia. — Ele desceu o olhar até o chão, incapaz de me encarar. — Quando senti seu cheiro na primeira vez e não me lembrei de onde, um gatilho na minha mente me fez ficar triste na hora e o fato de eu não entender o porquê é que me irritava. Eu achei que estava ficando louco, me afundando num sentimento r**m por uma pessoa que eu sequer conhecia. Achei que se eu quebrasse esse sentimento r**m começando a tratar você melhor, minha tristeza iria passar e então...
— Você me tirou da mira de uma flecha e acabou me reconhecendo. — Eu ri sem graça com o quão estranha essa história estava ficando. Ele ergueu a cabeça e tornou a sorrir ante a minha declaração. — Não se preocupe, não guardo ressentimentos de você.
— Eliza... — Ele segurou minhas mãos, deixando-me envergonhada, mas não as retirei, paralisada frente ao olhar intenso dele. — O motivo pelo qual convenci a banda a fazer covers das músicas de Lisa foi para me redimir, assim como os outros fãs estão fazendo. Queremos homenageá-la de todas as formas possíveis para que você volte. Queremos ver você cantar novamente!
Depois de vir para Siram, parei de atender meu empresário. Por fim, ele enviou uma mensagem dizendo que centenas de vídeos estavam sendo postados na internet pelos meus fãs, pedindo desculpas e cantando minhas canções. O trauma ainda permanecia escondido dentro de mim, mas não era o que me impedia de voltar nesse momento, e sim o fato de estar presa nesse fim de mundo por tempo indeterminado.
— Olha, não foram vocês, não foi aquilo! É outra coisa que vocês não sabem. — Retirei minhas mãos das dele e as apertei uma contra a outra com um pouco de ansiedade. — Só que eu realmente prefiro não falar sobre isso. Além disso, não posso voltar nem que eu quisesse. Estou presa nesse lugar por causa da convocação.
— Posso te ajudar com isso. — Ele se levantou e se sentou ao meu lado. — Meu pai é o beta do clã, o braço direito do alfa. Posso conseguir as permissões que você precisar para sair.
Olhei para ele surpresa com essa afirmação. Nicolas tinha mais influência dentro do clã do que eu imaginava.
— No momento, ele está com meu irmão mais velho na casa do alfa. Quando voltarem, posso interceder por você.
— Não tenha pressa. — Levantei-me, tirando o celular do meu bolso e olhando as horas. — Tudo tem seu tempo. Se quer fazer algo por mim, então, por favor, mantenha tudo a meu respeito em segredo. Preciso ir agora.
— Você veio a pé? — Assenti. — Vou te levar para casa. Está muito tarde!
Não estava tão tarde, mas não disse nada para contrariá-lo. Permaneci em silêncio durante todo o percurso de volta, olhando para o céu e admirando a lua que estava quase cheia. A picape parou em frente à casa da minha avó e, quando eu ia descer, Nicolas abriu o porta-luvas do carro e pegou um CD da Lisa.
— Antes de ir, pode me dar o seu autógrafo? — pediu ele.
Sorri para ele, peguei uma caneta que sempre carregava em algum bolso devido ao hábito que desenvolvi de dar autógrafos, e escrevi:
“Ao meu grande fã, Nicolas. Por favor, não se culpe mais. Beijos, Lisa.”
— Boa noite! — disse-lhe, devolvendo o CD e saindo do carro.
— Boa noite e obrigado! — consegui ouvi-lo responder antes de fechar a porta.
Entrei em casa satisfeita e, enquanto requentava o prato de jantar que minha avó deixou para mim, senti minha loba uivando alegre dentro de mim, dizendo:
“Mais um problema resolvido. Eliza, você é demais!”