Por Isabel...
Meu peito está batendo em um ritmo descompassado e alucinante. Eu só posso está vendo coisas, não é possível. Conforme corro tenho a sensação de ter alguém correndo atrás de mim, porém não me dou ao luxo de olhar para trás. Ouço Melissa gritar o meu nome mas não dou atenção indo em direção a porta dos fundos do bar.
Meus olhos ardem e minha visão embaça, me fazendo assim não enxergar o poste a minha frente quando vou atravessar a rua, então bato minha cabeça com tudo no concreto. Gemo de dor ao cair no chão e então tudo se torna ainda mais escuro.
◇
Abro os olhos no instante em que Kaio entra no meu quarto. Estou dolorida e além, minha cabeça dói tanto e por instinto levo a mão a ela sentindo o enorme g**o que ostento na testa.
- Como você está, pequenininha? - Ele pergunta me entregando um copo de suco e dois comprimidos enormes. - Bebe tudo. - Ordena no melhor estilo irmão mais velho e eu faço o que pede.
Estou tão perdida e aérea. Tive um sonho tão louco e real que quero ficar na cama o dia inteiro e não sair mais. Só a possibilidade de rever Saulo me deixando pra lá de angustiada. Não que eu não queira que ele saia daquele lugar, eu realmente não desejo para ninguém, porem espero que ele refaça sua vida em outro lugar.
Não sou ninguém para obriga-lo a isso. Por isso pedi para Kaio para nós mudarmos daquela casa que me trazia pavor e lembranças que eu não quero e ele não exitou em fazer, e com isso amenizou a dor que eu estava sentindo.
- Eu tive um sonho tão louco. - Divago e ele presta atenção. Sentado ele olha atentamente para mim.
- Sonho? - Questiona interessado.
- Sim.
Suspiro terminando de tomar o suco, coloco o copo em cima do móvel ao lado da cama e começo a contar:
- Eu tinha ido trabalhar, estava atendendo no balcão quando uma colega de trabalho chegou e disse que um cliente estava na área vip e só aceitava ser atendido por mim. Loucura eu sei - Digo - Então eu fui porque não podia escolher em ir ou não, chegando lá era ele Kaio. - Levanto da cama me pondo sentada, então levo a mão a cabeça - Foi tão real, ele levantou e eu corri para longe, a sua imagem está cravada na minha mente - Abaixo a cabeça e sinto quando uma lágrima solitária irrompe meu olho - ... e então não lembro de mais nada.
Espero que ele fale alguma coisa mas ele não diz absolutamente nada. Ele foi a pessoa que esteve comigo durante todos esses anos e sabe muito bem como eu sou louca por Saulo, cheguei ao ponto de cogitar fazer uma terapia para esquecê-lo. É uma coisa louca! Foi meu primeiro amor, primeiro beijo, minha primeira decepção. É um impacto forte!
- Bel... - Ele me chama com a voz baixa, o que me faz levantar a cabeça para olha-lo interrogativamente. - Não foi um sonho pequenininha, foi real. Saulo saiu do presídio a alguns dias. - Seu tom de voz é sério e me faz tremer ante ao que ele fala - Ele veio até mim e conversamos.
- O que?! - Grito levantando num rompante e a minha cabeça explode de dor. - Ai...
- Senta na p***a dessa cama Isabel! - Ele levanta apontando para a cama, ordenando e eu me sinto como uma garotinha - Não seja imprudente outra vez. - Grunhe me ajudando a sentar.
- Por que você não me disse. - Choramingo. - Eu iria me preparar para quando chegasse a hora Kaio. - As lágrimas descem sem que eu possa controlar e eu não me importo - Você sabe que eu ainda o amo, você sabe que eu estou machucada, e sabia que ele iria atrás de mim. Você como meu irmão poderia me poupar desse impacto. - Digo soluçando.
- Bel... - Me abraça apertado e eu choro ainda mais - Eu te amo, me desculpa por isso. Eu não pensei, merda! Ele ligou e pediu seu número, falou que queria conversar e pedir perdão, olha eu sei que fiz errado mas achei que isso acontecendo vocês seguiriam livres ou então...
Ele para deixando o fim da frase no ar. Entretanto não precisa continuar, eu sei muito bem o que ele quis dizer.
Uma coisa martela em minha cabeça e eu me afasto para olhar em seu rosto.
- Como ele tinha o seu número? Porque você mesmo disse que ele está em liberdade a poucos dias. - Questiono e o vejo se afastar, ele limpa a garganta e olha para todo o lugar menos para mim. - Vocês continuaram amigos, e isso?!
- Isabel...
- Isabel? - Um som histérico sai da minha garganta em forma de pergunta - Pelo amor de Deus, eu não acredito nisso. Você ainda manteve contato com ele depois de tudo? - Me afasto inacreditada me apoiando no móvel.
- Somos amigos Bel, você não entende. - Diz - Antes dele começar a frequentar nossa casa nos conhecíamos. O que tiveram entre vocês não tem nada haver com nossa amizade. - Engole seco e se afasta me deixando boquiaberta.
- Kaio, eu... eu estou, meu Deus. - Ponho a mão na boca sem acreditar realmente que ele disse isso.
Afinal ele nos traiu, colocou drogas e sei lá mais o quê na nossa casa, isso por si só seria motivo para eles não se falarem nunca mais. O fato de ama-lo não me faz ficar cega e perdoar uma coisa dessas.
- Ele colocou drogas na nossa casa! - Aponto para qualquer lugar - Traiu a nossa confiança, você nem estava em casa se não iria preso também, tudo porquê? Porque ele resolveu nos f***r! - Dessa vez eu grito vendo-o fechar os olhos.
- Você é só uma garota ingênua que não sabe de nada. - Murmura respirando fundo e se virando para sair do quarto.
Porém antes que faça eu pego em seu braço e aviso.
- Eu não vou permitir que ele freqüente essa casa.
Ele para então essa é a minha deixa para sair feito um furacão.
Eu preciso respirar. Digerir a notícia de que Saulo está de volta, digerir a ideia de ele e o meu irmão ainda serem amigos.
Falar ou pensar nisso soa tão absurdo que eu me sinto enjoada. Meu estômago embrulha e eu paro só para respirar. Abro a geladeira e passo segundos ou minutos olhando-a. Minha mente está em outro lugar e eu não quero isso.
Só me dou conta de está chorando quando sinto os braços do meu irmãos me amparando.
- Shii - Escondo a cabeça em seu peito - Não chora Bel, pelo amor de Deus. Você me mata mil e uma vezes quando chora pequenininha.
Ele está desesperado e eu não tenho culpa se estou sentindo tanto, e agora é diferente porque eu sei que não tem grades nos separando e pelo que conheço ele, não desistirá até falar comigo.
Lembro muito bem das suas palavras quando fui a primeira e última vez visita-lo quando fiz dezoito anos.
A minha vontade era perguntar o porquê dele ter feito aquilo.
Eu, recém dezoito anos completados a primeira coisa que fiz foi fazer a carteirinha para visita-lo. Passei por aquela humilhação de ter mulheres me apalpando achando que você é uma suposta cúmplice, já vi casos de mulheres que levam drogas dentro da v****a, celulares e outras coisas. É absurdo!
Depois da vistoria e humilhação eu fui encaminhada para uma sala, a qual era dívida por espécies de cabines, interfone e uma tela de vidro para não nos permitir contato físico com o preso. Saulo não sabia que eu vinha, porém eles avisaram que havia visitas.
Sentei na cadeira e esperei ansiosa, meu coração batia freneticamente dentro do peito e meu corpo inteiro tremia. A imagem dele surgindo e sentando a minha frente iria ficar presa em minha mente eternamente.
Eu chorei como nunca por vê-lo naquela situação.
Peguei o interfone e levei ao ouvido. A sua surpresa era visível, e merda, aquela expressão não sairá da minha mente. Nada relacionado a ele sairá.
- O que está fazendo aqui Isabel? Vá para casa pelo amor de Deus. - Ordenou frustado, fechou os olhos e suspirou.
- Eu precisava vim. - Sussurrei e ao ouvir minha voz ele colou sua testa na parede transparente que nos separava. - Porque Saulo? Confiei em você, me entreguei por completo e você simplesmente debochou.
- Não debochei... Seria um louco se fizesse. Mas foi preciso...
- Preciso? Me explica então. Eu quero entender o seu lado. Quero te perdoar. Só me explica por favor ... - Implorei e ele ficou calado.
- Eu te amo baixinha... Mas isso não tem nada haver com você. Vá para casa e não volte mais. - Seu tom mudou consideravelmente e ele se levantou. - Eu te prometo que ao sair procurarei por você e aí saberá tudo.
- Não me procure. - Sentenciei - Se não é capaz de me falar agora, não me procure Saulo.
Continuei sentada olhando-o até o momento que ele colocou o interfone com toda força no gancho e sumiu da minha vista.
A nossa conversa não durou mais que cinco minutos.
Desde aquele dia coloquei na minha mente de que o esqueceria. Esqueceria que um dia Saulo Bitencourt fodeu com a minha mente e a minha vida.
E é por isso que não quero vê-lo.
Não sei se suportaria uma conversa. Amadureci muito com os anos, mas não sei se estou pronta para essa conversa. Para perdoa-lo. Não estou.