Capitulo 7 LORENA

2896 Words
O RITUAL DA AGONIA: A OVELHA NO MATADOURO (Narrada por: Lorena Vaz) As contrações do meu estômago não paravam; eram espasmos violentos, ondas de uma náusea ácida que subiam pela minha garganta como se meu próprio corpo estivesse tentando expulsar a alma contaminada. Eu estava debruçada sobre o vaso sanitário daquele banheiro imundo, os dedos cravados na porcelana gelada e encardida, sentindo o gosto amargo do bile misturado ao pavor metálico que inundava minha boca. O som... aquele som maldito não saía dos meus ouvidos. Ele ecoava nas paredes do meu crânio com uma nitidez insuportável. Splash. Um som úmido, o rompimento de tecidos vivos, o estalo de membranas sendo obliteradas pela pressão de uma mão que não conhecia a hesitação. Viscoso. Real. Inesquecível. — O que foi aquilo, meu Deus? O que foi aquilo? — sussurrei para os azulejos descascados, minha voz saindo em um fiapo quebrado, um som que nem eu reconhecia como meu. — Ele esmagou... ele esmagou os olhos de um homem na minha frente como se fossem uvas maduras. Como se aquela vida fosse apenas um adereço de cena. Eu fechava os olhos com força, tentando buscar a escuridão, mas a escuridão era o palco dele. A imagem voltava em alta definição, queimando minhas pálpebras por dentro: o buraco n***o e profundo no rosto do Agente Silva, o sangue arterial escorrendo entre os dedos longos e tatuados do Maestro, a frieza absoluta naquele tom de voz barítono que parecia uma carícia fúnebre. Não, não, não... isso não podia estar acontecendo. Eu sentia o rastro do sangue do Silva na minha bochecha esquerda, exatamente onde os dedos dele me tocaram, e a sensação era de que a minha pele estava apodrecendo naquele ponto, uma necrose espiritual que se espalhava centímetro por centímetro. Forcei-me a levantar, minhas pernas tremendo como gelatina sob o peso do corpo. Segurei-me na pia de metal para não desabar no chão infecto. Abri a torneira e a água gelada jorrou com um estrondo; joguei-a no rosto com uma fúria desesperada, esfregando a pele até deixá-la em carne viva, tentando arrancar não apenas o vestígio físico do sangue, mas a memória celular daquele toque predatório. Olhei para o espelho manchado e vi a marca vermelha e bruta no meu pescoço, o lugar onde a minha pequena cruz de prata fora arrancada com tal violência que os elos de metal sulcaram minha carne. A pele estava viva, pulsante, um estigma, um lembrete de que agora eu carregava a marca do demônio de Porto n***o. — Vaz! — O grito de uma carcereira veterana bateu na porta de madeira, fazendo-me saltar. — O Diretor quer você na sala dele. Agora! Movimenta, novata! Sequei o rosto na farda azul-marinho, sentindo o cheiro de suor e sangue que já havia impregnado o tecido. Tentei ajeitar o coque ruivo que estava desmoronando, mas meus dedos não obedeciam. Caminhei pelo corredor administrativo como um condenado a caminho do patíbulo, ouvindo o som rítmico das minhas próprias botas, que agora soavam como o metrônomo do Maestro. A sala do Diretor era um oásis hipócrita de ar-condicionado e cheiro de café fresco, mas para mim, parecia apenas uma extensão luxuosa de uma cela. O Diretor, o Dr. Arnaldo, um homem de cabelos brancos meticulosamente penteados e olhos que carregavam o cinismo de quem já vendeu a alma ao sistema há décadas, me observou por cima dos óculos de leitura. Ele viu a mancha escura de sangue no meu ombro. Ele viu a gaze improvisada no meu pescoço. — Sente-se, Lorena — ele disse, com uma voz desprovida de qualquer empatia, apontando para a cadeira de couro em frente à sua mesa maciça de mogno. — O Agente Rocha me contou o que aconteceu na Cela 13. O Maestro gosta de dar as boas-vindas aos novos funcionários à maneira dele. Ele é um... entusiasta das apresentações dramáticas. Eu não conseguia articular uma frase. Minha mandíbula estava travada pelo tremor incontrolável que subia das minhas mãos. O ar frio da sala parecia congelar o suor na minha nuca. — Vou ser direto, Vaz — ele continuou, cruzando as mãos gordas sobre a mesa. — O que você viu lá embaixo foi apenas uma fração, um interlúdio do que Henrique Falcão é capaz de orquestrar. O Estado não manda naquele pavilhão; Henrique Falcão manda. Eu preciso saber agora, por uma questão de protocolo e de sobrevivência, se você ainda pretende permanecer nos quadros da instituição. Se quiser ir embora, eu assino sua dispensa por trauma agora mesmo. Ninguém nesta unidade vai te culpar por fugir do inferno antes de ser devorada por ele. Eu abri a boca. A palavra "sim" estava na ponta da minha língua, pronta para ser gritada. Eu queria berrar que queria ir embora, que queria correr até que meus pulmões queimassem, que queria abraçar o Samuel e nunca mais deixar que ele visse o mundo através de grades. Mas então, a imagem do meu filho inundou minha mente. Samuel calçando as meias ao contrário e rindo. Samuel desenhando dinossauros com giz de cera. Samuel sendo humilhado pelo silêncio gélido do Pastor Silas. Se eu saísse dali, para onde eu iria? Eu não tinha dinheiro, não tinha casa, não tinha para onde fugir além da tirania do meu pai. A fome e o desabrigo eram monstros tão reais quanto o Maestro. — Eu... eu fico — minha voz saiu como um sussurro trêmulo, mas carregado de uma decisão desesperada. O Diretor assentiu, e por um breve segundo, juro que vi uma centelha de pena naqueles olhos cansados. Ou talvez fosse apenas o reflexo da luz. — Então você precisa saber o seu novo posto oficial. Devido à sua "proximidade" imediata com o detento da Cela 13 e ao fato de ele ter demonstrado um... interesse singular em sua presença, a partir de amanhã, você ficará à frente da custódia direta da Ala M. Você será a responsável exclusiva por levar as refeições dele, fazer a conferência de segurança da grade e garantir que a cela dele permaneça nos padrões exigidos. Minha respiração parou. O oxigênio parecia ter sido sugado da sala. Ele estava me entregando de bandeja para o predador. — Não! — O grito escapou da minha garganta, rompendo o silêncio do escritório. — Não, por favor... senhor Diretor, me mande para qualquer outra área! Me coloca na lavanderia, na limpeza pesada, na cozinha, na guarda externa dos muros... mas lá não! Eu não posso voltar para aquele corredor. Não depois do que eu vi. Aquele homem... ele me marcou. Ele destruiu o Silva na minha frente! O Diretor nem piscou. Ele inclinou o corpo para frente, a luz fria do teto refletindo na sua calvície, tornando sua expressão uma máscara de autoridade implacável. — Por isso perguntei se você ia querer ficar, Lorena. Eu fui bem claro: o Estado não manda naquele pavilhão. — Ele suspirou, um som exausto de quem já se rendeu. — O Maestro exige você. Somente você. Ele mandou o recado pelo Rocha antes mesmo de você subir para o vestiário. O aviso foi curto: se não for a "santinha ruiva" a levar o café e conferir a grade amanhã cedo, ele fecha o pavilhão. E você sabe, ou deveria saber, o que acontece quando a Ala M fecha por ordem do Maestro. Porto n***o entra em estado de guerra. O Morro do Alvorecer explode, os ônibus são queimados e a contagem de corpos na cidade começa a subir antes do meio-dia. — Mas ele é um detento! — Eu quase gritei, a indignação lutando contra o pavor que subia pela minha espinha como uma serpente de gelo. — Ele está atrás das grades! Ele não pode ditar as regras! O senhor é o diretor! Os guardas têm fuzis! Como um psicopata trancado em uma cela de isolamento dita quem trabalha? Isso é uma loucura, é uma inversão de tudo o que é sagrado! O Diretor deu um sorriso amargo, um movimento de lábios que não carregava nenhuma alegria, apenas uma aceitação sombria da derrota. — Lorena, você ainda carrega a inocência da igreja no seu sangue. Henrique Falcão não está "preso". Ele está apenas em um centro de comando mais seguro, protegido pelas nossas paredes. O Morro do Alvorecer inteiro responde ao estalar de dedos dele. Se ele se sentir "desrespeitado" porque não enviamos quem ele pediu, ele começa uma rebelião aqui dentro que vai custar a vida de agentes que têm família. Agentes que, ao contrário de você, não despertaram o interesse dele. Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para o pátio onde os fuzis dos guardas nas torres brilhavam sob o sol indiferente de Porto n***o. — Aqui dentro, o direito de exigir pertence a quem tem o poder de matar sem precisar sair do lugar. E esse homem é o Maestro. Ele não quer uma carcereira experiente, bruta, que já está comprada pelo esquema ou quebrada pelo sistema. Ele quer você. Ele quer o seu medo fresco, a sua pureza sendo corroída... ele quer ver até onde a sua fé em um Deus invisível aguenta o tranco diante de um demônio que ele pode tocar. Senti um calafrio tão violento que meus dentes começaram a bater audivelmente. O Maestro não queria uma funcionária. Ele queria um novo instrumento para a sua sinfonia de dor. Ele queria a plateia que ele havia marcado com o sangue do Silva. — Se eu for lá... ele vai terminar de me destruir — sussurrei, as lágrimas voltando a arder nos meus olhos, nublando minha visão. — Ou você aprende a domar o monstro, ou ele te devora. A escolha final é sua, Vaz. Mas se decidir ficar, o seu turno na Ala M começa amanhã, pontualmente às seis da manhã. Você vai levar o café dele. Sozinha. Sem escolta no corredor. O Rocha só vai te abrir o portão hidráulico. O resto é entre você e o regente. O Diretor voltou a se sentar, e o som da cadeira de couro rangendo pareceu o eco de uma sentença de morte definitiva. Ele abriu uma pasta parda sobre a mesa e, com uma caneta, circulou um dado específico no meu formulário de admissão que eu esperava que passasse despercebido. — Tem outra coisa, Lorena. — O tom dele baixou, tornando-se subitamente paternal, uma mudança de frequência que me assustou mais do que sua frieza anterior. — Eu vi aqui no seu relatório de RH... você tem um filho. Samuel Vaz, quatro anos. O sangue fugiu do meu rosto instantaneamente, deixando-me pálida como um cadáver. Senti meu estômago despencar em um vácuo infinito. Ouvir o nome do meu filho naquele escritório, naquele prédio que cheirava a morte, soava como uma profanação insuportável. — Vou te dar um conselho de quem ainda tem um resto de consciência: não fale sobre ele aqui dentro. Nunca. Para ninguém. — Ele me encarou com uma seriedade mortal. — O Maestro é um mestre em farejar fraquezas. Ele não precisa de facas ou fuzis quando tem informações. Se ele cismar com você, se decidir que você é a nova solista da orquestra dele e descobrir que você tem um pequeno vulnerável em casa... a segurança do Samuel vira moeda de troca no primeiro segundo de conversa. Entendeu? O desespero começou a subir pela minha garganta, uma onda sufocante de pânico puro. Eu já conseguia visualizar a cena na minha mente doente: o Maestro, com as mãos ainda sujas de sangue, sussurrando o nome do Samuel através das grades da Cela 13, descrevendo o que faria com ele se eu não obedecesse à sua batuta. — Por que o senhor está me dizendo isso agora? — minha voz saiu aguda, um ganido de animal ferido. — O senhor está admitindo que não pode proteger nem a mim e nem ao meu filho? Que o Estado se ajoelha para um traficante psicopata? — Estou te dizendo a verdade nua e crua para você não cometer erros fatais por ignorância. — Ele fechou a pasta com um baque seco, um som de fim de conversa. — Amanhã, às seis. O Rocha vai te entregar a bandeja de metal na entrada da galeria. Ele não vai entrar com você. Ninguém entra. O Maestro quer exclusividade no seu batismo oficial. Agora saia, Vaz. Tente dormir. A Noite do Medo Saí da sala do diretor sentindo que o chão de granito tinha se transformado em areia movediça. Cada passo era um esforço hercúleo. Atravessei o pátio da penitenciária sob os olhares predatórios e os assobios dos detentos que ainda estavam no banho de sol, mas eu não ouvia mais as obscenidades. Eu só sentia o peso esmagador daquela farda azul-marinho, manchada pelo fluido vítreo dos olhos do Silva, como se o uniforme pesasse quinhentos quilos. Busquei o Samuel na creche. Quando o portão se abriu e ele correu para os meus braços, gritando "mamãe!" com aquela alegria que só as crianças têm, eu desabei por dentro. Chorei. Chorei escondida no pescoço dele, aspirando o cheiro de sabonete e infância, apertando-o com tanta força que ele soltou um pequeno gemido de reclamação. — Tá doendo, mamãe! Você tá me apertando muito! — ele disse, rindo, tentando se soltar para me mostrar um desenho. — Desculpa, meu furacão. A mamãe estava com muita, muita saudade. Só isso. Chegar em casa foi um suplício adicional. O Pastor Silas estava na sala, a televisão ligada em um telejornal que mostrava imagens de helicóptero do Morro do Alvorecer, falando sobre a tensão na comunidade. Ele me olhou com o desdém habitual, notando minha palidez e o estado deplorável da minha farda. — O lixo das celas já começou a impregnar em você, Lorena? — ele perguntou, sua voz carregada de um julgamento ácido, sem tirar os olhos da tela. — Você cheira a pecado, a derrota e a lama. Eu avisei que esse emprego era a sua ruína. — O senhor não tem a menor ideia do que eu cheiro, Silas — respondi, sem forças nem para sentir raiva, indo direto para o banheiro. Tranquei a porta e entrei no banho. Esfreguei minha pele com uma bucha vegetal até deixá-la em carne viva, vermelha, quase sangrando. Eu queria arrancar o rastro invisível do sangue do Maestro, queria apagar o cheiro de ferro e morte que parecia ter se fixado nos meus poros. Olhei para o espelho embaçado e vi a cicatriz na minha nuca, onde a cruz fora arrancada. Estava inchada, latejando em um ritmo macabro que acompanhava a batida do meu coração. Eu sentia que, embora estivesse em casa, eu nunca mais estaria segura. Não dormi. Passei a noite inteira sentada no chão de madeira fria, encostada na porta do quarto do Samuel, como uma sentinela desesperada. Eu vigiava cada respiração dele enquanto a chuva batia com violência na janela de vidro. Cada trovão que ecoava no céu de Porto n***o soava para mim como o portão hidráulico da Ala M se abrindo para me engolir. Tentei fechar os olhos por um segundo, mas a escuridão era minha maior inimiga. No momento em que minhas pálpebras se selavam, a galeria se reconstruía com uma perfeição terrível na minha mente. Eu via a Cela 13. Via a cadeira de ferro. Mas no sonho, não era o Silva que estava amarrado com arame farpado. Era o Samuel. E o Maestro, com aquela calma cirúrgica e um sorriso que era puro vazio, aproximava a colher de metal dos olhos castanhos e brilhantes do meu filho, murmurando que ele precisava "aprender a ver a sinfonia". Acordei em um solavanco, o peito subindo e descendo freneticamente, o suor frio encharcando meu pijama. Meu grito morreu na garganta antes de sair, abafado pela minha mão que levei à boca para não acordar a casa. O silêncio da residência era interrompido apenas pelo tique-taque indiferente do relógio na sala e pela respiração pesada do meu pai no quarto ao lado. — Me dá forças, meu Deus... por favor... se o Senhor ainda estiver me ouvindo — sussurrei, caindo de joelhos no tapete gasto. — Eu nunca vi um homem assim. Aquilo não é humano. Aquilo é o nada absoluto. Eu tremia tanto que meus dentes batiam uns nos outros, produzindo um som seco no quarto escuro. A imagem dos globos oculares sendo esmagados parecia projetada na parede branca pelo projetor do inferno. O som de splash ecoava, rítmico, como se o Maestro estivesse ali, sentado nas sombras do canto do meu quarto, regendo o meu pavor com sua batuta invisível. Como eu ia conseguir olhar para ele amanhã? Como eu ia entrar naquela ala sabendo que o Estado, o Diretor e a própria justiça tinham me entregue como uma oferenda de paz para um monstro? — É pelo Samuel. É pelo Samuel — repeti o mantra centenas de vezes, tentando desesperadamente substituir o rosto gélido do Maestro pelo sorriso banguela do meu filho. Levantei-me e fui até o banheiro novamente. Lavei o rosto com água gelada, mas a marca no meu pescoço continuava latejando sob a gaze. Parecia que a mão dele ainda estava ali, cravada na minha nuca, puxando-me inexoravelmente para o abismo. Eu sentia que, a cada vez que eu respirava, o ar contaminado da penitenciária entrava mais fundo em mim, levando embora a Lorena que ainda acreditava em milagres e substituindo-a por uma mulher feita de medo e sobrevivência.
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