capitulo 12 Rocco

1906 Words
A SINFONIA DO CAOS: O PRÍNCIPE NA TERRA DOS SANTOS (Narrado por: Rocco Falcão) Desci o morro fritando pneu, fazendo o motor do meu brinquedo importado rugir mais alto que o coro de anjos que eu estava prestes a visitar. Deixei um rastro de borracha queimada na entrada da favela e o ego do Cicatriz lá no topo, provavelmente ainda querendo furar a minha testa com aquela Glock de estimação dele. Liguei o rádio no talo, um funk proibidão daqueles que faz o vidro vibrar até quase estourar, só pra espantar o clima de velório e asfixia que aquele presídio e a cara de defunto do meu irmão deixaram em mim. O destino? A "Catedral do Martelo", o palácio de mármore e ouro onde o Pastor Silas faz a mágica de transformar a fé dos otários em conta bancária gorda e carro blindado. Estacionei a minha máquina bem na frente da entrada principal, ocupando duas vagas com a maior folga do mundo, porque o meu tempo vale o dobro e a minha paciência é metade da de um ser humano comum. Fiquei ali, encostado no capô de fibra de carbono, dando aquele trato no cabelo no reflexo do vidro fumê e observando o movimento das ovelhas entrando pro abate espiritual. O som que saía de dentro daquela igreja era uma mistura de gritaria histérica com um teclado de churrascaria de beira de estrada, um troço desafinado que me deu uma agonia no ouvido de dar dó. — p**a que pariu, o povo gosta de um barulho cafona, hein? — Falei sozinho, dando um gole num energético gelado que estalava na garganta. — Se o Henrique ouve essa falta de harmonia e esse tempo errado, ele entra aqui e arranca o tímpano de geral só por misericórdia musical. O Maestro não ia aguentar dois minutos nesse solo de sintetizador barato. Passou dez, vinte minutos e nada do "amém" final. Eu já tava quase ligando pro Cicatriz pedindo pra ele mandar uns moleques com uma granada de efeito moral só pra ver se o culto acelerava o passo. Perdi a paciência. Ajeitei minha jaqueta de couro de grife, conferi se o meu sorriso de galã de novela das nove tava no ponto e caminhei em direção àquele portão dourado, que de tão brega chegava a brilhar no olho. Parei na entrada, exatamente na linha tênue entre o sol quente da rua e o tapete vermelho felpudo do templo. Olhei pro teto, pros vitrais coloridos que contavam histórias de gente que morreu há dois mil anos, e fiz um sinal de cruz todo torto, só de s*******m, sentindo o peso da minha medalha de ouro no peito. — E aí, será que se eu meter o pé aqui dentro o teto desaba na minha cabeça? — Murmurei, sentindo aquela adrenalina gostosa de quem tá exatamente onde não devia estar. — Porque, tecnicamente, eu sou o irmão caçula do capeta em pessoa. Se eu começar a pegar fogo espontaneamente, espero que esse ar-condicionado deles seja potente, porque essa jaqueta aqui custou o olho da cara... e eu não quero que o Maestro me mate por dar prejuízo no figurino antes da hora. Dei o primeiro passo. O chão não abriu. Dei o segundo. Ninguém caiu morto fulminado por um raio. — É, acho que o porteiro do céu foi tomar um cafézinho e esqueceu de barrar a entrada do pecado original — debochei, entrando de vez com as mãos no bolso e aquela cara de quem tá procurando o bar mais próximo. O clima lá dentro tava fervendo, parecia um caldeirão. O Pastor Silas tava lá no palco, o rosto vermelho igual um pimentão de tanto gritar, a gravata torta e uma Bíblia imensa na mão que ele sacudia como se fosse um porrete pra bater em demônio invisível. O cara tem um gogó de ouro, reconheço o talento de estelionatário, mas o olhar dele... nossa, aquele olhar é mais seco que deserto do Saara ao meio-dia. É o olhar de quem manda e desmanda, bem parecido com o do Henrique, só que com uma capa de "glória". Me escondi atrás de uma pilastra de gesso metida a coluna grega, cruzando as pernas e observando o show de camarote. Uma tiazinha do lado, vestida com uma saia que ia até o tornozelo, me olhou com uma cara de "quem é esse boy maravilhoso e perdido?", e eu dei uma piscadinha matadora pra ela, fazendo o sinal de silêncio com o dedo nos lábios. — Relaxa, dona, vim só ver se o pastor de vocês é tudo isso mesmo ou se o palco dele tá precisando de um novo maestro pra afinar o coro — sussurrei, fazendo a mulher ficar roxa de confusão e provavelmente começar a rezar pela minha alma ali mesmo. Fiquei ali, curtindo a performance. O Silas falava de demônios, de fogo consumidor, de gente perdida nas trevas... m*l sabia ele que o "filho do d***o" tava ali no fundo, avaliando o corte do terno dele e esperando a hora de seguir o rastro até a ovelhinha ruiva dele. Eu só precisava saber onde a Lorena escondia o segredo dela, e o pai dela parecia o mapa perfeito pra esse tesouro sujo. O culto tava chegando no clímax, o Silas tava quase tendo um troço, suando em bica, expulsando encosto até de quem não tinha, e eu aqui atrás, rachando o bico com a situação. A tiazinha do meu lado tava quase entrando em transe, com os olhos revirados, e eu resolvi que o show precisava de um coadjuvante de peso pra ficar mais divertido. — Ô, tia! — Dei um cutucão de leve no colovelo dela, bem na hora que ela ia dar um grito. — O pastor ali é sempre desse jeito ligadão no duzentos e vinte, ou hoje ele tomou um energético batizado antes de subir? O homem tá mais acelerado que o Henrique quando alguém desafina a nota no morro! Se ele gritar mais um pouco, o pulmão sai pela boca! A mulher deu um pulo de susto, me olhou de cima a baixo, reparando no brilho da minha corrente grossa e no corte impecável do meu cabelo. Ela devia tá achando que eu era um anjo que caiu do céu por engano, ou um traficante que se arrependeu no meio do caminho. No meu caso, a segunda opção tava bem mais perto da realidade, mas sem a parte do arrependimento, claro. Arrependimento não paga as minhas contas. — Ai, meu filho! O Pastor Silas é uma labareda viva do Espírito! — Ela sussurrou, toda empolgada e suada. — Você é novo aqui? Veio buscar a libertação de algum vício ou encosto? — Ah, com certeza, dona! Vim buscar a libertação de uma dúvida c***l que tá me matando: se o céu tem um ar-condicionado desse nível, eu topo até virar coroinha amanhã mesmo! — Pisquei pra ela, que deu um risinho nervoso, sem saber se ria ou se me repreendia. — Mas me diz uma coisa aqui, no sapatinho... ele tem família, né? Uma filha ruiva, bonitona, que trabalha com... segurança? Sabe como é, eu sou muito fã do trabalho social da família Vaz e queria fazer uma doação generosa, mas queria entregar em mãos pra pessoa certa. A velha já ia abrir o bico, provavelmente pronta pra me passar o itinerário completo da Lorena, mas o Silas deu o último grito de "Amém!" que quase estourou os vidros da igreja, e a multidão começou a se dispersar naquele alvoroço de gente santa. Eu fiquei ali, encostado na pilastra, fazendo pose de quem tava muito tocado pela palavra, um verdadeiro pecador em redenção, quando sinto aquela sombra pesada se aproximando. O cheiro de suor misturado com um perfume barato de alfazema anunciou o homem antes dele abrir a boca. O Pastor Silas veio vindo na minha direção, limpando a testa com um lenço branco que parecia uma bandeira de rendição de tanto suor. Ele parou na minha frente, me medindo de cima a baixo com aquele olhar de águia que quer saber se o meu dízimo ia ser em cheque, em dinheiro vivo ou em barras de ouro. — Você é novo aqui, meu filho? — Ele perguntou, forçando aquela voz de "pai de todos", um tom aveludado de comercial, mas os olhos dele tavam fixos no relógio de ouro e diamantes no meu pulso. O radar de luxo dele tava apitando alto. — Nunca vi esse seu rosto tão... iluminado na minha humilde congregação. O que o trouxe à casa do Senhor em uma tarde de terça-feira? Eu fiz a minha melhor cara de comédia, aquela que engana até detector de mentiras de última geração. Dei um sorriso de orelha a orelha, mostrando todos os dentes branquinhos, e estendi a mão pra ele com uma energia que quase o deslocou do lugar, sentindo a vontade de rir subir pelo meu estômago como um gás de refrigerante. — Ixi, pastor! O senhor nem imagina o impacto! — Falei, segurando a mão dele com uma força de "irmãozão" de longa data. — Eu tava passando aí na frente, o motor do meu carro deu uma falhada bem na porta, ouvi essa harmonia maravilhosa, esse teclado nível internacional que o senhor tem aí, e pensei: "Rocco, meu filho, é hoje que tu entra e descobre se o teto desaba com a tua presença de pecador!". E não é que o teto é firme, senhor? Nota dez pra engenharia divina de Porto n***o! Fiquei até emocionado com o grito que o senhor deu ali no final, quase senti o bicho saindo de mim! O Silas ficou meio paralisado, sem saber se me abençoava, se me expulsava ou se chamava o segurança pra conferir se eu não tava armado. Eu continuei o show, sem dar um segundo de espaço pra ele processar a minha audácia: — Meu rosto tá iluminado? Deve ser o reflexo do sol lá fora, ou talvez seja a alegria pura de ver que o senhor tem um gogó de dar inveja em muito cantor de baile proibidão lá do morro! — Soltei essa e vi o olho dele dar uma tremidinha. — Vim buscar uma direção, sabe? O senhor parece um homem que entende de ovelhas desgarradas e de como manter a ordem na casa. Tenho um interesse especial na linhagem dos Vaz. Dizem que o senhor criou a sua filha, a Lorena, com punho de ferro, né? Admiro isso. Homem de fibra cria gente de fibra. O Silas estreitou os olhos, a pose de santidade vacilando por um segundo, dando lugar a uma desconfiança afiada. E eu ali, por dentro, só pensando no deleite: "p**a que pariu, se esse velho soubesse que eu sou o irmão caçula do cara que esmagou os olhos do guarda ontem e que tá fazendo a filha dele lamber o chão da cela agora mesmo, ele subia naquele altar, se trancava no batistério e não descia nunca mais!". — Direção é o que não falta nesta casa, rapaz. O caminho é estreito, mas a recompensa é grande — Ele disse, recuperando o tom empostado, mas ainda me vigiando como um guarda de muralha. — Mas você parece um jovem... muito agitado. Muito focado nas coisas do mundo. O que exatamente você quer saber sobre a minha linhagem? A Lorena é uma serva dedicada, mas o trabalho dela a mantém longe das distrações mundanas. Como você a conhece?
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