Capitulo 4 Maestro

730 Words
Saí daquela sala com os ouvidos zumbindo, atravessando o salão de luxo como se estivesse em um campo de batalha, sentindo os olhos da recepcionista queimarem nas minhas costas. O sol de Porto n***o me atingiu no rosto como um tapa de realidade assim que pisei na calçada quente. Abri a bolsa e contei as moedas: só tinha dinheiro para mais três passagens. O fracasso pesava toneladas. Sentei no banco do ponto de ônibus, escondi o rosto nas mãos e deixei que as lágrimas de ódio escorressem. Eu tinha falhado. Como eu voltaria para casa e olharia para o Samuel? Como suportaria o silêncio punitivo e os olhos inquisidores do meu pai? — Deus, se o Senhor existir e não for só uma invenção do meu pai para me bater... me mostra uma porta. Qualquer uma. Eu não vou me vender — sussurrei para o vento sujo da avenida. Foi quando meus olhos, nublados pelo choro, focaram em um cartaz colado de qualquer jeito no poste de iluminação, meio rasgado, mas ainda legível. As letras eram pretas, agressivas, e pareciam gritar no meio da sujeira urbana: "PROCESSO SELETIVO EMERGENCIAL: AGENTES PARA O SISTEMA PRISIONAL ESTADUAL. VAGAS PARA O SETOR DE SEGURANÇA MÁXIMA. SALÁRIO ACIMA DA MÉDIA. CONTRATAÇÃO IMEDIATA." O sistema prisional. O buraco n***o do Estado. O lugar onde a sociedade enterra seus demônios e finge que eles não existem. O salário descrito era o triplo do que qualquer restaurante pagaria. Não exigia nada além de coragem, resistência e um ensino médio completo. E se havia algo que a vida em Porto n***o, a maternidade solo e os anos sob o chicote de Silas tinham me dado em abundância, era coragem para encarar o inferno de frente. Arranquei o papel do poste. Minhas mãos, antes trêmulas pela humilhação, agora estavam firmes como aço frio. Eu olhei para aquele anúncio e vi o meu destino escrito em letras garrafais. Se o mundo queria me tratar como se eu vivesse no lodo, eu ia para o lugar onde o lodo era a única regra. Eu ia entrar naquela tranca, ia encarar o que fosse preciso, mas o Samuel teria uma vida digna. Ele teria um futuro, nem que eu tivesse que vigiar as portas do próprio abismo para garantir isso. O endereço me levou até a zona industrial de Porto n***o, uma área cinzenta onde a fumaça das fábricas e o concreto armado das estruturas governamentais criavam um cenário de fim de mundo. O prédio da Secretaria de Administração Penitenciária era uma fortaleza de granito bruto, com janelas tão estreitas que pareciam fendas de observação de um castelo medieval. Meus pés latejavam, a sola do sapato estava prestes a se desintegrar, mas a imagem do Samuel pulando na cama de manhã me dava um impulso que nenhuma fadiga conseguia frear. Parei diante da guarita de entrada. O vidro blindado refletia meu rosto cansado, mas meus olhos... meus olhos tinham mudado. Havia uma centelha de perigo neles. Um guarda com o rosto esculpido em mármore me encarou, os olhos exaustos de quem já viu toda a miséria humana passar por ali. — Pois não? — a voz dele veio distorcida pelo interfone rachado. — Vim pelo anúncio do processo seletivo emergencial. Agente de segurança máxima. Onde eu me inscrevo? — respondi, mantendo o queixo erguido. O guarda me mediu de cima a baixo. Ele viu a blusa social barata, o rosto pálido e a fragilidade aparente de uma menina de dezenove anos. — É pra Segurança Máxima, moça. Você tem noção do que está pedindo? O salário é alto porque o risco é o triplo. Metade dos marmanjos que entram aqui desistem quando ouvem o primeiro grito lá de dentro ou sentem o cheiro do pavilhão — ele advertiu, num tom quase paternal, mas carregado de ceticismo. — Eu não tenho medo de gritos, senhor. Eu vivo em um há dezenove anos. Eu preciso do trabalho e garanto que meu estômago é mais forte do que o seu ceticismo — retruquei, sustentando o olhar dele. A catraca girou com um som metálico pesado, um estalido que ecoou no meu peito como o início de uma nova era. — Terceiro andar, sala 302. Recursos Humanos. Se você não tiver r**o preso com a polícia e tiver estômago para aguentar o que tem lá dentro, faz os testes hoje mesmo. Boa sorte, você vai precisar.
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