Capitulo 2 Continuação

2554 Words
O restaurante "La Tavola" não era apenas um estabelecimento comercial; era um santuário erguido ao deus do dinheiro e do privilégio, encravado no coração do bairro mais nobre de Porto n***o. Ali, o ar não fedia a asfalto derretido ou a esgoto aberto como na minha rua; ele exalava um perfume caro de azeite trufado, vinhos envelhecidos e o aroma polido de gente que nunca precisou contar moedas para completar o preço do leite. O contraste com a minha realidade era uma bofetada seca. Eu sentia o peso do ônibus lotado ainda impregnado na minha pele, o suor da jornada de duas horas sob o sol causticante secando de forma pegajosa na minha nuca. Eu alisava minha saia incessantemente, um gesto nervoso para tentar disfarçar o desgaste evidente do tecido e uma mancha quase imperceptível que insistia em me lembrar da minha pobreza. Meus sapatos, com a sola tão fina que eu conseguia sentir cada irregularidade do mármore impecável da recepção, pareciam gritar que eu não pertencia àquele lugar. Minhas mãos suavam frio. Cada segundo de espera era um cronômetro regressivo na minha mente: um minuto a menos com o Samuel, um minuto mais perto do toque de recolher imposto pelo meu pai, o Pastor Silas, e um minuto a mais de humilhação silenciosa sob os olhares de desdém dos clientes que entravam e saíam. — Lorena Vaz? O Sr. Alberto vai te receber agora. Me acompanhe, por favor — anunciou uma recepcionista cujos dentes eram mais brancos que a minha alma naquele momento. O sorriso dela era mecânico, uma máscara de cortesia que morria antes de atingir os olhos. Entrei no escritório e o choque térmico do ar-condicionado me fez estremecer. Era um ambiente de madeira escura, poltronas de couro legítimo e o silêncio opressor que só o poder consegue manter. Alberto era a personificação daquela elite: um homem de meia-idade, com um anel de ouro maciço que reluzia a cada movimento e um olhar predatório que me despiu antes mesmo de eu me sentar. Ele folheou meu currículo como se estivesse manuseando um papel sujo. — Sente-se, Lorena — ele disse, com uma voz aveludada que me causava arrepios de repulsa. — Notas excelentes na escola... melhor da turma, vejo aqui. Mas não terminou a faculdade de Enfermagem. Por que uma menina tão brilhante desistiria de um futuro assim? — Eu tive um imprevisto pessoal de força maior, senhor. Mas sou extremamente dedicada, aprendo qualquer função em tempo recorde e não tenho medo de trabalho pesado — respondi, tentando manter a coluna ereta, a postura de quem não se deixa dobrar. — O "imprevisto" tem quatro anos agora, certo? — Ele inclinou o corpo para frente, um sorriso malicioso brincando nos lábios finos. — Eu conheço bem o seu tipo, Lorena. Menina de igreja, criada em redoma, que acaba se "perdendo" no primeiro brilho que vê pela frente... e agora está aí, sozinha, com uma criança no colo e o mundo cobrando a conta. O nó na minha garganta era uma corda de cânhamo me sufocando. Eu precisava daquela vaga de garçonete. Precisava das gorjetas para comprar o antibiótico do Samuel, para trocar os tênis dele que já estavam furados na ponta, para ter o direito de respirar sem pedir licença ao Silas. — Sou mãe solo, sim, senhor. Mas meu estado civil não define minha competência. Meu filho fica na creche em tempo integral e eu não falto um dia sequer — afirmei, a voz vibrando de uma dignidade que ele claramente não esperava. Alberto apoiou os cotovelos na mesa, e o cheiro de tabaco caro misturado a um perfume amadeirado inundou meus sentidos. Ele baixou o tom, tornando a conversa perigosamente íntima. — Veja bem... o La Tavola exige disponibilidade total. Fechamos tarde, às vezes passamos da meia-noite. Uma mulher com "obrigações domésticas" e um filho bastardo costuma ser um problema administrativo... A menos que — ele fez uma pausa dramática, deixando os olhos vagarem descaradamente pelo meu decote — ... que ela saiba ser muito grata pela oportunidade que estou oferecendo. — Eu serei grata, senhor. Trabalharei em dobro para compensar qualquer dúvida — eu disse, ainda tentando manter a ingenuidade como escudo. — Você ainda não entendeu, gracinha — ele sussurrou, a máscara de patrão caindo para revelar o monstro por baixo. — Eu preciso de funcionárias que saibam retribuir a confiança do patrão de formas mais... diretas. Você é uma mulher bonita, Lorena. Um desperdício passar a noite carregando bandeja e sendo maltratada por cliente rico quando poderia estar aqui em cima, no ar-condicionado, sendo "legal" comigo. Se você for flexível, eu garanto que sua vida e a do seu filho fiquem bem confortáveis. O sangue subiu para o meu rosto como uma labareda. Não era vergonha; era uma fúria ancestral que despertava nas minhas entranhas. Era o mesmo olhar de "carne de segunda" que recebi no hospital, o mesmo julgamento que Silas cuspia no café da manhã, mas agora temperado com a luxúria nojenta de um homem que achava que meu desespero tinha um preço s****l. — O senhor está me oferecendo um emprego ou está tentando me prostituir por um salário mínimo? — perguntei, levantando-me com uma rapidez que fez a cadeira arrastar no chão com um som estridente. Alberto soltou uma gargalhada seca, fria. Ele se recostou, a face agora endurecida pelo desprezo de quem foi rejeitado por quem considera inferior. — Estou oferecendo a realidade, garota estúpida. Quem você acha que vai te dar uma chance? Uma mãe solteira, sem experiência, sem sobrenome e com o pai pastor te odiando? Você devia cair de joelhos e agradecer por eu ter te achado interessante. Sem o meu "apoio", você e seu bastardo vão acabar comendo lixo em menos de um mês. — O nome dele é Samuel — minha voz saiu como um trovão, baixa e carregada de uma autoridade que eu não sabia que possuía. — E ele nunca vai passar fome, porque ele tem uma mãe que tem honra, algo que o senhor não conseguiria comprar nem com todo o ouro desse restaurante imundo. Saí daquela sala com os ouvidos zumbindo, atravessando o salão de luxo como se estivesse em um campo de batalha. O sol de Porto n***o me atingiu no rosto como um tapa de realidade assim que pisei na calçada. Abri a bolsa e contei as moedas: só tinha dinheiro para mais três passagens. O fracasso pesava toneladas. Sentei no banco do ponto de ônibus, escondi o rosto nas mãos e deixei que as lágrimas de ódio escorressem. Eu tinha falhado. Como eu voltaria para casa? Como suportaria o silêncio punitivo do meu pai? — Deus, se o Senhor não for apenas uma invenção do meu pai para me bater... me mostra uma porta. Qualquer uma que não exija que eu me venda — sussurrei para o nada. Foi quando meus olhos, nublados pelo choro, focaram em um cartaz colado de qualquer jeito no poste de iluminação. As letras eram pretas, agressivas, e pareciam gritar no meio da sujeira urbana: "PROCESSO SELETIVO EMERGENCIAL: AGENTES PARA O SISTEMA PRISIONAL ESTADUAL. VAGAS PARA O SETOR DE SEGURANÇA MÁXIMA. SALÁRIO ACIMA DA MÉDIA. CONTRATAÇÃO IMEDIATA." O sistema prisional. O buraco n***o do Estado. O lugar onde a sociedade enterra seus demônios. O salário descrito era o triplo do que qualquer restaurante pagaria. Não exigia nada além de coragem e um ensino médio completo. E se havia algo que a vida em Porto n***o e os anos sob o chicote verbal de Silas tinham me dado em abundância, era coragem para enfrentar o inferno de frente. Arranquei o papel do poste. Minhas mãos, antes trêmulas, agora estavam firmes como aço. Eu olhei para aquele anúncio e vi o meu destino. Se o mundo queria me tratar como se eu vivesse no lodo, eu ia para o lugar onde o lodo era a única regra. Eu ia entrar naquela tranca, ia encarar o que fosse preciso, mas o Samuel teria uma vida digna. Ele teria um futuro, nem que eu tivesse que vigiar as portas do próprio abismo para garantir isso. O endereço me levou até a zona industrial de Porto n***o, uma área cinzenta onde a fumaça das fábricas e o concreto armado das estruturas governamentais criavam um cenário de fim de mundo. O prédio da Secretaria de Administração Penitenciária era uma fortaleza de granito bruto, com janelas tão estreitas que pareciam fendas de observação de um castelo medieval. Meus pés latejavam, a sola do sapato estava prestes a se desintegrar, mas a imagem do Samuel me dava um impulso que nenhuma fadiga conseguia frear. Parei diante da guarita de entrada. O ar-condicionado interno criava uma névoa no vidro blindado. Um guarda com o rosto esculpido em mármore me encarou, os olhos cansados de quem já viu de tudo. — Pois não? — a voz dele veio distorcida pelo interfone rachado. — Vim pelo anúncio do processo seletivo emergencial. Agente de segurança máxima. Onde eu me inscrevo? — respondi, mantendo o queixo erguido e a voz o mais neutra possível. O guarda me mediu de cima a baixo. Ele viu a blusa social barata, o rosto pálido e a fragilidade aparente. — É pra Segurança Máxima, moça. Você tem noção do que está pedindo? O salário é alto porque o risco é o triplo. Metade dos marmanjos que entram aqui desistem quando ouvem o primeiro grito lá de dentro — ele advertiu, num tom quase paternal, mas carregado de ceticismo. — Eu não tenho medo de gritos. Eu vivo em um há dezenove anos. Eu preciso do trabalho — retruquei, sustentando o olhar dele até que ele desviasse. A catraca girou com um som metálico pesado, um estalido que ecoou no meu peito como o início de uma nova era. — Terceiro andar, sala 302. Recursos Humanos. Se você não tiver r**o preso com a polícia e tiver estômago para aguentar o que tem lá dentro, faz os testes hoje mesmo. Subi as escadas em um ritmo frenético, ignorando o elevador com placa de "em manutenção". O prédio cheirava a café queimado e papel velho, um odor de burocracia e punição. No terceiro andar, a fila era composta por homens de braços tatuados e semblantes rudes, além de algumas mulheres que, como eu, pareciam estar fugindo de uma tempestade pior do que a que encontrariam ali. Quando fui chamada, entrei em uma sala funcional e fria. A Dra. Helena, coordenadora de seleção, era uma mulher de cabelos loiros presos em um coque tão rígido que parecia doloroso. Ela não levantou os olhos dos formulários enquanto eu entregava meus documentos. — Lorena Vaz... — ela leu, e então parou. Seus olhos se cravaram nos meus. — Filha do Pastor Silas Vaz? O "Martelo de Porto n***o"? — Sim, senhora. Mas meu pai não tem nada a ver com a minha vinda aqui — respondi rapidamente. — O que uma moça criada no altar quer no meio dos piores monstros do estado? Você sabe que lá dentro ninguém se importa com quem é seu pai ou com a sua religião, não sabe? — Helena perguntou, cruzando os braços sobre a mesa. — Eu quero o salário, senhora. Quero o plano de saúde para o meu filho e a chance de nunca mais ter que baixar a cabeça para homens que acham que podem me comprar. Eu quero a minha independência, e se o preço for vigiar o inferno, eu aceito o contrato. Helena deu um sorriso de canto, quase imperceptível. Ela parecia gostar do que via. — O processo é brutal por ser emergencial. A última rebelião na Penitenciária de Segurança Máxima — a famosa "Gaiola do Medo" — deixou o quadro de funcionários defasado. Pulamos a burocracia longa. Você vai preencher essa ficha, passar pelo teste psicológico agora e, se for aprovada, o treinamento intensivo começa amanhã. Três dias de curso de sobrevivência e na segunda-feira você já assume o posto na Ala M. — Ala M? — perguntei. — O Isolamento. Onde ficam os que o mundo esqueceu porque tem medo até de pronunciar o nome. É o setor mais perigoso, mas é o que paga o adicional máximo. Quarenta por cento de periculosidade, vale-alimentação e convênio integral para seus dependentes. O primeiro depósito cai em quinze dias. Quinze dias. Esse era o tempo que me separava de dar uma vida de verdade para o Samuel. Peguei a caneta e, no campo de "dependentes", escrevi o nome do meu filho com uma firmeza que eu nunca tivera antes. Cada letra era uma promessa de liberdade. As horas seguintes foram um borrão de testes de lógica, psicotécnicos e uma entrevista com um psicólogo que tentou de todas as formas me desestabilizar, perguntando sobre minha relação com Silas e sobre o "pai" do meu filho. Eu respondi tudo com uma frieza glacial, a mesma máscara que eu usava para sobreviver aos almoços de domingo na casa do pastor. Eu não era mais a menina do coral. Eu estava me transformando em algo novo. Ao entardecer, Helena saiu da sala com um envelope pardo. — Parabéns, Lorena. Você foi aprovada. Seu perfil é exatamente o que a diretoria busca: técnica, contida e com um motivador pessoal inabalável. Quem tem um filho para sustentar não brinca em serviço. Esteja na Escola de Serviços Penais amanhã, às seis em ponto. Roupa preta, bota fechada e sem adornos. A partir de agora, você é a Agente Vaz. Saí do prédio sentindo o vento frio da noite de Porto n***o. O céu estava tingido de um roxo profundo, a cor de um hematoma que está começando a sarar. Peguei o ônibus e, pela primeira vez em anos, eu não estava olhando para o chão. Eu olhava para o meu reflexo no vidro sujo e não via mais a vítima do abandono. Cheguei na creche no último minuto. Samuel correu para mim, o cheirinho de giz de cera e leite morno me fazendo querer chorar de alívio. Eu o peguei no colo, sentindo o peso do meu mundo em meus braços. — A mamãe conseguiu, meu amor. A gente vai sair daquela casa. Você vai ter tudo — sussurrei no ouvidinho dele. — Você vai ser super-heroína, mamãe? Igual no desenho? — ele perguntou, os olhinhos brilhando de expectativa. — Não, meu furacão. A mamãe vai ser soldado. A mamãe vai ser a pessoa que mantém os monstros bem trancados para que nenhum deles chegue perto de você. Naquela noite, sob o teto de Silas, eu não comi. Apenas arrumei minha mochila com o pouco que tinha. Silas passou pela porta do meu quarto, parou e me olhou com seu habitual desdém. — Conseguiu o emprego de servente, Lorena? Espero que saiba que o dízimo da casa é sagrado. — Consegui um emprego no Estado, pai. Não se preocupe, o senhor vai receber cada centavo que acha que eu te devo. Ele resmungou algo sobre "mulheres insolentes" e saiu. Ele não sabia. Ninguém sabia. Mas na segunda-feira, a filha do pastor entraria no lugar onde até Deus temia pisar. Eu ia entrar na Segurança Máxima, ia encarar o abismo de frente e, se o abismo tentasse me olhar de volta, eu ia mostrar para ele que uma mãe leoa é muito mais assustadora do que qualquer criminoso trancado em uma cela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD