capitulo 9 Maestro continuação

2044 Words
A SINFONIA DO ABATE: O REPERTÓRIO DA CRUELDADE (NARRADO POR: HENRIQUE "MAESTRO" FALCÃO) O Rocco é meu irmão por parte de pai, a única nota que escapou da partitura de desgraça da minha linhagem oficial. Poucos sabem que eu tenho um irmão; prefiro manter a existência dele em sigilo absoluto, enterrada sob camadas de silêncio e cadáveres, para que ele não se torne um alvo ou, pior, o meu ponto fraco. Ele tem vinte e dois anos e, embora tenha o crime correndo nas veias como um veneno hereditário, ainda carrega essa leviandade irritante, essa molecagem de quem acha que o mundo é um parque de diversões feito de pó, adrenalina e sorrisos fáceis. Mas ele é leal, e sua lealdade é o único instrumento que eu não precisei quebrar ou esticar as cordas para conseguir a afinação perfeita. A mãe dele era uma v***a de marca maior, uma dessas parasitas que só sabem sugar até o tutano do osso e depois somem quando a fonte de luxo seca. No segundo em que o meu velho esticou as canelas e o dinheiro parou de jorrar fácil, ela simplesmente bateu em retirada, largando o moleque para trás como se fosse um móvel velho e cheio de cupim. Eu tive que assumir a bronca. Criei o Rocco na base do ferro e do fogo, ensinando que, nesse mundo cão, ou você rege a orquestra com mão de ferro ou vira o instrumento que os outros tocam até arrebentar. Só o Morro do Alvorecer sabe da existência dele. Lá dentro, ele é o "Pequeno Maestro", o sangue do dono, protegido pela minha sombra e pelo silêncio de quem valoriza a própria língua mais do que a própria vida. Ninguém fora do morro faz ideia de que eu tenho um irmão, e é assim que a música deve ser tocada: no sapatinho, sem alarde. Manter o Rocco nas sombras é a minha garantia de que nenhum rato do Estado ou da milícia vai tentar me ferir usando o que restou da minha linhagem. Ele é a minha nota oculta, o segredo que eu guardo a sete chaves enquanto domino Porto n***o com punho de ferro. Ele é o meu futuro, a peça que eu movo quando o tabuleiro está em chamas. Voltei para a minha cela, sentindo o silêncio da Ala M me envolver como um manto de veludo n***o, um abraço frio de quem já morreu por dentro e habita o vazio. O parlatório tinha ficado para trás, mas a imagem daquela ruiva queimava na minha retina como um ferro em brasa. Eu me sentei no banco de pedra, a coluna ereta como uma viga de aço, observando a luz morta do corredor projetar as sombras das grades no chão de cimento, desenhando uma pauta musical vazia esperando para ser preenchida com a sinfonia da dor. O tempo passou em um compasso lento, um adagio de expectativa doentia, até que o estalo metálico do portão principal anunciou a chegada do novo ato. Eu conhecia aquele passo. Era vacilante, desarmônico, carregado de um peso que não vinha do corpo, mas do pavor puro que eu havia plantado na mente dela como uma semente de erva daninha. Lorena Vaz parou diante da grade. Ela segurava a bandeja de metal com as mãos tão trêmulas que o café soltava ondas rítmicas dentro da caneca de alumínio, um som metálico de "clinc-clinc" que denunciava o seu colapso interno para todo o pavilhão. O rosto dela estava pálido, quase translúcido sob a luz fluorescente, contrastando violentamente com o cabelo cor de fogo preso em um coque rígido que parecia uma corda pronta para estourar. Ela tentava manter o queixo erguido, um vestígio patético e inútil de dignidade, mas os olhos ruivos traíam a tempestade que rugia dentro dela. — O seu... o seu café — ela disse, a voz saindo como um sussurro quebrado, uma nota desafinada que implorava por uma misericórdia que eu não possuo no meu inventário. Eu me levantei devagar, cada movimento meu calculado para ser uma ameaça silenciosa, um predador saindo da sombra para a luz. Parei a milímetros do ferro frio, deixando que o meu hálito carregado de tabaco e o cheiro da minha pele tatuada atingissem o rosto dela, invadindo o seu espaço sagrado. Eu queria que ela sentisse o gelo que eu sou, o vácuo que eu represento. — Você está atrasada, santinha — murmurei, minha voz saindo num barítono baixo que vibrou no ar e fez ela encolher os ombros instintivamente, como se tivesse levado um tapa físico. — Na minha orquestra, o atraso é uma nota falsa que eu não tolero. E eu costumo quebrar os instrumentos que desafinam no meu tempo. Ela não respondeu. Estava paralisada, os olhos fixos na tatuagem de caveira no meu peito, como se estivesse hipnotizada pelo próprio fim. Apenas tentou empurrar a bandeja pela a******a inferior da grade com movimentos espasmódicos. Com um movimento súbito, brutal e calculado, eu desferi um chute violento no metal da bandeja. O estrondo foi magnífico. O som do metal batendo no concreto ecoou por toda a ala, um acorde de choque que fez os presos das celas vizinhas recuarem em silêncio absoluto. A caneca de alumínio voou, o líquido escuro, amargo e fervente se espalhou pelo chão em um padrão caótico, atingindo as botas dela e se misturando à crosta de sangue seco e fedorento que o Silva deixou no concreto como herança da sua morte. O pão seco rolou para dentro da cela, parando aos meus pés, um pedaço de nada. — Olha a sujeira que você fez, sua c****a inútil — rosnei, meus olhos cinzas cravados nos dela, perfurando a alma que ela tentava esconder debaixo daquela farda azul. — Você é tão inútil quanto a religião barata e mentirosa do seu pai, Lorena. Acha que pode entrar no meu domínio e me servir esse chorume morno sem pagar o preço? — Foi o que me deram na cozinha... eu não tive culpa... por favor, Maestro... — ela gaguejou, recuando um passo, o peito subindo e descendo freneticamente, o pânico dilatando as pupilas dela de um jeito que me dava um prazer quase erótico, uma satisfação puramente estética. — Aqui dentro, a culpa é de quem eu decido que seja. E agora, a culpa é sua por ter manchado o meu palco com a sua incompetência de novata — dei um passo para o lado, pegando a chave que eu já havia submetido à minha vontade e abri a grade com um rangido sinistro, o som da entrada para o abismo. — Entra. Agora. Antes que eu perca a paciência e transforme o teu rosto na próxima obra de arte dessa cela. Ela congelou. O pavor nos olhos dela era a música mais doce que eu tinha ouvido naquela manhã. Era a nota da rendição final. — Eu não posso entrar sozinha... as normas de segurança... o protocolo do presídio... — ela tentou argumentar, a voz falhando totalmente, as mãos agarradas à própria farda como se fosse uma âncora num mar de sangue. — Eu sou a única norma que importa aqui, Lorena. Eu sou o protocolo e eu sou a lei de Porto n***o — agarrei o braço dela com uma força desumana, sentindo a pele fina, quente e macia sob meus dedos calejados e sujos, e a puxei para dentro do cubículo de concreto com um tranco que a fez perder o equilíbrio e quase cair. — Já que você gosta tanto de servir, vai aprender a servir do meu jeito. De joelhos. Agora! Apontei para a poça nojenta de café misturada com a imundice do chão, com o suor dos mortos e com o sangue seco do Silva. — Limpa. Quero que você use as mãos, santinha. Não tem pano, não tem balde, não tem ajuda divina. Quero que você sinta cada gota desse desperdício na tua pele de porcelana. Esfregue até que eu possa ver o meu reflexo nesse chão imundo, ou eu juro pela alma que eu não tenho que a próxima coisa que você vai limpar com esse seu cabelo ruivo vai ser o seu próprio sangue fresco. Ela me olhou com um horror absoluto, as lágrimas finalmente transbordando e escorrendo pelas bochechas pálidas. Ela viu que não havia saída. Lentamente, como se cada osso do seu corpo estivesse sendo quebrado por uma prensa invisível operada por mim, ela começou a se dobrar. Vi os joelhos dela atingirem o chão sujo com um som seco, a farda azul-marinho se manchando instantaneamente de marrom e escarlate. O som dos joelhos dela batendo no concreto seco foi a nota mais afinada da manhã. Ver a Lorena Vaz ali, se desmanchando na minha frente, perdendo a pose de "filha do pastor", era como ver um monumento de vidro começando a trincar sob o peso de um martelo. O cheiro de sabão de coco dela era um insulto ao fedor de iodo, urina e morte que eu cultivo nessa cela, uma fragrância de quem ainda acredita que o céu existe. — Tá esperando o quê, c****a? — Minha voz saiu baixa, um barítono que vibrava no ar pesado da Ala M. — O café não vai se lamber sozinho e o sangue do Silva já tá virando crosta. Esfregar é a tua nova oração. Começa a liturgia da sujeira. Quero ver essas tuas mãos de moça trabalharem na lama. Ela hesitou por um segundo, as mãos brancas e finas pairando sobre a poça marrom que se misturava ao escarlate seco. O tremor dela era rítmico, quase uma percussão de pavor. Com um movimento lento e tortuoso, ela encostou os dedos na sujeira. Vi o rosto dela se contorcer, uma náusea profunda que ela tentava desesperadamente engolir para não vomitar em cima de mim. — Isso... sente a textura da tua incompetência — sussurrei, me agachando atrás dela, sentindo o calor animal que emanava do corpo daquela ruiva. — Sente o cheiro do Silva? Aquele sangue ali é o que sobra de quem desafina na minha frente. E o café? É o desperdício que tu trouxe pro meu palco. Eu peguei uma mecha do cabelo dela, que estava se soltando do coque perfeito, e enrolei no meu dedo com força, puxando a cabeça dela para trás com um solavanco violento, obrigando-a a inclinar o pescoço e olhar para a lama que estava limpando com as próprias palmas. A jugular dela pulsava rápido, como um animal capturado. — Tu acha que o teu pai, aquele velho hipócrita do Silas, te ensinou a ser forte com aqueles sermões de bosta? — Dei uma risada curta, seca e gélida, que ecoou no corredor como o estalar de um chicote em carne viva. — Aquele fanático só te ensinou a ter medo de um inferno de historinha que ele inventou pra controlar o****o e encher a sacolinha. O verdadeiro inferno tá aqui, Lorena. Ele tem grade de ferro, tem cheiro de carniça e agora tem as tuas mãos sujas. Tu não é nada além de carne fresca no meu domínio. Se eu decidir que tu vai ser a minha serva, tu vai agradecer a cada chicotada da vida por ter essa honra. — Limpa! — ordenei, soltando o cabelo dela com violência, fazendo o rosto dela quase bater no concreto. — Limpa tudo com a palma da mão, até não sobrar nem o cheiro da tua presença. Você vai ser a minha sombra, Lorena. Vai ser o meu instrumento. E se você desafinar uma nota que seja... tu vai sentir o peso da minha batuta. Ela continuou ali, esfregando o concreto áspero com as palmas das mãos agora vermelhas, feridas e sujas de uma mistura de café, sangue alheio e as próprias lágrimas. O som da respiração dela ficando cada vez mais curto, sibilante e desesperado era a música perfeita para o meu desjejum. O pânico dela era o meu oxigênio. Eu ia moer a dignidade da Lorena Vaz até não sobrar nada além de um resto de mulher que só respira se eu autorizar o compasso, que só enxerga se eu permitir a luz, e que só vive pela minha misericórdia distorcida. Ela era a minha ovelha marcada. E o abate seria a obra-prima mais longa da história de Porto n***o.
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