A SINFONIA DO ABATE (Por Henrique "Maestro" Falcão)
O silêncio na Cela 13 não é a ausência de som; é uma nota sustentada de terror que eu domino com a ponta dos meus dedos. Eu fecho os olhos e o burburinho inútil de Porto n***o desaparece, sobrando apenas a pulsação do meu próprio domínio. O Estado acredita que me trancou, mas o que esses medíocres fizeram foi me dar o camarote principal para assistir ao mundo sangrar conforme a minha batuta.
Eu não sou um bandido comum de esquina que troca tiros por impulso. Eu sou um estrategista frio e calculista. No Morro do Alvorecer, eu não herdei um império; eu o esculpi na carne daqueles que ousaram desafinar na minha frente. Antes da minha regência, a favela era governada por animais que matavam por raiva, uma emoção quente e burra que só trazia o caos. Eu trouxe a estética. Eu trouxe o método. Transformei o crime em uma estrutura corporativa banhada em terror psicológico, onde cada vida tem um preço e cada morte tem um propósito artístico.
Minha pele conta essa história de forma indelével. Cada centímetro de tatuagem preta que cobre meu peito, meus braços e sobe pelo meu pescoço representa um território conquistado ou uma alma ceifada. A caveira tatuada no meu torso é o meu espelho: ela observa o mundo com a mesma indiferença gélida que eu nutro pelos seres humanos. Sou um homem de traços duros, barba espessa e cabelos longos que contrastam com a escuridão da alma que eu carrego. Eu sou a morte que planeja, que espera e que executa com a precisão de um relógio suíço.
O motivo de eu estar aqui? Foi o meu maior espetáculo, a minha obra-prima de terrorismo psicológico. Doze ratos acharam que poderiam vender o Alvorecer para a milícia pelas minhas costas. Eles acreditaram que, por eu ser um estrategista que usa a mente, eu não tinha estômago para a linha de frente. Naquela Sexta-Feira Santa, eu provei que o Maestro é o solista mais sangrento dessa orquestra.
Eu não dei ordens. Eu fui pessoalmente. Eu os peguei um por um, no escuro, no silêncio. Não usei armas de fogo de imediato; a bala é rápida demais, é um fim sem melodia, sem sofrimento lírico. Eu usei arame farpado, facas de combate e a paciência de um escultor de cadáveres. Levei cada um deles para o ponto mais alto do morro, onde o vento carregaria seus gritos.
O primeiro foi o "Gago". Eu cortei a língua dele e a costurei em sua mão direita para que ele nunca mais gaguejasse uma mentira para o seu dono. O segundo foi o "Olhão". Eu arranquei seus globos oculares com um gancho e o obriguei a engolir a própria vision, para que sua última imagem fosse a própria podridão interna sendo digerida.
Ao amanhecer, doze corpos estavam pendurados na entrada da favela, amarrados com fios de aço em posições que lembravam uma orquestra sinfônica macabra. Um segurava um fêmur como se fosse uma flauta; outro tinha as entranhas expostas desenhando notas musicais no asfalto quente. Foi a obra que paralisou Porto n***o e consagrou o meu nome no panteão do medo.
O Xeque-Mate: Por que eu me deixei levar?
A polícia cercou o morro com tudo o que tinha: BOPE, Choque, Exército. Eles estavam lá embaixo, urinando de medo de subir. Eu tinha fuzis e homens suficientes para sustentar aquela guerra por meses, transformando o Alvorecer em um cemitério de fardados. Mas um verdadeiro estrategista sabe quando mudar o palco para manter o controle.
Lá fora, eu era um alvo para snipers e traições políticas. Aqui dentro, na Segurança Máxima, eu sou intocável. Sou um mito que rege o crime dentro e fora da tranca com punho de ferro. Eu me deixei levar porque a Cela 13 é o meu centro de comando definitivo. Daqui, eu governo sem o barulho irritante das ruas interferindo na minha audição. O Estado acha que me venceu, mas eles apenas me deram um castelo de concreto com segurança particular paga pelos impostos dos otários.
Entrei caminhando, cabeça erguida, cabelos loiros ao vento e um sorriso de quem sabe que o verdadeiro poder não precisa de liberdade para ser exercido. Hoje, os diretores do presídio tremem ao ler meu nome e os guardas limpam o sangue do meu palco sem ousar fazer perguntas.
Eu não sinto ódio. O ódio é uma emoção quente, vulgar, que turva o raciocínio. Eu sou o gelo. Sinto um prazer puramente estético na destruição, no momento exato em que a esperança morre nos olhos de um homem e ele percebe que não há salvação. É como o acorde final de uma ópera trágica.
As pessoas olham para o meu perfil e veem um monstro sanguinário. Eu olho no espelho e vejo um mestre da existência. Eu não erro a nota. Eu não perco o tempo da batida. O mundo lá fora continua girando, mas é o meu ritmo que ele segue. Cada quilo de droga, cada fuzil e cada vida no Morro do Alvorecer pertence à minha sinfonia.
O calor do pátio da Penitenciária de Porto n***o era uma afronta, mas eu não me movia. Estava sentado em um banco de concreto que ninguém mais ousava tocar, com o sol batendo direto nos meus cabelos loiros e na barba espessa, destacando cada traço duro do meu rosto. Eu não sinto o calor como os outros; eu sou o gelo, e o gelo não derrete por causa de um sol de meio-dia.
Eu estava tragando lentamente, deixando a fumaça da droga preencher meus pulmões enquanto observava os outros detentos circulando como baratas tontas. Eles acham que têm alguma liberdade ali, mas cada passo que dão é regido pela minha sinfonia silenciosa.
— Maestro — a voz de um dos carcereiros rompeu o meu transe.
Era um dos meus "roadies", o tipo de verme que recebe por fora para me manter informado sobre cada movimento do Morro do Alvorecer e sobre as engrenagens desse presídio. Ele se aproximou com a cabeça baixa, a postura de quem sabe que está diante de um mestre da existência.
— Desembucha. O que está acontecendo no Alvorecer que eu ainda não saiba? — perguntei, sem sequer olhar para ele, sentindo o prazer estético de ver o suor de pavor escorrer pela testa do fardado.
— No morro está tudo sob controle, como o senhor deixou. Mas o motivo de eu vir aqui é outro. Tem uma novidade na escala de hoje. Vai entrar uma agente nova no Setor de Segurança Máxima. Direto para a sua ala.
Eu soltei a fumaça devagar, sentindo um tédio profundo.
— E o que eu tenho a ver com isso, seu i****a? — minha voz saiu fria, cortante como o vidro que usei na Sexta-Feira Santa. — Mais uma alma medíocre para limpar o chão e tremer diante da grade? Não me faça perder tempo com as migalhas do Estado.
O agente hesitou, mas tirou um papel dobrado do bolso da farda.
— É que essa é diferente, Maestro. É a filha do Pastor Silas. Aquele que vive amaldiçoando o senhor nos cultos da televisão. O pessoal lá dentro já está comentando que ela é o ponto de equilíbrio entre a fé e o inferno.
Ele estendeu a foto. Eu a peguei com desdém, mas meus olhos cinzas pararam no papel. Na imagem, uma garota de cabelos ruivos cor de fogo e pele salpicada de sardas me encarava com uma integridade que quase chegava a ser ofensiva. Ela parecia frágil, deslocada, uma ovelha que acabara de ser jogada no covil do lobo.
— Lorena Vaz... — sussurrei o nome, sentindo o gosto da palavra.
Ela trabalhava no sistema pelo que diziam ser "necessidade", mas o que eu via naquela foto era uma nota desafinada na minha partitura de dor. Uma filha de pastor carrasco entrando na minha jurisdição. Eu não sinto ódio, mas sinto uma vontade irresistível de destruir o que se pretende puro.
— Ela entra hoje? — perguntei, fechando a mão sobre a foto, sentindo o papel se amassar sob a minha palma, desfigurando aquele rosto ruivo que transbordava uma inocência que me dava náuseas.
— No primeiro turno, Maestro. Já deve estar cruzando o terceiro portão — o carcereiro respondeu, a voz trêmula, enquanto ele olhava em volta para garantir que ninguém via nossa proximidade.
Eu soltei a fumaça da droga lentamente, vendo o rastro cinza se dissipar sob o sol escaldante de Porto n***o. O tédio que eu sentia segundos atrás foi substituído por uma curiosidade perversa. Eu gosto de novos instrumentos. Gosto de testar a resistência das cordas antes de fazê-as arrebentar.
— Mas o que ela tem de tão especial além desse pai fanático? — questionei, minha voz baixando para um tom perigosamente calmo. — Por que o diretor mandaria uma ovelha dessas direto para o matadouro da minha ala?
O agente se inclinou um pouco mais, o cheiro de suor barato dele invadindo meu espaço pessoal.
— Nada mais foi dito oficialmente, Maestro. Mas o boato no RH é que ela é técnica, fria, e precisa muito do dinheiro. Dizem que ela não se dobra fácil.
Eu dei uma risada curta, um som seco que não carregava nenhuma alegria.
— Ninguém é inquebrável. Só ainda não encontraram o martelo certo.
— Tem outra coisa... — o carcereiro continuou, hesitando. — Lembra do rapaz, o tal do Silva? O que tentou atravessar uma carga sua no Alvorecer semana passada? Aquele que o senhor disse que precisava de uma "aula de visão"?
Eu inclinei a cabeça, os cabelos loiros caindo sobre os olhos.
— O que tem ele?
— Ele foi transferido para o isolamento. Está na sua cela agora, Maestro. Te esperando para o acerto. O diretor achou que seria... pedagógico.
Um sorriso lento e c***l se desenhou no meu rosto. A orquestra estava se montando sozinha. De um lado, um traidor esperando para ser silenciado. Do outro, uma "santinha" vindo para assistir ao concerto. O cenário estava perfeito.
— Silva na minha cela e a filha do Pastor Silas no meu corredor... — sussurrei, levantando-me do banco de concreto com a elegância de um predador que acaba de localizar a presa. — O Estado finalmente aprendeu a me dar um entretenimento de qualidade.
Caminhei em direção ao bloco de isolamento, sentindo o peso do meu domínio em cada passo. Os outros presos abriam caminho, desviando o olhar, sentindo a energia pesada que eu emanava. Eu não precisava de armas. Eu era a arma.
A cada passo dado pelo corredor de concreto úmido, o som das minhas botas ecoava como o tique-taque de uma bomba relógio. Eu não sinto pressa. O tempo é meu aliado quando a intenção é desestruturar a mente de quem me espera. Ao chegar diante da grade da Cela 13, o cheiro de suor frio e medo absoluto atingiu minhas narinas. É o aroma da submissão.