capitulo 10 Lorena

1764 Words
A SINFONIA DA PODRIDÃO: O RECONTRO DAS SOMBRAS (Narrado por: Lorena Vaz) O cheiro era de revirar o estômago, uma fragrância doentia que parecia ter vida própria. A mistura do aroma de café queimado, ácido e barato, com o odor metálico, pesado e adocicado do sangue seco do Silva grudava nas minhas narinas, descendo pela garganta como um veneno que paralisava meus sentidos. Eu sentia o líquido viscoso, uma lama de café e restos humanos, entrando por baixo das minhas unhas, manchando a palma das minhas mãos enquanto eu esfregava o concreto frio com uma força que eu não sabia que possuía. A cada movimento circular naquele chão imundo, uma parte da "Lorena da igreja", aquela menina que baixava a cabeça e pedia perdão por existir, morria de forma violenta e dava lugar a algo mais duro, mais sombrio, mais visceral. É pelo meu filho. É pelo Samuel. Eu repetia isso mentalmente, um mantra de sobrevivência, uma oração profana para não enlouquecer. A imagem dele, com aqueles cachos ruivos bagunçados, calçando as meias ao contrário e me pedindo com aquela voz doce para desenhar um dinossauro, era a única coisa que impedia meu sistema nervoso de colapsar por completo. Era o que me impedia de avançar contra o monstro sentado logo atrás de mim, que regia minha humilhação com o prazer de um deus caído. Se eu perdesse esse emprego, o Samuel passaria fome. O Samuel voltaria para o alcance das mãos pesadas do Silas. Eu limparia o sangue de Porto n***o inteiro, eu lamberia o chão daquela penitenciária se fosse preciso, só para garantir que ele tivesse um futuro longe das garras do meu pai. A farda azul-marinho, que eu havia passado a ferro com tanto esmero na noite anterior, agora estava pesada, ensopada de café e da imundície da cela 13. Eu sentia o olhar do Maestro queimando na minha nuca como um laser, um peso opressor que fazia o ar parecer sólido. Quando finalmente o chão começou a mostrar o brilho fosco do cimento úmido, livre da crosta escarlate, eu me forcei a levantar. Minhas pernas tremiam tanto que precisei apoiar as mãos imundas na parede da cela por um segundo, sentindo o frio do concreto atravessar minha pele. A indignação, alimentada pelo cansaço extremo e pelo nojo, finalmente furou a barreira do pavor absoluto. — Por que você está fazendo isso? — Minha voz saiu trêmula, mas carregada de uma amargura cortante que me surpreendeu. — Eu nem te conheço. Acabei de chegar nesse inferno. Por que tanto ódio de alguém que nunca te cruzou o caminho? O que você ganha quebrando quem já está no chão? Ele se inclinou para frente com a elegância de uma pantera n***a. A luz fraca e doentia da cela batia nos olhos cinzas que pareciam feitos de neblina e puro aço temperado. Um sorriso lento, c***l e carregado de uma satisfação psicótica surgiu no rosto dele, destacando as tatuagens que subiam pelo pescoço como serpentes de tinta. — Eu não preciso te conhecer para saber o que você representa, ovelhinha. Eu odeio o cheiro de crente. Odeio essa moralidade barata que vocês vestem como se fosse uma armadura brilhante para esconder a podridão que escorre por baixo. E, principalmente, eu odeio o seu pai. Aquele pastorzinho de merda que prega o perdão na TV enquanto esmaga a vontade das pessoas com o "Martelo de Porto n***o". Ele usa o meu nome nos cultos dele para dar medo em fiel o****o e encher a sacolinha... Eu sinto o rastro do Silas em você. O cheiro dele está impregnado no teu medo. E tudo o que vem dele, eu faço questão de quebrar, nota por nota, até que não sobre nada além de estilhaços. Senti um calafrio percorrer minha espinha, mas as palavras dele atingiram um ponto que ele não esperava. Uma risada seca, oca, sem um pingo de alegria, escapou da minha garganta, ecoando nas paredes de pedra. — Então estamos quites, Henrique — falei, e o uso do nome dele, sem títulos, sem "Maestro", fez a mandíbula dele travar por um milésimo de segundo. — Porque eu também odeio o meu pai. Mais do que você, que só conhece a fachada dele, pode imaginar. Eu vivi sob o martelo dele a vida inteira. O silêncio que se seguiu foi absoluto, denso o suficiente para sufocar. Pela primeira vez, vi um lampejo de algo diferente nos olhos do Maestro. Não era pena ele é desprovido desse órgão humano era uma curiosidade perversa, a surpresa de um regente que ouve uma nota inesperada na sua sinfonia. A batuta dele pareceu falhar no compasso. Ele não esperava que a ovelha estivesse torcendo pela morte do próprio pastor. Ele ficou quieto, apenas me observando com uma intensidade que parecia querer revirar cada cicatriz oculta do meu passado. Ajeitei o coque que estava desmoronando, fios ruivos caindo sobre meu rosto suado, e limpei a mão suja na lateral da farda, num gesto de puro esgotamento. — Mais tarde eu trago o seu almoço — disse, tentando recuperar a pouca dignidade que me restava, caminhando em direção à grade aberta. Girei o corpo para sair, sentindo o ar da liberdade do corredor me chamar, mas o ar foi cortado pelo estalo metálico de um movimento rápido demais para o olho humano acompanhar. Antes que eu pudesse cruzar o limite daquela cela maldita, a mão dele se fechou em volta do meu braço como uma tenaz de aço em brasa. O tranco foi tão violento que meu corpo girou de volta, batendo com força contra o concreto áspero da parede. A bandeja de metal caiu no chão com um estrondo ensurdecedor que pareceu o som de um tiro disparado no silêncio da Ala M. — Eu não mandei você sair, ovelhinha — a voz dele veio baixa, carregada de uma eletricidade perigosa que arrepiou cada poro da minha pele. Ele não me soltou. Pelo contrário, apertou ainda mais, os dedos cravando na minha carne por cima do tecido grosso da farda, provavelmente deixando marcas roxas que durariam semanas. Eu sentia cada centímetro do poder predatório dele me esmagando contra a parede fria. Henrique se aproximou, invadindo meu espaço pessoal até que eu pudesse sentir o calor vulcânico que emanava do peito dele, o cheiro de tabaco, menta e aquele perfume de perigo iminente que me dava náuseas. — Por que você odeia o seu pai? — ele perguntou, os olhos cinzas escaneando o meu rosto como se estivesse dissecando um cadáver, tentando decifrar o código da minha dor. — O "Martelo de Porto n***o" não é o exemplo de santidade que ele vende por dez por cento do salário dos otários? Por que a filha favorita cospe no altar dele? — Isso... isso não é problema seu — respondi, tentando puxar meu braço, mas era como tentar mover uma montanha de granito. Minha voz saiu trêmula, mas eu queria que ele sentisse o veneno que eu guardava pelo Silas. O Maestro soltou um riso sombrio e, num movimento brusco e c***l, largou meu braço apenas para agarrar o meu rosto. A mão dele era imensa, os dedos apertando minhas bochechas com tanta força que minha boca se abriu levemente, expondo minha vulnerabilidade. Ele me obrigou a olhar direto para o abismo das suas pupilas dilatadas. — Tudo o que acontece nesse corredor é problema meu, Lorena. Eu sou o dono da tua rotina agora. Eu sou o dono do teu tempo. Eu quero saber o que o pastorzinho fez pra transformar a ovelha dele numa desertora cheia de ódio. O que foi? Ele batia em você com a Bíblia ou os pecados dele eram mais... íntimos? Ele quebrou você por dentro antes de eu chegar, não foi? As lágrimas transbordaram, quentes e pesadas, escorrendo pelos meus dedos e pela mão dele que me prendia. O pavor de ter aquele segredo, aquela dor doméstica, exposta diante de um psicopata como ele me destruía por dentro. Eu não queria chorar na frente dele, não queria dar o prazer da minha fraqueza para aquele monstro, mas a pressão física e o trauma emocional eram uma carga pesada demais. — Chora, ovelhinha... — ele sussurrou, a voz subitamente carinhosa, um tom que era mil vezes mais aterrorizante do que se ele estivesse gritando. — As tuas lágrimas têm o gosto da verdade que o Silas tenta esconder debaixo do altar de ouro dele. Eu consigo sentir o cheiro da tua mágoa daqui. É o meu aroma favorito: o cheiro de uma alma em ruínas. Ele apertou o meu rosto um pouco mais, me sacudindo levemente para que eu não desviasse o olhar, prendendo-me na sua órbita de loucura. — Tu acha que me odeia porque eu esmaguei os olhos de um rato? O Silas esmagou a tua alma por décadas e tu ainda carrega o corpo morto pra ele chutar todo dia. Tu é uma hipócrita igual a ele, Lorena... ou vai ter coragem de me dizer o que aquele desgraçado te fez para você ter esse fogo nos olhos quando fala o nome dele? — Me solta... por favor... — solucei, sentindo o gosto metálico do meu próprio sangue onde meus dentes cortaram a parte interna da bochecha pela pressão da mão dele. Ele me observou por mais alguns segundos, um estudo clínico e sádico da minha agonia, antes de me soltar com um empurrão que me fez perder o equilíbrio e bater as costas na grade. Ele voltou a se sentar no banco de pedra, cruzando os braços com a calma de quem acabou de reger um movimento perfeito em uma sinfonia de horror. — Vai buscar o meu almoço, Lorena. E limpa esse rosto. Eu não gosto de ver o meu instrumento borrado de choro e catarro antes da hora. Mas não esquece... a nossa conversa só tá começando. Eu vou descobrir cada cicatriz que o Silas deixou em você. Vou abrir cada uma delas. E quando eu descobrir, eu vou usar cada uma dessas feridas pra te fazer tocar a minha música, até que você esqueça que um dia teve um pai, um Deus ou uma alma. Recolhi a bandeja com as mãos sacudindo violentamente, o som do metal batendo no chão ecoando o batimento frenético e doentio do meu coração. Saí da cela sem olhar para trás, sentindo que o isolamento de Porto n***o era apenas uma extensão mais honesta da casa onde eu cresci. Eu estava entre dois monstros, e o Maestro acabava de descobrir que eu tinha um estoque de ódio que ele pretendia usar como combustível.
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