Capitulo 23

948 Words

NARRADO LORENA O cheiro era de revirar o estômago, uma fragrância doentia que parecia ter vida própria. A mistura do aroma de café queimado, ácido e barato, com o odor metálico, pesado e adocicado do sangue seco do Silva grudava nas minhas narinas, descendo pela garganta como um veneno que paralisava meus sentidos. Eu sentia o líquido viscoso, uma lama de café e restos humanos, entrando por baixo das minhas unhas, manchando a palma das minhas mãos enquanto eu esfregava o concreto frio com uma força que eu não sabia que possuía. A cada movimento circular naquele chão imundo, uma parte da "Lorena da igreja", aquela menina que baixava a cabeça e pedia perdão por existir, morria de forma violenta e dava lugar a algo mais duro, mais sombrio, mais visceral. É pelo meu filho. É pelo Samuel. Eu

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