A Escolha do Coração

1209 Words
— Você nunca foi um alvo qualquer. — O que quer dizer? Clara e Rafael trocaram um olhar. Como se ambos soubessem algo terrível. Algo capaz de mudar tudo. — Helena — disse Clara. — Existe uma razão para eles terem me perseguido. — Qual? — Existe uma razão para terem perseguido você também. O silêncio tornou-se absoluto. Até Lucas parecia apreensivo. Então Clara finalmente falou. — Porque seu pai foi um dos fundadores do Projeto Eclipse. O mundo de Helena desmoronou. Mais uma vez. Seu pai. O homem que sempre acreditou ser honesto. Correto. Bondoso. Fazia parte da organização responsável por destruir sua família. Ela sentiu as pernas enfraquecerem. Lucas segurou sua mão discretamente. Um gesto simples. Mas que a impediu de cair. — Não... isso não pode ser verdade. — Infelizmente é. — Então meu pai era um criminoso? — No início não. Mas depois tudo saiu do controle. Helena levou a mão à boca. As lágrimas voltaram. Nada em sua vida era real. Nada. Nem o passado. Nem as lembranças. Nem a família. Nem o homem que amava. Mas então algo chamou sua atenção. Uma expressão de medo no rosto de Clara. — O que foi? Antes que alguém respondesse, um disparo ecoou do lado de fora. Depois outro. E mais outro. Todos se levantaram imediatamente. Lucas correu até a janela. Seu rosto ficou pálido. — Eles nos encontraram. Homens armados cercavam o hospital. Pelo menos dez. Talvez mais. O Projeto Eclipse acabara de descobrir onde todos estavam reunidos. E desta vez não pareciam dispostos a deixar sobreviventes. O primeiro disparo foi seguido por vários outros. O som ecoou pelos corredores do hospital clandestino. Médicos e enfermeiros correram em pânico. Clara levantou-se imediatamente. — Eles chegaram mais cedo do que eu esperava. Lucas observava pela janela. Homens armados cercavam todas as saídas. — Precisamos sair agora. — Existe outra saída? — perguntou Helena. Clara assentiu. — Um túnel de serviço usado anos atrás. — Então vamos. Rafael tentou se levantar da cama. A dor o fez cambalear. — Você não está em condições — disse Lucas. — Não tenho escolha. Apesar dos ferimentos, Rafael insistiu. Helena observou a cena em silêncio. Poucos dias antes, teria corrido para ajudá-lo. Agora tudo parecia diferente. Ela ainda se preocupava com ele. Mas a confiança que existia entre os dois havia desaparecido. E sem confiança, o amor começava a perder a força. Guiados por Clara, os quatro seguiram por um corredor estreito nos fundos do prédio. O barulho dos passos e dos disparos parecia cada vez mais próximo. O coração de Helena disparava. Não apenas pelo perigo. Mas pela quantidade de revelações que estava enfrentando. Sua mãe estava viva. Seu pai havia participado do Projeto Eclipse. Rafael escondera a verdade durante anos. E Lucas... Lucas era a única pessoa em quem sentia que podia confiar. Chegaram a uma antiga porta metálica. Clara retirou uma chave do bolso. — Rápido. A porta se abriu revelando uma passagem subterrânea. Escura. Úmida. Esquecida pelo tempo. Todos entraram. Lucas fechou a porta atrás deles. Por alguns segundos, apenas o som da própria respiração preenchia o ambiente. Enquanto caminhavam pelo túnel, Helena se aproximou de Clara. Havia algo que precisava saber. — Por que nunca me procurou? A pergunta saiu carregada de emoção. Clara abaixou os olhos. — Porque acreditava que você estaria segura longe de mim. — Eu passei vinte anos sofrendo. — Eu sei. — Vinte anos achando que você estava morta. Lágrimas surgiram nos olhos das duas. — Não existe um dia sequer em que eu não tenha me arrependido. Helena permaneceu em silêncio. Ainda havia dor. Ainda havia mágoa. Mas também havia amor. Um amor que nunca desapareceu. Após quase meia hora caminhando, finalmente chegaram ao fim da passagem. Lucas abriu a saída com cuidado. O grupo emergiu em uma área cercada por árvores. Aparentemente estavam seguros. Pelo menos por enquanto. Rafael sentou-se em uma pedra. Exausto. Clara observava os arredores. Mas Helena percebeu algo diferente. Lucas estava olhando para ela. Como se quisesse dizer alguma coisa. Como se estivesse preocupado. Talvez estivesse. Os últimos dias haviam aproximado os dois de uma forma inesperada. Cada perigo enfrentado. Cada segredo compartilhado. Cada momento de apoio. Tudo contribuiu para criar uma ligação impossível de ignorar. Já era noite quando encontraram abrigo em uma pequena cabana abandonada. O lugar era simples. Mas oferecia proteção temporária. Clara e Rafael analisavam documentos encontrados no hospital. Lucas estava do lado de fora. Observando a floresta. Helena decidiu acompanhá-lo. O céu estava coberto de estrelas. O vento soprava suavemente. Pela primeira vez em dias, havia um raro momento de tranquilidade. — Você está bem? — perguntou Lucas. — Não sei. Ele sorriu. — Resposta honesta. — Minha vida inteira virou de cabeça para baixo. — Eu sei. Helena respirou fundo. — Às vezes queria voltar no tempo. Antes de descobrir tudo isso. — E viver uma mentira? Ela não respondeu. Porque sabia que Lucas tinha razão. Por mais dolorosa que fosse, a verdade ainda era melhor que a ilusão. Os dois permaneceram em silêncio. Observando o céu. Até que Helena falou novamente. — Você nunca me abandonou. Lucas a encarou. — Nunca vou abandonar você. O coração dela acelerou. A sinceridade em sua voz era impossível de ignorar. Não havia manipulação. Não havia segundas intenções. Apenas verdade. Algo raro em sua vida ultimamente. — Lucas... — Sim? — Obrigada. Ele sorriu. Um sorriso leve. Aquele sorriso que sempre fazia Helena sentir que tudo ficaria bem. Por alguns segundos, os dois ficaram apenas se olhando. Nenhum deles desviou o olhar. Nenhum deles tentou fugir daquele sentimento. A atração que vinha crescendo entre os dois finalmente parecia impossível de negar. Então Lucas aproximou-se lentamente. Helena sentiu o coração disparar. Sabia o que estava acontecendo. Sabia o que aquilo significava. E mesmo assim não se afastou. O beijo aconteceu de forma suave. Delicada. Como algo que ambos tentaram evitar por muito tempo. Mas que inevitavelmente aconteceu. Quando se afastaram, permaneceram em silêncio. Surpresos. Emocionados. Confusos. Porque aquele momento mudava tudo. Absolutamente tudo. Dentro da cabana, Rafael observava pela janela. Ele havia visto. Visto o beijo. Visto o sentimento entre eles. Por um instante, a dor em seu peito foi maior do que qualquer ferimento físico. Porque finalmente compreendeu o que estava acontecendo. Estava perdendo Helena. Talvez já tivesse perdido. E talvez a culpa fosse inteiramente sua. Mais tarde, enquanto todos tentavam descansar, Clara encontrou uma pasta escondida entre os documentos recuperados. Seu rosto ficou pálido imediatamente. — Não... Lucas aproximou-se. — O que foi? Ela entregou a pasta para ele. Havia apenas uma fotografia. Uma fotografia recente. Nela apareciam vários integrantes do Projeto Eclipse. Mas não era isso que assustava Clara. Era o homem que estava no centro da imagem. Lucas arregalou os olhos. — Isso é impossível. — O que aconteceu? — perguntou Helena. Clara engoliu em seco. — Existe alguém que acreditávamos estar morto. — Quem? Lucas levantou a fotografia lentamente. O silêncio tomou conta da cabana. Porque o homem da imagem era Joaquim Duarte. O pai de Helena. O homem que todos acreditavam ter morrido anos atrás. Mas a fotografia havia sido tirada apenas três meses antes. Ele estava vivo. E aparentemente continuava trabalhando para o Projeto Eclipse.
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