A chuva continuava caindo sem parar.
Helena, Lucas e Clara encontraram abrigo em uma antiga casa de campo abandonada. O local era simples, mas oferecia proteção temporária.
Mesmo assim, ninguém conseguia descansar.
Rafael havia desaparecido.
O Projeto Eclipse estava cada vez mais próximo.
E Augusto Valença finalmente havia saído das sombras.
Helena estava sentada perto da janela quando percebeu que Lucas permanecia inquieto.
Ele andava de um lado para o outro.
Pensativo.
Preocupado.
Como se estivesse escondendo alguma coisa.
Ela decidiu se aproximar.
— Lucas.
Ele levantou os olhos.
— Sim?
— Tem algo que você não está me contando?
A pergunta o pegou de surpresa.
Por alguns segundos, ele ficou em silêncio.
Tempo suficiente para Helena perceber que a resposta era sim.
— Lucas...
— Existe uma coisa que preciso dizer.
Clara imediatamente ficou tensa.
Como se já soubesse o assunto.
Helena sentiu o coração acelerar.
Mais segredos.
Sempre mais segredos.
— Então fala.
Lucas respirou fundo.
— Seu pai não foi a única pessoa que participou da fundação do Eclipse.
— Eu já sei disso.
— Eu estou falando da minha família.
O silêncio tomou conta da sala.
— O quê?
— Meu pai também fazia parte da organização.
Helena ficou imóvel.
— Não.
— Sim.
— Você mentiu para mim esse tempo todo?
— Não porque queria.
— Então por quê?
— Porque eu tinha medo de perder sua confiança.
As palavras atingiram Helena como um golpe.
Depois de tudo o que aconteceu, descobrir mais uma mentira parecia insuportável.
— Meu pai e o seu eram amigos.
Trabalhavam juntos.
Foi assim que conheci sua mãe.
Helena sentiu as lágrimas surgirem.
— Todo mundo sabia da verdade menos eu.
Lucas aproximou-se.
— Eu nunca participei do Eclipse.
Nunca.
Passei minha vida tentando destruir o que eles construíram.
— Como posso ter certeza?
A dor nos olhos dele foi evidente.
Porque aquela dúvida era justa.
Mas ainda assim machucava.
— Você não pode.
Só posso pedir que acredite em mim.
Na mesma noite, Rafael caminhava pelos corredores de uma enorme propriedade pertencente a Augusto Valença.
O lugar parecia uma fortaleza.
Seguranças armados vigiavam cada entrada.
Câmeras cobriam todos os ângulos.
Augusto não confiava em ninguém.
E talvez tivesse razão.
Porque Rafael estava escondendo algo.
Muito mais do que todos imaginavam.
Ao entrar em um escritório luxuoso, encontrou Augusto observando vários documentos.
— Temos um problema — disse Augusto.
— Qual?
— Clara está viva.
Rafael fingiu surpresa.
— Tem certeza?
Augusto sorriu.
— Não tente me enganar.
Sei que você a encontrou.
Rafael permaneceu imóvel.
O velho líder aproximou-se lentamente.
— A pergunta é: de que lado você está?
A tensão tomou conta do ambiente.
Por um instante, Rafael acreditou que sua farsa havia terminado.
Mas Augusto apenas sorriu.
— Espero que escolha o lado certo.
Porque em breve ninguém poderá ficar em cima do muro.
Enquanto isso, Helena não conseguia dormir.
As revelações sobre Lucas ocupavam sua mente.
Mas algo dentro dela dizia que ele estava falando a verdade.
Porque todas as vezes em que precisou dele, Lucas esteve ao seu lado.
Todas.
Sem exceção.
Ela encontrou-o sentado sozinho na varanda da casa.
Observando a escuridão.
— Posso sentar?
— Claro.
Por alguns segundos ficaram em silêncio.
O vento soprava suavemente.
A chuva finalmente havia parado.
— Você está bravo comigo? — perguntou Lucas.
Helena soltou um pequeno sorriso.
— Talvez um pouco.
— Eu mereço.
— Merece.
Os dois riram.
Pela primeira vez em dias.
Um momento raro.
Um momento leve.
— Mas eu acredito em você.
Lucas virou o rosto imediatamente.
— Acredita?
— Sim.
A expressão dele mudou completamente.
Como se um peso enorme tivesse sido retirado de seus ombros.
— Obrigado.
— Só não esconda mais nada.
— Prometo.
Helena sorriu.
E naquele instante percebeu que a confiança entre eles era mais forte do que qualquer segredo do passado.
Na manhã seguinte, Clara recebeu uma mensagem misteriosa.
O remetente era desconhecido.
Mas havia apenas uma frase.
"Joaquim quer ver vocês."
O coração dela disparou.
— Não pode ser.
— O que aconteceu? — perguntou Helena.
Clara mostrou a mensagem.
Todos ficaram em silêncio.
Seu pai.
Vivo.
E querendo encontrá-los.
Lucas imediatamente desconfiou.
— Pode ser uma armadilha.
— Também pode ser nossa única chance — respondeu Clara.
Helena observou a mensagem.
Seu coração estava dividido.
Parte dela queria respostas.
Outra parte tinha medo.
Muito medo.
Mas depois de tudo o que havia acontecido, ela sabia que não podia fugir.
Precisava descobrir a verdade.
Mesmo que ela destruísse o pouco que restava de seu passado.
— Eu vou.
Lucas levantou-se imediatamente.
— Então eu vou com você.
No final da tarde, o grupo chegou ao endereço indicado.
Uma antiga fazenda cercada por árvores gigantes.
O lugar parecia abandonado.
Mas havia sinais de movimento.
Carros escondidos.
Pegadas recentes.
Luzes acesas.
Lucas observava tudo atentamente.
— Isso não está me cheirando bem.
Helena segurou sua mão.
Um gesto automático.
Natural.
Mas que fez os dois perceberem o quanto haviam se aproximado.
Quando chegaram ao celeiro principal, a grande porta começou a se abrir lentamente.
Uma figura surgiu na escuridão.
Helena sentiu o coração parar.
Porque era realmente ele.
Joaquim Duarte.
Seu pai.
Mais velho.
Mais cansado.
Mas vivo.
Os olhos dele se encheram de lágrimas ao vê-la.
— Helena...
Ela ficou imóvel.
Durante anos sonhou com aquele momento.
Mas agora não sabia o que sentir.
Alegria.
Raiva.
Tristeza.
Amor.
Tudo ao mesmo tempo.
— Você está vivo.
A voz dela falhou.
Joaquim assentiu.
— Eu nunca quis abandonar você.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um disparo ecoou pela fazenda.
Todos se abaixaram imediatamente.
Outro tiro.
E mais outro.
Lucas puxou Helena para trás de uma pilha de madeira.
— Emboscada!
Gritos surgiram do lado de fora.
Homens armados cercavam a propriedade.
Augusto havia descoberto o encontro.
E desta vez parecia decidido a acabar com todos de uma vez por todas.
Mas o pior ainda estava por vir.
Porque, entre os homens que avançavam em direção ao celeiro, Helena reconheceu um rosto familiar.
Um rosto que jamais esperava ver trabalhando para Augusto.
O rosto de alguém que ela considerava amigo.
O som dos tiros ecoava por toda a fazenda.
Madeiras se quebravam.
Vidros explodiam.
Gritos surgiam de todos os lados.
Helena permanecia abaixada atrás de uma pilha de caixas enquanto tentava controlar a respiração.
Lucas observava cada movimento dos invasores.
Joaquim e Clara haviam se protegido atrás de um antigo trator.
O caos tomava conta do lugar.
Então Helena viu novamente aquele rosto.
Não era um desconhecido.
Não era um m****o qualquer do Eclipse.
Era Daniel Albuquerque.
Seu amigo de infância.
O homem que havia trabalhado com ela durante anos no jornal.
A pessoa que a ajudara inúmeras vezes em suas investigações.
— Não...
Lucas percebeu sua expressão.
— Você conhece alguém?
Helena apontou.
Lucas olhou e imediatamente entendeu.
— Quem é ele?
— Daniel.
Meu amigo.
Meu melhor amigo.
O coração dela parecia partir mais uma vez.
Porque, ao longo daquela jornada, as pessoas em quem mais confiava continuavam escondendo segredos.
Daniel avançava ao lado dos homens de Augusto como se pertencesse àquele lugar.
Como se sempre tivesse pertencido.
— Ele trabalha para o Eclipse — sussurrou Helena.
— Há quanto tempo?
— Eu não sei.
E essa era a pior parte.
Ela já não sabia mais em quem confiar.
A troca de tiros continuou por vários minutos.
Até que uma voz ecoou do lado de fora.
— Parem!
O silêncio surgiu gradualmente.
Todos ficaram atentos.
Então uma figura apareceu caminhando lentamente em direção ao celeiro.
Elegante.
Confiante.
Perigosa.
Augusto Valença.
O líder do Projeto Eclipse.
O homem responsável por décadas de mentiras e destruição.
Ele sorriu ao observar o grupo.
— Finalmente nos encontramos.
Lucas imediatamente ficou à frente de Helena.
Como um escudo.
Como sempre fazia.
Augusto percebeu.
— Então você é Lucas Ferraz.
Filho de Eduardo Ferraz.
— Não fale sobre meu pai.
O sorriso de Augusto aumentou.
— Ainda existe muita raiva dentro de você.
— Existe justiça.
— Justiça?
Augusto riu.
— Justiça é uma palavra criada pelos vencedores.
Helena sentiu um arrepio.
Havia algo profundamente perturbador naquele homem.
Algo que explicava como conseguira controlar tantas pessoas durante tantos anos.
Joaquim saiu lentamente de seu esconderijo.
Os olhos encontraram os de Augusto.
A tensão era evidente.
— Acabou, Augusto.
— Não.
Está apenas começando.
— Você destruiu muitas vidas.
— E construí um império.
Clara aproximou-se.
— Um império baseado em mentiras.
Augusto olhou para ela.
— Você deveria ter permanecido escondida.
— E deixar você vencer?
— Exatamente.
O silêncio tornou-se pesado.
Então Augusto voltou sua atenção para Helena.
— Sua mãe sempre foi corajosa.
Seu pai também.
Você herdou isso deles.
Helena não respondeu.
— É uma pena.
— Por quê?
— Porque pessoas corajosas costumam morrer cedo.
Antes que alguém pudesse reagir, Daniel avançou.
Apontando uma arma para Lucas.
— Não se mova.
Helena ficou paralisada.
— Daniel...
Por um segundo ele evitou olhar para ela.
Como se sentisse vergonha.
Como se ainda existisse alguma humanidade dentro dele.
— Me desculpa.
— Desde quando?
A voz dela tremia.
— Desde o começo.
A resposta foi pior do que qualquer outra coisa.
Desde o começo.
Todos aqueles anos.
Todas aquelas conversas.
Toda aquela amizade.
Nada havia sido verdadeiro.
Daniel trabalhava para o Eclipse desde o primeiro dia.
E estivera observando Helena durante todo esse tempo.
Passando informações.
Monitorando seus passos.
Traindo sua confiança.
— Você era minha amiga — disse ele.
— Então por que fez isso?
Daniel abaixou os olhos.
— Porque não tive escolha.
— Todos têm escolha.
A frase veio de Lucas.
Firme.
Direta.
Daniel não respondeu.
Talvez porque soubesse que Lucas estava certo.
O clima tornou-se ainda mais tenso quando Augusto revelou algo inesperado.
— Existe uma coisa que ninguém contou para você, Helena.
Todos ficaram em alerta.
Joaquim empalideceu.
Clara também.
— Não faça isso — disse Joaquim.
Augusto sorriu.
— Por que não?
Ela merece saber.
Helena sentiu o coração acelerar.
Mais uma verdade.
Mais um segredo.
— Saber o quê?
Augusto olhou diretamente para ela.
— O Projeto Eclipse não foi criado por acaso.
Seu pai e sua mãe não participaram apenas da fundação.
Eles criaram algo muito mais importante.
— Do que está falando?
— Existe um arquivo.
Um conjunto de documentos.
Informações capazes de destruir políticos, empresários e criminosos em vários países.
Helena franziu a testa.
— Que arquivo?
— O Arquivo Zero.
O silêncio dominou o celeiro.
Até Lucas parecia surpreso.
— Ele existe mesmo? — perguntou.
Augusto sorriu.
— Existe.
E apenas uma pessoa sabe onde está escondido.
Todos olharam para Joaquim.
Mas Augusto balançou a cabeça.
— Não.
Não é ele.
Helena sentiu um arrepio percorrer todo o corpo.
Porque já começava a entender.
— Sou eu?
Augusto assentiu.
— Exatamente.
A revelação caiu como uma bomba.
— Isso é impossível.
— Quando você era criança, seus pais esconderam a localização do Arquivo Zero de uma maneira genial.
Ninguém conseguiu encontrá-lo durante vinte anos.
Nem mesmo eu.
— E como eu saberia onde ele está?
— Porque a chave está nas suas lembranças.
Helena ficou completamente sem palavras.
Sua mente parecia girar.
Durante toda a vida acreditou ser apenas uma jornalista comum.
Agora descobria que carregava um segredo capaz de derrubar uma organização inteira.
— Você está mentindo.
— Gostaria que estivesse.
Augusto deu alguns passos à frente.
— Sua mãe sabe.
Seu pai sabe.
Todos eles sabem.
Os olhos de Helena encontraram os de Clara.
Depois os de Joaquim.
E o silêncio deles confirmou tudo.
Mais uma vez.
Mais uma mentira.
Mais uma verdade escondida.
Foi nesse instante que algo inesperado aconteceu.
Um disparo ecoou.
Mas não veio dos homens de Augusto.
Nem de Lucas.
Nem de Joaquim.
Nem de Clara.
Veio de Daniel.