Capítulo 2 - Ettore Narrando
Eu estava abotoando a manga do meu terno, esperando Alexandra descer para que pudéssemos seguir para o jantar. Raramente frequentava esses eventos, mas abri uma exceção porque foi um pedido do meu irmão Luigi, já que era a inauguração do ateliê de sua esposa, Regina. O evento reuniria alguns membros da máfia, além de pessoas da alta sociedade de Milão, que viriam a Nápoles só para isso.
Mas, naquele momento, minha mente estava em outro lugar, focada na vingança pela morte do meu pai. Olhei para a escada e vi Alexandra descendo, deslumbrante como sempre.
— Estou pronta — ela disse, sorrindo, e eu a encarei.
— Poderia ser mais discreta.
— Por quê? — ela perguntou.
— Para não chamar tanta atenção.
— Eu entendo que meu brilho te ofusca — ela falou com um sorriso de escárnio — Deveria ter pensado nisso quando decidiu se casar comigo para controlar os negócios do meu pai.
— Você realmente acha que eu preciso dos negócios do seu pai?
— Bom — ela deu um sorriso leve — da empresa eu não sei, mas que você precisa de mim, isso eu sei. Por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher, Ettore! — Ela passou a mão sobre sua barriga já marcada pelas doze semanas de gestação.
Ela saiu andando na minha frente, e eu a segui. Alexandra sabia que eu odiava chamar atenção, independente do lugar. Gostava de ser discreto e manter minha identidade desconhecida, especialmente depois do assassinato do meu pai.
Assim que chegamos ao jantar, fomos direto ao encontro de Luigi, sua esposa Regina e minha mãe.
— Até que enfim você chegou, Ettore — disse minha mãe.
— Como vai? — perguntei, dando um beijo em seu rosto.
— Poderia estar melhor — ela suspirou, com uma sombra de tristeza na voz.
Cumprimentei todos, e ficamos conversando. Logo, o salão começou a encher à medida que os convidados chegavam. O ambiente ficou lotado em pouco tempo.
Aproximei-me de Emilio, meu irmão mais novo.
— Descobri algo hoje que não pode esperar até a reunião na sede — ele disse, sério.
— É sobre o jornalista? — perguntei.
— Ele mesmo — respondeu Emilio — Morreu em um trágico acidente de trem há alguns dias.
— Como? Tem certeza disso?
— Absoluta. O corpo foi reconhecido.
— Por quem?
— Matteo Franco — ele disse — também jornalista, colega de trabalho dele.
— Tem algo errado nisso. Parece armação.
— Você acha que ele fingiu a própria morte? O acidente foi trágico demais, Ettore. Muitas pessoas morreram. Eu vi as câmeras mostrando ele entrando no trem — Emilio me encarou — Difícil acreditar que ele tenha sobrevivido.
Olhei para Emilio e depois para todos ao redor no salão. Para a maioria ali, éramos apenas uma família influente, herdeira de uma rede de hotéis. Mas poucos sabiam da nossa verdadeira identidade e do que estava em jogo.
Manter minha identidade em segredo era essencial. José Alcântara, o jornalista, havia destruído nossa reputação no passado, expondo segredos que nos tornaram vulneráveis a máfias inimigas. Perdemos alianças importantes e nos tornamos alvos. E, além disso, ele roubou algo crucial da máfia: o amuleto. Esse roubo levou à morte do meu pai, assassinado a sangue frio em um local secreto da máfia, conhecido por poucos e isolado por décadas.
— Emilio — disse, notando que Alexandra se aproximava — quero que investigue esse tal de Matteo. Quero saber tudo sobre José Alcântara: o que comia, bebia, com quem falava, suas amizades, inimizades, e, principalmente — olhei fixamente para ele — se ele tinha esposa ou filhos. Quero tudo na minha mesa o mais rápido possível.
— Deixa comigo — respondeu Emilio, antes de se afastar.
Alexandra se aproximou, e sua expressão deixava claro que vinha mais uma reclamação.
— Achei que encontraria meus pais aqui — ela disse, me encarando — Liguei para perguntar que horas eles viriam, e eles me disseram que você cancelou o convite deles.
— Tenho meus motivos — respondi.
— E eu posso saber quais? — ela perguntou, de braços cruzados.
— Não vou discutir isso aqui — respondi com frieza. — Não na frente de todo mundo.
— Você sempre quer me fazer parecer louca, Ettore!
— Não acho que você seja louca. Se seus pais não foram convidados...
— Eles foram convidados por Regina! — Alexandra cortou minha fala. — Você desconvidou, foi ordem sua!
— Já disse que tenho meus motivos.
— Então me diga! — ela insistiu — Eu sou sua esposa!
— O fato de ser minha esposa não te dá o direito de se meter onde eu comando — encarei-a com frieza.
— Não vou aceitar que me trate assim — ela respondeu, desafiadora — Não mesmo!
— Não tente me ameaçar de novo — eu disse, o olhar duro — Você sabe os motivos deste casamento e por que ele existe.
Saí andando, deixando Alexandra sozinha, cansado da discussão e do jantar. Sabia que a noite ainda renderia horas de tédio. Espiei pela janela e vi Alexandra entrando no carro com nosso motorista. Ela estava indo embora.
Eu só conseguia pensar em uma coisa: proteger a máfia, vingar a morte do meu pai e manter todos seguros. A máfia italiana vinha sendo culpada por atrocidades que não cometemos, e tudo recaía sobre nós.
Saí para fora e acendi um cigarro. Foi quando vi uma mulher com um vestido preto longo, os cabelos presos em um coque. Seu corpo era esculpido pelo tecido justo, e ela parecia tão entediada quanto eu naquele lugar. Ela andava de um lado para o outro, resmungando algo. Fiquei observando-a à distância, curioso.