ℭ𝔞𝔭í𝔱𝔲𝔩𝔬 3

2161 Words
Respirei fundo uma, duas, três vezes antes de bater na porta dos aposentos de Apolo. Assim que ele sai do meu quarto, a curandeira havia me pedido para me deitar na cama e fez um encatamento de diagnóstico ou sei lá, e confirmou, eu estou grávida. Uma felicidade como a tempos eu não sentia me tomou por completo, eu serei mãe. Me aprontei para o ritual antes de ir falar com Apolo. O vestido que eu usava era preto fosco com bordados prateados, tinha as mangas longas- o tempo estava frio, pois o inverno havia começado-, o vestido também tinha uma cauda bem longa e era levemente armado com um decote valorizando meus seios. Meu cabelo estava preso em um coque elaborado com alguns cachos soltos, o penteado foi feito exatamente para acomodar a linda coroa com pedras também pretas que era a gêmea a de Apolo. Minha maquiagem não era tão forte assim, o batom nude levemente rosado e um delineado simples com as pálpebras pintadas com um marrom claro. Assim que fiquei pronta vim para o quarto de Apolo e agora estou aqui esperando ele abrir para dar a ele a notícia. Três minutos se passaram até que ele abriu a porta, não totalmente, apenas o suficiente para que apenas metade do corpo dele- sem camisa- ficasse a vista de quem estava ao lado de fora. - Os convidados começaram a chegar?- balancei a cabeça em negação- Então o que está fazendo aqui? Não me lembro de ter te chamado, se não for importante, acho melhor ir embora. - Eu apenas queria te informar que...- ouvi uma risadinha vindo de dentro do quarto- Tem alguém aí com você? Apolo suspirou em frustração. - Isso vem ao caso aqui? O que quer me dizer?- o tom rude dele fez uma raiva me tomar por completo. - Nada- olhei para ele de cima a baixo- Devia dispensar seja lá qual for a puta que está aí, tem pouco tempo para se aprontar, majestade. Dei as costas e sai pisando forte, meus saltos estalando no piso de mármore preto do castelo. Entrei no salão das mulheres de supetão, as meninas ainda estavam de roupas íntimas e o tempo estava ficando apertado. - Alguém pode me explicar por que elas ainda não estão vestidas?- eu praticamente gritei- Quero todas prontas em vinte minutos- todos ali me encaravam com certo espanto, eu nunca havia sido tão dura, acho que nunca nem dei uma ordem sem que parecesse mais um pedido, mas não estava com ânimo nem tinha motivos para me desculpar com ninguém ali. Quando todas continuaram apenas me encarando eu perdi a paciência e gritei:- AGORA PORRA. Todos começaram a se mover, me perguntei se me obedeceram por eu ser a rainha por ter gritado, provavelmente a segunda opção. Eu sempre desconfiei que Apolo havia tirado minha autoridade perante qualquer criado do palácio que não fossem minhas damas de companhia ou as criadas designadas a mim, ninguém realmente levava minhas ordens/pedidos a sério além delas, na verdade todos me olhavam com pena, a pobre princesa obrigada a se casar com um rei perverso. Eu já ouvi muitos rumores dos empregados e guardas, muitos deles diziam que depois de cinco anos eu ainda não havia engravidado porque o casamento nunca fora consumado, o que era uma mentira e agora eu carregava a prova. As garotas foram vestidas com um vestido leve e fluido azul bebê, os cabelos delas soltos e com uma tiara de rosas de inverno- eram rosas em um tom de azul meia noite profundo, são lindas- ornamentado suas cabeças. Estava dando instruções para os últimos dethes quando vi pela janela uma névoa negra e um arrepio subiu por minha espinha. Lorcan havia chegado. Respirei fundo e fui fazer o que Apolo me mandou. Quando cheguei ao hall de entrada do palácio meu marido já estava lá conversando com o elfo traidor. Quando me viu, Lorcan, estampou seu sorriso que outrora eu achava encantador, mas que agora apenas me causava repulsa. - Ache ris velira- ele disse na língua elfica(É bom ver você) - Nigue delios itrot vis- respondi.(Não posso dizer o mesmo). - Velira trec axé irias, nigarecen?- falou com um sorriso de lado provocador.(Você ainda está recentida, querida?) - Jizen oty gos. Nisamotris, velira jozen, pres millison fresh yark flires- imitei o sorriso de Lorcan, que tombou a cabeça para trás em uma gargalhada.(Matou os meus pais. Por mim, vocêestaria morto, mas é gratificante te ver apodrecer naquela floresta) - Continua afiada, Uriela. É bom ver que nem mesmo Apolo consegui quebrar seu espírito- Lorcan respondeu na língua comum. Observei Lorcan de cima a baixo. Os longos cabelos que antes eram loiros quase dourados, agora eram platinados. Os olhos de um verde profundo, mudaram para um n***o como a noite, nenhuma vida brilhava naqueles olhos, era morte, pura morte e escuridão. Os trajes também era preto com dethes vermelhos, uma névoa preta o rondava. Nada parecido com o elfo que um dia eu considerei como uma espécie de figura paterna. - Você fala elfico- não foi uma pergunta, mas assenti para Apolo. Lorcan me olhou surpreso e farejou o ar, então um sorriso de lado direcionado a Apolo. - Finalmente um herdeiro legítimo, hein? Me perguntei quanto tempo ainda iria demorar. Apolo se virou para mim. - Você está grávida?- assenti- Por que não fui informado? - Eu fui contar, mas você tinha companhia e não parecia querer me ouvir, então...- dei de ombros- De qualquer forma, agora você sabe- olhei para Lorcan- É imprecionate, nem mesmo depois de tudo que aconteceu você largou a mania de cuidar da vida dos outros. - Me lembro bem que você sempre gostou dessa mania- Lorcan disse limpando um grão de poeira invisível da roupa. Revirei os olhos, nossa "discussão" acabou quando os nobres de Darlan começaram a chegar, nenhum deles parecia exatamente surpresos ou preocupados ou até mesmo nervosos, com a presença de Lorcan, achei isso estranho, se nenhum deles expressou nenhum reação significante, provavelmente queria dizer que a presença do elfo era frequente. Todos seguiram para a sala do trono, Apolo estava sentado no trono e eu de pé ao seu lado. Vi quando Hakon entrou, ele piscou para mim e eu sorri para ele, que levou a mão a nuca, eu ri baixo, não acredito que ele se lembra, fiz o mesmo. Quando éramos crianças e íamos aos bailes ou reuniões chatas, tínhamos um sinal, levar a mão a nunca significava: vamos sair dessa chatisse e nos divertir. O único problema era como eu sairia dali. Meia hora depois, Apolo se virou para mim, depois de me encarar por dois segundos ele se virou e chamou um criado, quando o mesmo se aproximou, Apolo sussurrou algo. O criado saiu e voltou minutos depois com uma cadeira para que eu me sentasse, agradeci e novamente o criado sumiu da minha vista. Vinho e comida circulavam pelo salão sendo oferecidos aos convidados, música preenchia o ambiente, alguns dançavam, outros conversavam, alguns até já estavam embriagados. Então, quando a lua atingiu seu ápice, uma trombeta soou, todos abriram espaço, para que o centro ficasse livre. A porta foi aberta e as vinte e cinco meninas entraram. Devem estar se perguntando o por que de tudo isso e por que eu me senti tão mal em arrumar essas garotas, eu vou explicar. O inverno em Fenir, nosso continente, costuma ser rigoroso, nos lugares em que os novos deuses são cultuados, oram e fazem oferendas para os deuses clamando para que o inverno não assole as plantações. Mas aqui em Darlam, onde cultuam os deuses dos antigos elfos, a coisa é bem diferente. Um dia antes do inverno de fato chegar, vinte e cinco meninas virgens são escolhidas pelo sacerdote e passam pelo ritual de purificação, que foi o que acinteceu no salão das mulheres mais cedo, depois, quando a lua chega em sei ápice, o rei, no caso Apolo, toma o elixir preparado pelo sacerdote e uma magia antiga e selvagem toma conta dele. Tomado pela magia, Apolo escolherá uma das meninas e tirará a virgindade dela, depois a dará de sacrifício aos deuses. Assim que a garota é sacrificada, é esperado que a primeira neve do inverno comece a cair, isso é um sinal de que os deuses receberam o sacrifício e que serão benevolentes durante o inverno. Eu acho isso brutal e desnecessário, mas apesar de não acreditar, tenho que admitir, faz cinco anos que presencio isso e toda vez a neve cai e o inverno não assola a terra ou distrói as plantações. O elixir é dado a Apolo que logo respira fundo e olha para as meninas, ele desce os quinze degraus que separa o trono dos convidados, ele caminha por entre elas duas vezes antes de parar na frente de uma garota de olhos castanhos avermelhados e os cabelos castanhos aloirados, ela sorri docemente para ele e Apolo toma sua mão e a leva no quarto que foi preparado apenas para isso. Duas horas, foram duas horas escutando gemidos vindo daquele quarto, o salão todo em silêncio ouvindo aquilo, até que cessou. A porta foi aberta, Apolo saiu e a garota logo atrás, ela mancava um pouco. Ela foi levada até o altar e colocada deitada nele, ela parecia meio confusa, mas não questionou, um crido se aproximou de Apolo com uma caixa e a abriu, a faca que eles consideravam sagrada e que era utilizada apenas para isso estava dentro da caixa e Apolo a pegou, ele passou o polegar pela bochecha da garota com um sorriso de lado e então cravou a faca em seu coração. Vi a vida sair dos olhos da garota. Todos no salão se voltaram para as janelas para observar o lado de fora do palácio. Um minuto depois a neve caiu e o salão explodiu em um grito de comemoração. Apolo se sentou novamente no trono, o corpo da garota foi tirado de lá e o sangue foi limpo, a comemoração continuou e quando ninguém estava mais prestando muita atenção no que que estava fazendo ou onde eu estava, saí do lado de Apolo e fui até o canto do salão onde Hakon estava. - Oi- eu disse ao me aproximar. - Oi- ele olhou para mim- O que foi isso? Nunca imaginei ver uma coisa dessas. - Nem me fale- disse em um suspiro. - Você acredita nisso? Quero dizer, sua fé em nossos deuses mudou?- ele perguntou. - Por Luminos, não!- eu exclamei- Mas agora tenho que fazer minhas orações escondida, se alguém souber... bom, você sabe- passei a mão pelo pescoço indicando que seria morta caso me pegassem. - Entendo- ele fez uma cara séria- O que Lorcan está fazendo aqui? - Darkan faz divisa com o reino, e aqui é considerado o reino das trevas por um motivo. Qualquer um que foi mandado para Darkan pode vir para o reino se assim Apolo permitir- olhei para Lorcan- Acho que ele fez isso apenas para me provocar. Ficamos em silêncio por um tempo, até Hakon olhou em volta e se virou para mim fazendo uma reverência dramática. - Rainha Uriela, a senhora me daria a honra desta dança? Ri baixo e olhei por cima do meu ombro, Apolo nos encarava, a expressão fria ele apenas apontou para minha cadeira com a cabeça. Suspirei. - Desculpe, Hakon, não dá- sorri para ele triste- Vai embora ainda hoje para ir para Animalia logo cedo, não é?- ele assentiu- Diga ao Orian que sinto falta dele. Dei as costas para ele e caminhei até meu marido novamente. Nós não conversamos, nem nos olhamos, ele bebia e eu comia. Não demorou para que eu ficasse entediada de novo. Um tempo depois eu comecei a ficar com sono, levei a mão a boca para dar um bocejo, Apolo me encarou. - Levante-se com o sorriso mais convincente que tiver- sorri e me levantei como ele mandou, Apolo fez o mesmo e segurou minha mão, o que atraiu a atenção de muitos convidados, meu marido pigarreou e então todos nós olharam- Eu e a rainha temos um anúncio a fazer. Depois de cinco longos anos tentando conceber um filho, finalmente realizamos esse sonho. E é com grande alegria que, em um dia especial como hoje, eu anúncio que Darlan finalmente espera ansiosamente por seu herdeiro. Novamente a comemoração tomou conta do lugar, brindes eram feitos e nós éramos parabenizados. Olhei para Hakon, ele tinha uma expressão séria, mas quando viu que eu o encarava ele sorriu e levantou a taça, sorri de lado para ele. - Agora pode sair- Apolo sussurrou para mim, o sorriso falso ainda em nossos rostos- Tem um bom motivo. Eu já sabia o que viria agora, era sempre assim nas festividades que tinham no palácio. Apolo segurou minha cintura e grupos nossos corpos, e nos beijamos. Mais um sorriso falso e eu saí de lá indo para os meus aposentos.
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