Albucacys parou o carro na entrada da Favela do Toldo. Era o carro de Salomão. Ele só tinha a moto. Nunca viu sentido em ter carro próprio — usava o do pres ou o de Callebe quando precisava. No clube, era assim: um por todos, todos por um. Os irmãos não eram fáceis, mas também não eram mesquinhos. Todo mundo vivia bem porque o clube dividia o que ganhava. Por igual,sem miséria. Ninguém passava necessidade.
Desceram do carro sem pressa. Albucacys no meio, Corine de um lado e Estela do outro.
— Eu nem sei o que vim fazer aqui... — murmurou ele, sério, olhando ao redor, como se esperasse que acontecesse e ele precisasse ir embora, torceu por isso, mas nada aconteceria para salvá-lo.
— Albucacys... — Estela chamou, como quem já conhecia aquela resistência dele de longe, Corine também conhecia bem o irmão, e era grata aos pais por isso, porque mesmo a adotando, a mãe Dorothy e o pai Salomão, não a impediram de conviver com o irmão, pelo contrário, preservaram os laços e o amor que sempre teve pelo irmão, Corine não se lembrava de muita coisa, mas sabia que Albucacys tinha lutado para salvá-la, porque sempre foram eram dois, só depois que os pais que amava de paixão chegaram.
__ Não pode fugir dessa vez, maninho..
— Eles moram no morro, sim, mas são milionários. Nem sei como me comportar na mesa com esse tipo de gente. Pelo menos o pres não liga pros meus modos. e a mãe de vocês , também não... — ele continuou, distraído. — Sabem que eu não sou educado na mesa. Não tenho essas manias de etiqueta. Vão acabar se envergonhando.
A verdade é que ele cresceu longe de qualquer pompa. Aprendeu a se portar com o tempo, porque a vida exigiu. Virou advogado. Sabia se apresentar, sabia falar. Mas à mesa... era ele mesmo. Nada de postura reta ou talher separado. Não era um gentleman, nem queria ser.
Estela o olhou com um sorriso calmo, como quem via algo bonito no medo dele.
— Isso não importa pra eles. O tio César odeia etiqueta. A tia Paloma não vai se importar. Eles não esperam nada diferente de você. E eu e Corine muito menos.
Corine confirmou com a cabeça e sorriu. Depois, como se dissesse “chega de bobagem”, beijou o rosto do irmão.
Subiram a rua devagar. O morro estava em paz, algumas crianças ainda brincavam lá embaixo, de bola, pipa e bicicleta. Havia música vindo de uma janela aberta, cheiro de pão fresco de alguma padaria mais acima. Era um morro organizado, limpo, sem presença de polícia. E se havia respeito, era porque César Cavallari sabia como manter as coisas no lugar.
A casa dos Cavallari não era uma mansão, mas chamava atenção pela segurança e organização. Tinha um andar, fachada clara, janelas bem cuidadas e câmeras discretas em cada canto. Não havia ostentação. Mas havia domínio.
Foram direto pro quintal, onde uma mesa já estava montada na frente de um chalé rústico, com estrutura de madeira grossa e acabamento de quem entende o que é viver bem com o essencial.
Era ali que viviam César, sua esposa Paloma e o filho Guido.
Paloma era conhecida. Uma mulher que não abaixava a cabeça pra ninguém, mas também sabia ser boa anfitriã. Estava sempre elegante. Usava hijab, roupas de tecidos finos, bem ajustadas ao corpo sem apelação. Tinha um rosto sereno, de beleza tranquila, que impunha respeito sem precisar levantar a voz. Era bonita. Daquelas mulheres que muitos homens desejariam ter como eposa. E César era completamente apaixonado por ela — isso até quem não convivia sabia.
Guido apareceu no meio do caminho, desceu os últimos degraus da entrada com o mesmo jeito seguro de sempre. Cumprimentou Albucacys com um aperto de mão firme — um gesto que ele teve que retribuir por respeito, mesmo contra a vontade. Sorriu para Estela, e depois virou-se para Corine, oferecendo a mão como se fosse algo natural. Ela aceitou e subiu de mãos dadas com ele. Albucacys pensou em reclamar. Mas Estela lançou um olhar direto, quase duro. E ele recuou.
Foram conduzidos ao fundo. Alguns homens do comando de César estavam por ali. Sentados, conversando baixo, observando o movimento. Levantaram-se para cumprimentar os visitantes. Eram homens grandes, de fala curta. Cumprimentaram Albucacys com firmeza, mas sem hostilidade.
No fim das contas, ele se sentiu melhor do que imaginava.
A comida era excelente. Simples, bem feita, com tempero de casa e fartura. E os homens não comiam com garfo de prata ou faca alinhada. Era colher e mão. Paloma tinha certo refinamento, mas não se importava com o jeito que as pessoas comiam. César Cavallari, sentado na ponta da mesa, servia-se como qualquer um.
Albucacys se pegou relaxando. Comeu bem. Riu e por um momento, esqueceu que estava em "território inimigo".
E percebeu que não estava.
Quando o almoço terminou, Paloma se levantou e começou a recolher os pratos. Estela e Corine a acompanharam, sem cerimônia. As três riam enquanto tiravam as louças da mesa. A cozinha era dentro da casa principal, e Paloma, mesmo sendo a anfitriã, não deixava ninguém trabalhar sozinha.
— A gente coloca tudo na lava-louça, tia, pode deixar — Paloma falou, tinha uma lava-louças industrial..
Enquanto isso, Guido se aproximou de Albucacys..
— Eu vou cuidar bem da sua irmã — Guido disse, calmo, sentando ao lado.
Albucacys não respondeu de imediato. Só baixou a cadeira, descruzou os braços e olhou de lado.
— O chalé é você quem dorme?
— Era do meu avô paterno.Durmo por lá algumas vezes..
— Sozinho?
Queria ter certeza que Guido não queria somente conseguir uma noite na cama de Corine..
— Sozinho. Às vezes um amigo do morro passa lá, mas mulher nenhuma. Nem de visita.
— Nenhuma?
— Nenhuma. Nunca me deitei com mulher nenhuma, Albucacys. Eu quero casar com a sua irmã. Disse isso a ela quando a gente ainda era criança. E minha mãe me ensinou a ser leal. Meu pai também.
Albucacys soltou um leve riso pelo nariz, mas não era deboche. Era alívio disfarçado.
Olhou pro garoto. Tinha corpo de homem. Mão calejada. O tipo que metia medo em muito adulto. Mas estava ali, dizendo que era virgem por respeito a Corine.
— Eu ainda não gosto de você.
— Gosta sim, quase todo mundo gosta de mim. — Guido sorriu..
__ Além de metido ainda é convecido..
César fumava um cigarro que o seu povo fazia, era índio e não escondia as raízes, não se meteu na conversa, porque havia criado seu filho para ser homem, e um homem resolvia os seus próprios problemas.
Mas junto com os outros homens, o tempo passou devagar. Mais de uma hora de conversa no quintal. Do lado de dentro, as meninas conversavam com Paloma. Trocaram receitas, histórias da infância, riram.
Partiram no fim do dia..
Ele deixou Estela dirigir, e se sentou atrás com Corine..
— Vai ficar chateado comigo por causa do Guido? __ Corine perguntou.
— Não, Corine. Eu só queria que ele morasse do outro lado do mundo. Tipo no Polo Sul. Queria que ele fosse fe.io, muito f.eio. Mas não vou ficar chateado.Ele é um bom rapaz. Vai te tratar bem. É só... eu me sinto com ciúmes.
— Eu sei. Mas não sei o que fazer com com o ciúmes seu, do papai e do tio Callebe.
Albucacys sorriu, encostando a testa na dela.
— Vou tentar não m.atar o Guido.
— Só isso já ajuda — Corine respondeu, leve.