Anotações

914 Words
Albucacys se sentou no quarto, mas sentia o corpo quente demais. O estresse, a tensão... e a forma como Estela andava se aproximando mexia com ele mais do que queria admitir. Levantou e foi direto para o banheiro. Precisava de um banho frio — e foi exatamente o que fez. A água caiu gelada sobre sua pele, mas ele não se mexeu. Ficou parado, respirando fundo. O cansaço vinha junto com o desejo, e aquilo era perigoso. Estela era doce, curiosa, e era natural que estivesse se aproximando. Ele entendia. Mas se fossem pegos por alguém em alguma situação embaraçosa— principalmente por Salomão — não haveria desculpa que resolvesse. Saiu do banho ainda nu, secando o corpo com relutância. Sentou-se à mesa e puxou o caderno onde costumava fazer anotações pessoais. Escreveu novamente o nome do município onde nasceu: Nacip Raydan.Nem aparecia direito no mapa. Um lugar esquecido, escondido. Anotou o nome da mãe também. O nome verdadeiro. Susana.Um nome bíblico. Ele lembrava disso. Lembrava que ela nunca cortava o cabelo. Era liso, escuro, comprido. Tão comprido que arrastava no chão quando ela se abaixava para rezar. O nome do pai... esse ele não sabia. A mãe nunca contou. E, com o tempo, Albucacys entendeu que aquele silêncio dizia algo. Sempre que perguntava, ela respondia a mesma coisa: — Seu pai é o silêncio. Era a única resposta. E, por mais estranho que fosse, Albucacys entendia que aquela fala escondia alguma coisa. O nome do padrasto, isso Albucacys nunca soube com certeza, só lembrava de o chamarem de Valtinho, talvez fosse Valter, mas ele não podia afirmar, não tinha como saber, ninguém dizia mais nada além daquele apelido Ele também não se lembrava de ter convivido com outras crianças, sua infância foi sempre cercada de silêncio, de medo, de vozes sussurradas atrás da porta, primeiro era só ele, depois veio Corine, pequena, assustada, e foi por ela que precisou colocar fogo na casa, fugir, salvar a irmã, era disso que se lembrava, e de mais algumas coisas A letra J na parede, desenhada com carvão, as rezas que a mãe fazia de madrugada, as orações apressadas do padrasto, a pobreza, a falta de comida, a falta de cuidado, e principalmente, a falta de alento, a mãe não parecia se importar, e o homem também não, e até hoje Albucacys não entendia o porquê, como podiam viver daquele jeito, como podiam aceitar aquilo como se fosse normal Pegou o caderno e desenhou, porque desenhar era uma das poucas coisas que aprendeu na infância, desenhou o rosto da mãe, desenhou p cabelo longo, que caía pelas costas e tocava o chão quando ela se ajoelhava pra rezar, desenhou o padrasto também, o rosto tenso, os olhos que nunca mostravam nada além de raiva, depois fechou o caderno, jogou de lado e se levantou Estava nu, o corpo ainda úmido do banho frio, deitou assim mesmo, sem pensar muito, sem se importar com o lençol gelado, fechou os olhos tentando descansar, mas os abriu de novo quando ouviu a porta se abrindo Estela entrou devagar, os passos quase sem som, os olhos foram direto pra ele, e ele não se mexeu — Vai me assustar como aquele dia? — ela perguntou. — Não, não vou, Estelinha — ele respondeu baixo, a voz rouca de sono e de memória — foi id.iotice minha, eu queria te afastar, por respeito ao seu pai, mas agora, tenho a permissão dele. Albucacys se levantou da cama , fugia do desejo que nasceu com força, passou as mãos no rosto, respirou fundo, era muito cedo, mas a toalha escorregou do corpo, caiu no chão. E ela viu Viu o que queria ver, como imaginava e talvez até mais, viu o corpo que já era seu desejo há muito tempo, e apesar de saber que ele havia passado pela cirurgia, ainda era ele — grande, bonito, homem de verdade — e o medo que ela pensava que teria... simplesmente não veio Ela se levantou também, como se algo a puxasse. — Estelinha... escuta, escuta, não faz isso, por favor, não faz isso comigo, você sabe que é cedo, sabe disso, não sabe? — Sei, — ela respondeu, os olhos presos nos dele — mas e os nossos momentos de descoberta? — Vamos ter, — ele garantiu, se aproximando e puxando-a de lado, colando os corpos, mas mantendo o controle — juro que vão acontecer, vamos ter nosso tempo, nossas descobertas, mas agora eu preciso me fortalecer, preciso aprender a não ultrapassar os limites que a gente ainda nem definiu direito Ele beijou o rosto dela, depois a boca, um beijo calmo, carregado de cuidado, mas também cheio do desejo que estava ali, vivo, pulsando entre os dois — Vai dormir com Corine, vai... — ele pediu, baixando a cabeça e encostando a testa na dela — eu amo você, Estelinha, e tô lutando com tudo que tenho pra não quebrar a confiança do seu pai, do seu tio, da sua mãe Dorothy... se eu te levo pra cama assim, agora, eu perco a moral até pra orientar sua irmã... me ajuda, por favor, só mais um pouco, logo isso tudo vai deixar de ser curiosidade e vai virar certeza Ela fechou os olhos, fez um som leve, quase um resmungo de reclamação, mas não insistiu __ Boa noite.. _ Boa noite, Estelinha.. Ela saiu do quarto, ele trancou a porta, deito e foi se ma@sturbar, porque até os t£stículos doíam.
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