CAPÍTULO 3: O OLHAR DE UM SEGUNDO

586 Words
O despertador de Gabriel não tocava. Ele simplesmente acordava às 6h30 em ponto, como se um relógio interno, regulado por anos de disciplina, não permitisse falhas. Sua rotina matinal era um ritual sagrado, mas não só o seu, o de toda família. Oração. Leitura da Bíblia. Café da manhã em silêncio com a família. Que eles chamam de “devocional”. A casa era tranquila e alegre, mas a expectativa era grande do pai com os filhos. Seu pai, o Pastor Samuel, ocupava a cabeceira da mesa com uma autoridade que preenchia o cômodo. Samuel estava preocupado com o futuro dos seus filhos. "E a monografia, filho? Como está o desenvolvimento do seu trabalho sobre a Igreja e os desafios da pós-modernidade?", o pai perguntou, cortando um pedaço de pão. "Está andando, pai. Tenho pesquisado bastante." A resposta era automática. Era uma meia-verdade. Sua pesquisa tinha andado, de fato, mas para um território perigoso: os argumentos céticos que ele deveria estar refutando estavam começando a seduzi-lo. "O centro de jovens está precisando de mais engajamento, Gabriel", sua mãe complementou, com seu olhar sempre atento. "Você poderia liderar um g***o de oração antes das aulas, o que acha?" Sua mente não estava ali, vagava para a livraria. Para ela, a Lara. O nome dela aliviava seus pensamentos, criando diversos universos paralelos em sua mente. "Vou pensar, mãe." Ele se despediu, pegou a mochila e, finalmente, cruzou a porta de casa. O ar lá fora enchia seus pulmões e refrigeravam-no, já seu coração aquecia a cada passo. E então, começava o seu ritual. Caminhava os primeiros metros com a cabeça baixa, mas ao se aproximar do trecho da rua paralela ao seu prédio, seu coração saltava para fora da camisa. Ele sabia exatamente qual janela era a dela. O terceiro andar, com a persiana levemente puxada. De longe enxergava. E, como em todas as manhãs, seus olhos automaticamente se desviaram por apenas um segundo. Um olhar rápido, disfarçando que estava vendo a hora no relógio e observando o céu. Ela estava lá. Uma silhueta atrás do vidro. Cabelos claros, segurando uma xícara. Aquela imagem o acompanhava o dia todo. Era mais do que atração física. Era curiosidade. Ela tinha um ar de independência, de quem questionava o mundo. Algo que ele, preso em algumas das suas tradições herdadas, admirava secretamente. O gato listrado surgiu, e ele se abaixou automaticamente. Foi um momento de pura verdade, um alívio. Foi quando ele sorriu, genuinamente. E, no fundo, torcia para que ela estivesse vendo. Na livraria, aquilo não foi um acidente. Ele a viu entrar e esperou cinco minutos antes de seguir. Aproximar-se foi um ato de coragem que ele nem sabia que tinha. Seu telefone toca, um alarme de lembrete "reunião na igreja com meu pai." O lembrete o fez refletir, pois ele sabia que enfrentaria dificuldades se avançasse na aproximação com Lara. Ele não podia esquecer quem era nem suas responsabilidades. E de quem era ela: A garota do livro "A ilusão da fé". A filha dos ateus. Aqui está o texto repetido com correção suave e fluidez natural: Ele se virou e caminhou, mas uma parte de sua mente ficou para trás com ela. Ela era um perigo. Uma tentação. Um desvio do plano de Deus e daquele que seus pais tinham para sua vida. Então, por que aquele desvio parecia tão mais vivo do que o caminho reto? Antes que pudesse responder, algo - ou alguém - interrompeu seus pensamentos, fazendo-o parar no meio do caminho.
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