A decisão de adiar a fundação da igreja e buscar terapia não foi uma ruptura súbita, mas um desmoronamento controlado. Nos dias que se seguiram, a casa de Lara e Gabriel parecia habitada por dois sobreviventes de um naufrágio que, ao chegarem à praia, não sabem se celebram a vida ou se lamentam a perda do navio. O ar, outrora saturado de expectativas não verbalizadas, agora respirava-se com um misto de alívio e apreensão. Era o alívio de ter finalmente nomeado os demónios, mas a apreensão de saber que, ao expulsá-los, a casa ficava vazia, aguardando para ser reconstruída do zero. O que Deus estava por fazer. Lara movia-se pela cozinha com uma consciência nova. Cada gesto — o tilintar da colher na chávena, o som da chuva batendo no vidro — parecia carregar um peso existencial. Numa manhã

