CAPÍTULO 22: A HERANÇA DA FÉ

940 Words
"Pai," Gabriel começou, sua voz não era de desafio, mas de luto. "Você me ensinou que a fé move montanhas. Mas nunca me disse que, ela sendo usada de uma maneira errada poderia soterrar pessoas." O silêncio no auditório era tão espesso que parecia possível cortá-lo. Todas as células do meu corpo estavam voltadas para Gabriel, transmitindo-lhe toda a força que eu possuía. Ele segurava o microfone como se fosse uma âncora em um mar revolto. Seus olhos permaneciam fixos na mãe. Era para ela que ele iria falar. "Mãe", a voz dele saiu trêmula, mas clara. "Lembro-me de você me ensinando a orar antes de dormir. Você me falava sobre inferno e julgamento. Você me falava sobre um Deus que era amor. Um amor tão grande que não cabia no meu coração de criança." Mara levou uma mão ao peito, seus lábios tremiam. "É esse Deus que eu ainda busco", Gabriel continuou, sua voz ganhando firmeza. “Eu sei que Deus existe e que a Sua Palavra é a verdade. Você me ensinou o caminho e eu quero vivê-lo. Mas acredito que as suas atitudes atuais não estão de acordo com o que Jesus ensinou na Bíblia.” O meu amor pela Lara é real e verdadeiro. A minha fé não vai mudar só porque ela não acredita. Em nenhum momento a minha convicção sobre quem Deus é mudou por eu gostar dela.” O Pastor Samuel estava rígido em sua cadeira, seu rosto uma máscara de granito. "Você fala de amor, filho, mas suas ações só trazem dor e divisão", o pastor retrucou, sua voz soando abafada no silêncio do salão. "Divisão, pai? Ou a realidade que quero viver?" Gabriel respondeu, e pela primeira vez, não havia medo em seus olhos, apenas uma tristeza profunda. "A verdade é que eu não sou você. A verdade de que meu caminho com Deus pode ser diferente do seu. A verdade de que amar Lara não me afasta de Deus, mas me ensina sobre um tipo de amor que vai além dos muros que tentamos construir." Foi então que uma figura pequena e curvada surgiu na entrada do auditório. Dona Silvia. Ela caminhava com dificuldade, apoiada em uma bengala, mas sua presença emanava uma autoridade silenciosa que fez todos se virarem. "Silvia?", o Pastor Samuel sussurrou, sua confiança vacilando pela primeira vez. Ela ignorou o filho e caminhou diretamente em direção ao palco. Pastor Miguel, percebendo a importância daquele momento, rapidamente subiu ao palco e trouxe uma cadeira para ela. Ela se sentou com dignidade, ao lado do neto. "Samuel", ela disse, e sua voz, embora fraca, carregava o peso de décadas. "Pare. Pare agora, antes que você perca seu filho para sempre, assim como você acha que seu pai me perdeu." O pastor pareceu encolher em sua cadeira. "Mãe, isso não é... você não entende." "Eu entendo perfeitamente", ela cortou. "Estou vendo a história se repetir. Você está fazendo com seu filho o que seu pai fez com você." Ela se virou para a plateia, seus olhos sábios percorrendo os rostos. "Meu marido, o avô do Gabriel, era um homem bom, mas rígido. Ele acreditava que a fé era só sobre obedecer, mas esquecia do amor, ambos precisam andar juntos. Quando Samuel era jovem, ele amava uma garota. Uma musicista, cheia de vida e paixão. Meu marido não aprovou. Disse que ela não era 'adequada'. Ele deu a Samuel o mesmo ultimato que Samuel está dando ao Gabriel agora: a família e a igreja, ou a musicista." O Pastor Samuel estava pálido, suando. "Mãe, por favor..." "Ele escolheu a igreja", Dona Silvia continuou, implacável. "Ele enterrou seu amor, casou com a Mara, uma moça maravilhosa que ele não amava, não daquele jeito. E ele passou a vida tentando provar para si mesmo que fez a escolha certa, tornando-se ainda mais rígido, mais inflexível. A dor daquela rendição o tornou amargo. E agora, ele está forçando o próprio filho a cometer o mesmo erro, achando que isso vai curar sua própria ferida." Ela olhou para o filho, e sua expressão era de uma pena imensa. "Samuel, meu filho. Você não está protegendo o Gabriel. Você está tentando consertar seu próprio passado através dele. E no processo, está quebrando a sua família." A revelação pairou no ar, mudando tudo. A luta não era mais sobre teologia. Era sobre um pai transferindo suas próprias feridas para o filho. Mara, ao lado do marido, começou a chorar silenciosamente, não de tristeza, mas de alívio. Como se uma verdade que ela sempre soube, mas nunca ousou nomear, tivesse finalmente sido dita em voz alta. O Pastor Samuel pareceu encolher ainda mais, a fachada do homem poderoso se desfazendo para revelar um menino ferido. Gabriel olhou para a avó, depois para o pai, e suas próximas palavras não foram de vitória, mas de uma oferta de paz. "Pai", ele disse, sua voz suave. "Eu não quero lutar contra você. Eu só quero o direito de amar sem pedir permissão. Eu te amo. Eu amo a mãe. E amo Lara. Esses amores não precisam competir. Eles podem coexistir. Mas para isso, você precisa soltar as rédeas." Ele estendeu a mão, não no palco, mas simbolicamente, através do espaço que os separava. "Vamos para casa, pai. Vamos cuidar da mãe. Juntos. De uma forma nova." A plateia estava completamente imóvel. A bola estava agora no campo do Pastor Samuel. Ele olhou para a mão estendida do filho. Olhou para a esposa chorando. Olhou para a mãe, cujo olhar era ao mesmo tempo desafiador e amoroso. O silêncio era insuportável. E então, muito lentamente, o Pastor Samuel se levantou.
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